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2024 será o “annus horribilis” para a política mundial, diz Eurasia

O relatório diz que a possibilidade de uma paz sustentada no Oriente Médio, Europa e EUA “não estão remotamente” próximas.

O ano de 2024 na política internacional será marcado por três guerras que deixarão a comunidade internacional fragilizada, fazendo com que a perspectiva dos próximos meses é que o mundo viva um “Annus horribilis”, segundo a consultoria Eurasia em seu relatório de riscos para 2024.

O texto diz que as guerras entre Israel e Hamas, Rússia e Ucrânia e a eleição nos Estados Unidos serão determinantes para os rumos do mundo neste ano – com a consultoria classificando o pleito americano como uma “guerra” entre EUA vs si.

A Eurasia ressaltou ainda que um terço da população mundial irá às urnas neste ano, mas que serão as eleições americanas o mais decisivo pleito para definir os rumos do planeta, dizendo que 160 milhões de americanos irão determinar o destino de 8 bilhões de pessoas.

“Nenhum destes três conflitos tem barreiras de proteção adequadas que os impeçam de piorar. Nenhum delas tem líderes responsáveis dispostos e capazes de consertar, ou pelo menos limpar, a bagunça”, disse a Eurasia em relatório, ressaltando que nos três casos a lógica de “nós contra todos” impede qualquer tipo de avanço para a resolução do conflito e exacerba a vontade das partes de utilizarem mecanismos extralegais para derrotarem seus adversários.

O relatório diz que a possibilidade de uma paz sustentada no Oriente Médio, Europa e EUA “não estão remotamente” próximas, e que nem mesmo o aquecimento global consegue superar o risco das três guerras que podem mudar o rumo do planeta esse ano. Segundo a Eurasia, o “mundo está respondendo” aos desafios do aquecimento global “de maneira coletiva, apesar de devagar”.

Diante de um cenário fragmentado, a Eurasia diz que a relação entre EUA e China não está entre os maiores riscos para este ano, sob o argumento que um mundo em conflitos irá forçar as duas potências a aumentar o diálogo para evitar impactos maiores na economia e nas cadeias de produções globais.

Veja abaixo os 10 principais riscos em 2024 para a política mundial, segundo a Eurasia

Eleições americanas

A consultoria diz que as eleições presidenciais de 2024 irão aumentar ainda mais a divisão política do país, mesmo em um momento em que a economia interna apresenta bons resultados. Segundo a Eurasia, o pleito deste ano vai “testar a democracia americana a um nível que o país não viu em 150 anos que vai afetar a credibilidade americana no cenário global”.

O relatório diz que os dois possíveis candidatos – Joe Biden pelos democratas e Donald Trump pelos republicanos – são “unicamente impróprios” para o cargo, com destaque para os problemas legais de Trump, e a possibilidade de ir preso caso não seja eleito, e a idade avançada de Biden caso ele seja reeleito e termine o mandato.

Conflitos no Oriente Médio

Apesar de ressaltar que o Irã e os países do Golfo Árabe estão mais próximos do que nunca após a China mediar um acordo de reaproximação entre as nações, o conflito entre Israel e Hamas e a constante troca de hostilidades entre forças israelenses e do Hezbollah, no sul do Líbano, tornam um conflito generalizado uma possibilidade na região.

A Eurasia traz uma série de cenários em que o conflito entre Israel e Hamas se torne regional, ressaltando os riscos do Hezbollah, dos rebeldes Houthis no Iêmen e das milícias privadas Shia, com atuação no Iraque.

Guerra na Ucrânia

“A Ucrânia será de fato dividida neste ano”, é assim que começa a avaliação da Eurasia sobre a invasão russa, que irá completar dois anos em fevereiro. A consultoria vê como inevitável o fim da guerra com Kiev perdendo territórios dominados pela Rússia,

O relatório diz que a guerra vive um momento decisivo: “Se a Ucrânia não resolver os seus problemas de mão-de-obra, aumentar a produção de armas e definir rapidamente uma estratégia militar realista, poderá “perder” a guerra já no próximo ano.”

Inteligência artificial descontrolada

Se 2023 foi o ano em que sistemas de inteligência artificial se popularizaram, 2024 será o ano em que começaremos a ver lacunas de legislação no setor que irão provocar uma onda de mudanças e regulações.

Segundo o relatório, dois riscos relacionados à IA se destacam. O primeiro é a desinformação, que poderá ser usada por agentes de Estado para desestabilizar adversários. O segundo é a proliferação deste tipo de tecnologia em outros países em um momento em que sistemas de IA não foram completamente regulados ou calibrados.

Eixo de rebeldes

A Eurasia diz que o eixo de “Estados rebeldes”, composto por Rússia, Irã e Coreia do Norte, estarão mais próximos neste ano, aumentando o risco de que as nações atuem para desestabilizar o sistema político global.

“São agentes do caos na ordem geopolítica atual, empenhados em minar as instituições existentes e os governos e princípios que os sustentam”, disse a consultoria em relatório.

Sem recuperação econômica na China

Após um 2023 em que a China conseguiu atingir sua meta de crescimento sem conseguir se recuperar plenamente da crise imobiliária, o ano de 2024 começa com a China entre as preocupações para a economia global.

A Eurasia diz que questões como o envelhecimento da população, aumento dos custos de trabalho, alto endividamento das famílias, esforços ocidentais para o nearshoring e a dependência contínua do investimento estatal para o crescimento do país poderão afastar investidores da China e afetar o desempenho econômico do país nos próximos meses.

A batalha por metais essenciais

A Eurasia destaca que apesar de serem materiais essenciais para quase todas as indústrias modernas, a alta concentração de materiais entre alguns poucos países irá provocar gargalos de extração, refino e processamento dos produtos, trazendo como consequência medidas protecionistas.

Inflação: sem espaço para erro

A crise global de inflação de 2021 começou a arrefecer em 2023, mas ainda terá efeitos em 2024, quando as taxas básicas de juros pelo mundo devem continuar altas devido a riscos do cenário internacional, como as guerras na Ucrânia – que podem afetar os preços de commodities – e no Oriente Médio – que afeta o preço do petróleo e do comércio marítimo.

“Com o espaço fiscal já diminuído pela à pandemia, pelos esforços de “redução de riscos”, pela transição energética, pela guerra Rússia-Ucrânia e pelo aumento dos custos dos juros, novos choques negativos de oferta levarão os bancos centrais a apertar, em vez de aliviar, a política monetária para controlar as expectativas de inflação”, disse a Eurasia em relatório.

A volta do El Niño

O ano de 2023 foi marcado por um fenômeno El Niño mais forte do que a média, fazendo com que o mundo tivesse a média anual de temperatura mais quente já registrada, algo que pode se prolongar para 2024.

Segundo a Eurasia, o El Niño afetará grande parte do mundo, porém os países do Indo-Pacífico, da América Latina e da África Austral serão os mais atingidos.

O Sul e o Sudeste Asiático, a América Central, o norte da América do Sul e a Austrália correm o risco de períodos de seca prolongados e de temperaturas elevadas, enquanto no Brasil, a probabilidade de seca em algumas partes do país irão agravar o risco de incêndios, acelerando a devastação de florestas e ameaçando as fontes de água doce e a produção de energia hidroelétrica. Até mesmo o norte dos EUA e do Canadá deverão registrar temperaturas elevadas.

Negócios arriscados

A Eurasia diz que movimentos corporativos baseados nas “guerras culturais” dos EUA estão começando a afetar negócios, com empresas lideradas pessoas alinhadas a direita recusando trabalhar com companhias que adotam medidas progressistas, citando uma determinação do Texas de negar recursos públicos a empresas financeiras que boicotam companhias de combustíveis fósseis para cumprir metas ESG.

FONTE:

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2024/01/08/2024-ser-o-annus-horribilis-para-a-poltica-mundial-diz-eurasia.ghtml