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Com areia, vento e seca, Brasil vislumbra seu futuro com mudança do clima

Com areia, vento e seca, Brasil vislumbra seu futuro com mudança do clima

Quando cientistas alertaram que a subida da temperatura média do planeta já estava levando ao aumento na frequência de eventos climáticos extremos, patetas negacionistas, orgulhosos de sua burrice, questionavam nas redes “este inverno fez mais frio, cadê o aquecimento”? Agora, brasileiros assistem assustados a tempestades de areia engolirem cidades (desta vez foi Campo Grande), a rajadas de ventos fortes causarem mortes (como as ocorridas em um naufrágio de um barco-hotel no rio Paraguai nesta sexta) e a água faltar na torneira das cidades, nas turbinas das hidrelétricas, na irrigação da lavoura, no calado das hidrovias. O que muitos chamam de inferno é apenas um aperitivo de nosso novo normal.

Leonardo Sakamoto

Qualquer alce que caiu em um buraco na Sibéria após o colapso do permafrost local ou qualquer urso polar deprimido por estar à deriva em uma placa de gelo que se soltou no Ártico ou ainda qualquer tamanduá-bandeira cercado pelas chamas de uma queimada descontrolada na Amazônia é capaz de dizer que, infelizmente, já ajustamos o termostato do planeta para a posição “gratinar os idiotas”. E que, neste momento, diante da falta de medidas eficazes tomadas por governos para reduzir as emissões de carbono, estamos nos esforçando apenas para que o assado fique pronto antes da hora. As mudanças climáticas em andamento na Terra já são irreversíveis. Nas próximas décadas, teremos milhões de refugiados ambientais por conta da subida no nível dos oceanos e pelos eventos climáticos extremos; fome em grande escala devido à redução e desertificação de áreas de produção e à perda da capacidade pesqueira; aumento na quantidade de pessoas doentes e subnutridas, além de conflitos e guerras em busca de água e de terra para plantar. Muita gente vai morrer no Brasil e no mundo. E os sobreviventes terão que adaptar sua vida para conviver com um ambiente mais hostil. O que não significa que as mudanças climáticas não são mitigáveis, ou seja, que não podemos tentar reduzir seus danos. O mundo tentava manter o aumento da temperatura global em 1,5 graus Celsius até 2100, o que deve ser praticamente impossível dada a nossa incompetência. Podemos chegar a 3, 4 ou 5 graus a mais. De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), com um limite de aumento de 2 graus Celsius na temperatura global, 37% da população global estará exposta a ondas de calor severas pelo menos uma vez a cada cinco anos; em um em cada dez anos, não haverá gelo no verão do Ártico; o nível do mar vai subir quase meio metro até 2100; a pesca reduzirá a produção em 3 milhões de toneladas e a agricultura produzirá 7% a menos de trigo nos trópicos. Fazer com que pessoas acreditem que tudo está mudando sem que sintam isso na pele é difícil. Por isso, que esses terríveis eventos extremos no Brasil e no mundo têm a capacidade de mobilizar por mudanças. Talvez o esperado investimento para a redução de emissões e a mudança no comportamento dos cidadãos, bem como o desenvolvimento de tecnologias mais baratas para sequestrar carbono da atmosfera, virão quando houver pânico diante dos tais eventos. O mundo, ainda em choque com os horrores da Segunda Guerra Mundial, proclamou, três anos após o fim do conflito, a Declaração Universal dos Direitos Humanos – nosso documento mais importante. O Brasil, ainda olhando para as feridas de 21 anos de ditadura militar, promulgou, três anos depois, em 1988, uma Constituição Federal – que pode não ser perfeita, mas é a melhor garantia de direitos fundamentais que tivemos em toda nossa história. Infelizmente, é depois de andar pelo vale da sombra que estamos mais abertos para olhar o futuro e desejar que o sofrimento igual nunca mais se repita. Infelizmente, porque há inocentes (desde os que são muito novos ou que nem nasceram até os que sempre estiveram alijados do consumo por serem pobres demais) que não são sócios da tragédia ambiental como a maioria de nós. A questão não é mais “evitar” mudanças climáticas e sim “reduzir a tragédia que já começou”. O mundo precisa entender que já está no fundo poço. A questão é que, no fundo, há um alçapão. Por fim, vale ressaltar que brasileiros vão passar vergonha na COP-26, a nova Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas, que será realizada no final de outubro, em Glasgow, na Escócia, quando países vão debater como tirar do papel as metas para reduzir as emissões de carbono do papel. Nosso país será uma das estrelas do encontro, ostentando um abismo entre a promessa vazia de metas grandiosas e a prática cotidiana de destruição da Amazônia, do Cerrado, do Pantanal, da Mata Atlântica, impulsionada pelo desmonte da fiscalização por parte do presidente da República Jair Bolsonaro e pela boiada de projetos que facilitam a grilagem e a destruição do meio ambiente sob a batuta do presidente da Câmara Arthur Lira. Por que há uma pressão muito grande em todo o mundo sobre o Brasil apesar de emitirmos apenas 3% dos gases de efeito estufa? Porque segurar as queimadas e o desmatamento é mais simples do que mudar estruturas de produção. E porque se o país acelerar na destruição das florestas, vamos também adiantar o relógio do fim do mundo em direção à meia-noite. Ao invés de se aproveitar disso para ganhar prestígio internacional e dinheiro, afinal estamos prestando um serviço ambiental importantíssimo ao mantermos o carbono imobilizado na forma de floresta de pé, Bolsonaro prefere afagar madeireiros, pecuaristas, garimpeiros e grileiros de terras, avisando que não seriam punidos caso ajudem a provocar o Juízo Final. E desfilando nu, apenas coberto de glitter verde e amarelo, com um tapa-sexo escrito “soberania”, sendo aplaudido por terraplanistas climáticos, o presidente vai passando (vergonha) pelo mundo. Pensa que o calorzinho que sente é orgulho, quando, na verdade, é dióxido de carbono, metano, monóxido de carbono e nitroso de oxigênio da queima de nosso patrimônio vegetal. Não acreditem em quem fala que estamos em contagem regressiva: já adentramos uma nova era de extinção em massa de uma série de espécies. Talvez menos a nossa. Pois, ao final, os ricos comprarão sua segurança e herdarão a Terra, desta vez mais árida e violenta. O pouco tempo que temos é para que o mundo não se torne um plágio barato de Mad Max – no qual líderes políticos e econômicos egoístas se sentirão cada vez mais em casa. Tic, tac. Tic, tac.

FONTE

https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2021/10/16/com-areia-vento-e-seca-brasil-vislumbra-seu-futuro-com-mudanca-do-clima.htm