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600 mil mortos: Economia brasileira fica abaixo da média global na pandemia

600 mil mortos: Economia brasileira fica abaixo da média global na pandemia

Covid-19: Fim da pandemia parece se aproximar, mas economia brasileira fica abaixo da média global No dia em que o Brasil atinge 600 mil mortes por covid-19, cenário que economistas vislumbram é de crescimento aquém do potencial por conta da turbulência política e da inflação acima do esperado

No Brasil e em vários países do mundo há a expectativa de saída da crise sanitária no decorrer do ano que vem, com retirada gradativa de regras de isolamento social e a retomada do setor de serviços.

Por Marta Watanabe, Valor Econômico

No Brasil, porém, além de carregar a carga de mais de 600 mil vidas perdidas com a covid-19, a expectativa de saída da pandemia chega já marcada por revisões frequentes de projeções para 2022 que, embora guardem alguma diversidade entre as várias casas, têm caminhado para o sentido único de elevar a estimativa da taxa de inflação, de juros e de reduzir a do crescimento do PIB. O resultado, apontam economistas, pode ser um crescimento aquém da média do mundo no período pandêmico, num cenário em que a condução política e fiscal do governo federal tem papel determinante.

Escassez hidrica + inflação + aperto monetário & câmbio depreciado

E Apesar de indicadores relativamente melhores de casos de contágio e mortes por covid, do aumento da cobertura vacinal, da reação do setor de serviços e da melhora dos indicadores de emprego, fatores negativos têm se sobreposto no olhar para o ano que vem. Entre eles, escassez hídrica, inflação acima da esperada, o que leva a aperto de política monetária, além de um câmbio depreciado ao sabor de incertezas fiscais e políticas, num quadro que deve ficar ainda mais nebuloso por conta das eleições em 2022. Carlos Kawall, diretor do Asa Investments, diz que apesar do terrível legado de 600 mil mortes, uma análise fria do cenário fiscal e das contas externas que teremos ao fim de 2021 mostra um quadro melhor que o esperado após os impactos econômicos da pandemia. Ele calcula que, ao fim deste ano, a dívida bruta deve chegar a 81% do PIB, indicador que o mercado imaginava acima de 90% ao fim do ano passado. As contas externas, ressalta, também estão em situação confortável, com déficit em transações correntes na faixa de 1% do PIB este ano e no ano que vem e fluxo cambial positivo em 2021. Apesar da crise hídrica atual, diz ele, há projeção de expansão de 14% na oferta de grãos no ano que vem em relação a este ano. O que destoa é a inflação alta, que vai exigir contração monetária do Banco Central e que tem repercussão em 2022, aponta. “Mas poderia ser menos duro se não houvesse menos incerteza e se o câmbio não estivesse como está. No fim tudo termina na questão fiscal e das eleições”, avalia. “Se não fosse tão desastrada a política de enfrentamento da covid-19, com atraso na vacinação e politização no combate à pandemia, o cenário não seria bom, do ponto de vista econômico, mas talvez não tivesse tanta consequência política negativa.” “Se olharmos friamente números fiscais e de contas externas ao fim de 2021, a gradual reativação do setor de serviços e do mercado de trabalho, tudo contrataria um 2022 que poderia ser bom, mas o mercado tem aumentado a projeção de inflação e juros e reduzido a de PIB”, diz Kawall. Há, aponta, um “legado de má administração da pandemia” num governo que, desde o segundo semestre do ano passado, tem recorrentemente tentado encontrar maneiras de gastar além do teto, o que mina a confiança, afetando investimentos, piorando as condições financeiras e pressionando juros.

O ex-secretário do Tesouro Nacional aponta a atual discussão do orçamento para 2022. O governo do presidente Jair Bolsonaro discute uma solução para a despesa com precatórios e fontes de financiamento para a expansão do Bolsa Família no ano que vem. O debate tem suscitado soluções que levam à desconfiança de abertura de amplo espaço fiscal para gastos em ano de eleições. Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, ressalta também a influência da condução política do governo na saída da pandemia. “Temos uma situação até paradoxal. A despeito da demora, o Brasil vai chegar no ano que vem com uma massa de população vacinada provavelmente muito acima de vários países desenvolvidos. Estamos caminhando para isso. Teríamos tudo para chegar em 2022 e ter uma situação mais favorável para uma saída mais efetiva da pandemia e não vamos conseguir aproveitar isso a contento por todas as dificuldades criadas pelo próprio governo e com o cenário político conturbado que teremos no ano que vem”, diz, referindo-se às eleições. Vale lembra que o Brasil ainda ensaiava uma saída da recessão de 2015 e 2016 quando foi tragado pela primeira onda de covid-19. A pandemia, diz ele, tornou mais claro o desequilíbrio no qual o país ainda se encontrava e o longo caminho a percorrer para o ajuste fiscal “É como se a pandemia tivesse ficado ensanduichada entre uma recessão muito profunda antes e uma eleição complicada depois”, diz. Questões de crise hídrica e câmbio, destaca ele, são elementos domésticos. “Quando juntamos com Bolsonaro, um risco intangível, que traz uma questão ambiental mal equacionada, e isso começa a afetar o investimento com mais intensidade, que é o que vemos acontecer, há uma dificuldade para sair da pandemia. Há muita coisa parecida na saída com o que acontece lá fora, mas há questões domésticas muito fortes e intensas e que impedem uma saída adequada.” “Podemos voltar ao padrão anterior à pandemia em que o Brasil crescia abaixo da América Latina e da média mundial, com todos os riscos que teremos para os anos seguintes”, diz Vale. Ele lembra que de 2020 a 2022, enquanto o mundo deve crescer 4,5% a 5% em média, o Brasil deve crescer muito menos. Nas contas dele, 0,8%. Nas estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI), 2,9%. A questão fiscal e política na condução do orçamento de 2022, em discussões importantes como a ampliação do Bolsa Família, diz Gabriel Leal de Barros, economista-chefe da RPS Capital, desperta preocupação que deve ter repercussões na economia em 2022. Barros explica que se espera, com o relaxamento das restrições à mobilidade, uma rotação da demanda de bens para serviços, o que contribuiria para amenizar a alta de preços. A reação do setor de serviços deve ajudar a recompor o mercado de trabalho, embora de forma lenta e gradual. Ele lembra ainda que as mudanças trazidas pela pandemia com novos hábitos e maior digitalização da economia deve levar a um novo ponto de equilíbrio para o desemprego estrutural. Isso deverá ter impacto maior em países emergentes que, como o Brasil, têm mão de obra com menor qualificação e grande parcela na economia informal. Haverá dificuldade de recolocação e os salários médios tendem a ser menores, diz Barros, com efeito no consumo e crescimento. Nesse contexto, diz ele, a discussão de uma ampliação do Bolsa Família é importante para amenizar o aprofundamento da desigualdade social e para impulsionar a massa de renda. Mas há os riscos fiscais e políticos que no momento, diz, não apontam para a melhor condução. “Se o Congresso decidir por reajuste no Bolsa Família que não cabe no teto, o mercado vai manter o câmbio desvalorizado, o que leva à pressão inflacionária, com pressão de preços maior do que a que se imaginaria com a rotação da demanda de bens para serviços.”

FONTE

https://valor.globo.com/brasil/noticia/2021/10/08/covid-19-fim-da-pandemia-parece-se-aproximar-mas-economia-brasileira-fica-abaixo-da-media-global.ghtml