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A caixa-preta do coronavírus no Brasil

A caixa-preta do coronavírus no Brasil

Após falha com protocolo de notificações, Ministério da Saúde
compila todos os casos de suspeitos, mas não divulga; plataforma de
dados oficiais está fora do ar

Atraso do Governo Federal para atualizar protocolo deixa centenas de casos suspeitos de Covid-19 fora do radar

Enquanto governo não obrigou registro de todos os casos de infecções, números saltaram; em SP foram de 56 para 286 em uma semana

Defensoria Pública pede que Ministério da Saúde seja mais transparente sobre dados do coronavírus

Na zona leste de São Paulo, região mais populosa da maior cidade brasileira, um grupo de dez pacientes aguarda o teste da Covid-19. Todos foram atendidos em uma unidade de Assistência Médica Ambulatorial (AMA) e fizeram o exame na semana passada, após apresentarem sintomas como tosse ou febre. O grupo, contudo, não está na lista de suspeitos de infecção pelo coronavírus. E a responsabilidade é do Ministério da Saúde.

A Agência Pública apurou que o Governo Federal demorou a obrigar todos os casos a serem notificados, deixando essas pessoas e centenas de outros casos suspeitos fora do radar — inclusive o caso do primeiro brasileiro a morrer por coronavírus, no dia 16 de março, na capital paulista.

“Discordo totalmente da postura do Ministério da Saúde. Todos os casos, desde quando se iniciou uma transmissão comunitária no Brasil, deveriam ter sido notificados”, afirmou à Agência Pública um profissional de saúde que trabalha na AMA, sob condição de anonimato.

O Ministério já havia emitido um alerta sobre a transmissão comunitária da Covid-19 em São Paulo em 13 de março, mas levou cerca de uma semana para atualizar o protocolo de notificações da doença — nesse período, o estado de São Paulo viu as cifras saltarem de 56 casos confirmados, no dia 13, para 286, no dia 19, e registrou quatro mortes pela doença.

A notificação sobre infecções por coronavírus já era obrigatória para toda a rede de saúde, pública ou particular, desde 2016 — mas apenas se o paciente desenvolvesse síndrome respiratória aguda grave. Esse critério já existia na lista de notificações do Ministério da Saúde por causa de outros vírus da família do corona, como o SARS-CoV, que gerou uma epidemia na China em 2002.

Com a chegada da pandemia ao Brasil, o Ministério da Saúde produziu uma ficha de notificação para casos suspeitos e prováveis de infecção pelo novo coronavírus. A ficha, contudo, só considerava casos suspeitos se, além dos sintomas, o paciente tivesse viajado ao exterior ou tido contato próximo com caso suspeito ou confirmado para a doença nos 14 dias anteriores.

Essa falha deixou de fora do sistema de notificação do Ministério todas as pessoas contagiadas pelo coronavírus comunitariamente e que não apresentassem sintomas graves. A transmissão comunitária significa que o vírus está disseminado dentro do país e os casos não se restringem a quem viajou para o exterior.

Foi esse o caso da primeira morte por coronavírus no Brasil, registrada no dia 16, de um homem de 62 anos com diabete e hipertensão e que não havia viajado ao exterior. Ele faleceu após apenas dois dias de internação na UTI do hospital privado Sancta Maggiore, na Zona Sul de São Paulo. Segundo matéria do Estadão, ele não havia entrado na lista de casos suspeitos. Os mesmo teria ocorrido com familiares que tiveram contato com o homem. Em reportagem do Buzzfeed, o secretário de saúde da capital criticou o protocolo do Ministério e afirmou que “a falta de notificação atrapalha o mapeamento dos casos da pandemia”.

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