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A distopia da sociedade ocidental não é normal

“Estamos vivendo em uma distopia profundamente doente que é construída sobre um alicerce de cadáveres humanos”, escreve Caitlin Johnstone.

Os ocidentais que não apreciam a extrema disfuncionalidade da civilização ocidental são como alguém que, num casamento abusivo, ainda não reconheceu que há um problema, ou alguém que teve uma infância violenta e caótica e ainda pensa que sua vida familiar era basicamente normal.

Todos nós entendemos que há problemas em nossa sociedade, e a maioria de nós entende que muitos desses problemas são graves. Mas poucos ocidentais realmente entendem o quão ruim é. Quão pervasivamente doente é.

Na verdade, estamos vivendo em uma distopia profundamente doente que é construída sobre um alicerce de cadáveres humanos e alimentada por um rio infindável de sangue humano. Nossos meios de comunicação corporativos são serviços de propaganda, nosso entretenimento é lavagem cerebral, e nossa cultura dominante é engenharia social, tudo construído para nos manter girando as engrenagens de um vasto império dominante global.

Existe uma suposição generalizada em todo o mundo ocidental de que, embora as coisas possam não ser perfeitas, nossa sociedade certamente é muito melhor do que as pessoas vivenciam em uma nação como a China, acreditando arrogantemente que somos uma sociedade livre, cheia de pensadores livres e pessoas livres, em contraste com aqueles conformistas comunistas infelizes com mentes controladas. Na verdade, a civilização ocidental é uma máquina gigante de conformidade controlada pelo pensamento, onde as mentes das pessoas são moldadas por manipulação psicológica em grande escala de forma muito mais eficaz do que em qualquer outro lugar do mundo, exatamente porque os ocidentais não sabem que isso está acontecendo e acreditam que são livres.

As mentes ocidentais não gostam que lhes digam isso, porque isso vai contra tudo em que foram treinadas para acreditar sobre sua nação, sua sociedade e seu mundo. Obviamente, somos muito mais livres aqui do que aqueles coitados no oriente; aqui no ocidente, somos livres para escolher entre 197 sabores de cereal matinal açucarados e dentre 20.000 filmes diferentes de super-heróis. Somos livres para escolher entre votar em democratas capitalistas belicosos autoritários ou republicanos capitalistas belicosos autoritários. Somos livres para vender nosso trabalho por uma fração do valor que produz para qualquer empregador ecocida explorador de nossa escolha. Somos livres para pensar quaisquer pensamentos que fomos treinados a pensar por nossos sistemas de educação, as mídias de massa e a manipulação de algoritmos do Vale do Silício. Somos livres para dizer o que temos em nossas mentes, que foram moldadas e condicionadas para servir aos interesses dos poderosos e jamais dizer coisa alguma que caia fora da janela de opinião aceitável de Overton.

Claro, existem exceções nas margens ocidentais que escaparam da matriz de controle de pensamento e conquistam a capacidade de trafegar em opiniões não-autorizadas – se você está lendo isso, provavelmente você é um deles. Mas nossos números são mantidos deliberadamente pequenos demais para terem qualquer consequência política, e se esses números começarem a ficar grandes demais para serem confortáveis, imediatamente vemos operações de influência para semear divisão e confusão e guiar as pessoas de volta para o rebanho da maioria. Claro que, em nossos pequenos números, somos livres para expressar opiniões não autorizadas em plataformas marginais onde não podemos ter muito impacto – somos livres para cavar um buraco no chão e sussurrar o que quisermos nele também.

O maior obstáculo singular para a nossa liberdade no ocidente é a nossa crença generalizada de que somos livres. Até que percebamos coletivamente que somos gado humano, sendo continuamente conduzidos para as nossas respectivas estações de girar engrenagens para manter o rolo compressor imperial avançando sempre para a frente no palco mundial, não temos chance de nos libertarmos e de derrubar todo o sistema abusivo.

Até que isso ocorra, somos como a esposa que acha perfeitamente normal que seu marido controle todas as suas finanças e dite todos os aspectos de sua vida, e que ficaria chocada e enfurecida se alguém tentasse dizer a ela que isso é o que parece um relacionamento abusivo. Somos como o homem que insiste que teve uma infância feliz, apesar de se lembrar de muitos traumas físicos e gritos.

A verdade está ao nosso redor – estamos marinando nela 24 horas por dia, 365 dias por ano. Mas não podemos vê-la, porque ela é tudo o que jamais conhecemos. Fomos condicionados a pensar que esta distopia assassina e ecocida, controlada pela mente, é normal, e não podemos imaginar que seja de outra forma. A perspectiva de acabar com isso pode realmente parecer assustadora e intimidatória, assim como pode ser para alguém que está pensando em fugir de um relacionamento abusivo.

Mas a verdadeira liberdade está logo do outro lado desse medo. Tudo o que temos que fazer é nos tornarmos suficientemente conscientes do que está realmente acontecendo aqui.

FONTE:

https://www.brasil247.com/ideias/a-distopia-da-sociedade-ocidental-nao-e-normal?tbref=hp