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Após décadas, guerra volta a ser uma ameaça global

Há hoje uma perigosa semelhança com os períodos que antecederam as duas guerras mundiais, quando o conflito parecia ser iminente e até inevitável.

Ventos de guerra estão novamente soprando pelo mundo. Há décadas não falava tanto em guerra, seja das que estão em andamento como do risco de novos e importantes conflitos. Líderes ameaçam guerra, e países já se preparam para ela. Há atualmente uma perigosa semelhança com os períodos que antecederam as duas guerras mundiais, quando o conflito parecia ser iminente e até inevitável. “A guerra não é mais um conceito do passado. Ela é real e começou dois anos atrás. A coisa mais preocupante neste momento é que literalmente qualquer cenário é possível. Não víamos essa situação desde 1945”, afirmou o premiê polonês, Donald Tusk, em entrevista publicada na semana passada pelo jornal alemão “Die Welt”.

Por Humberto Saccomandi Para o Valor — Bruxelas

Tusk, um político muito experiente, se referia à guerra na Ucrânia, iniciada há dois anos, e ao risco crescente de um conflito militar direto entre a Rússia e a Otan (a aliança militar ocidental). Para muitos na Europa, a invasão da Ucrânia pela Rússia é apenas o início desse conflito mais amplo. O presidente francês, Emmanuel Macron, propôs em março o envio de tropas ocidentais para ajudar na defesa da Ucrânia, ao que o líder russo, Vladimir Putin, respondeu com uma ameaça de guerra nuclear. Putin ameaçou também atacar bases aéreas na Europa Ocidental que servirem de apoio à Ucrânia. O tema domina o debate público no continente e está diariamente na mídia. A guerra já entrou no dia a dia. Vários países discutem a volta do serviço militar obrigatório, para preencher um déficit de tropas. O governo francês ameaçou intervir em empresas privadas para que elas acelerem a produção de equipamento militar. Em janeiro, um ministro sueco disse que “pode haver guerra no país”, e o comandante militar alertou que a população sueca precisa estar mentalmente preparada para isso.

“Se quisermos a paz, temos de estar preparados para a guerra”, afirmou em março o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, na véspera da cúpula de líderes da União Europeia (UE). A Europa está em declarada mobilização militar, numa “economia de guerra”, como vem dizendo Macron, para se preparar para um confronto com a Rússia. Os gastos militares, que já vinham subindo, devem aumentar ainda mais nos próximos anos. Este ano, segundo estimativas, todos os países da UE devem gastar mais de 2% do PIB com defesa. Em 2014, a média era de 1,47%. “Estamos enfrentando agora a maior ameaça de segurança desde a Segunda Guerra Mundial”, justifica Michel. Essa sensação de urgência na Europa é agravada pelo risco de Donald Trump ser eleito novamente presidente dos EUA. Trump já disse que a Otan está superada e insinuou que, sob seu governo, os EUA podem não defender seus aliados. Ele também disse que não dará um centavo a mais para a Ucrânia. Além da Ucrânia, há um outro conflito importante em andamento, em Gaza, entre Israel e o grupo palestino Hamas. Assim como na Europa, existe um risco elevado de essa guerra também se alastrar pelo Oriente Médio. Já houve ataques israelenses no Líbano e na Síria, e o Irã ameaçou retaliação. A milícia ligada ao Irã que controla parte do Iêmen está atacando navios comerciais no Mar Vermelho. EUA e Reino Unido responderam bombardeando a milícia iemenita. Na Ásia, está crescendo perigosamente a tensão militar entre a China e as Filipinas, por conta de uma disputa de fronteira marítima. O jornal estatal chinês “China Daily” disse que, assim como em 1914, uma nova guerra mundial pode começar num incidente, desta vez na Ásia, e acusou as Filipinas, “um país relativamente pequeno”, de querer levar China e EUA a uma guerra. Em novembro, segundo relatos da mídia americana, o presidente chinês, Xi Jinping, disse ao presidente Joe Biden que a China vai realizar a unificação com Taiwan, mas que o momento disso ainda não foi decidido. A unificação sempre foi um objetivo chinês, mas afirmar numa cúpula que isso ocorrerá é inédito. Segundo avaliações militares americanas, Xi quer a unificação ainda no seu governo. Os EUA têm acordos de defesa tanto com as Filipinas como com Taiwan. Num discurso em janeiro ao órgão de disciplina do Partido Comunista chinês, Xi afirmou que décadas de regime pacífico tornaram parte da autoridades do país complacentes e despreparadas para “a grande luta”. Ele não elaborou o que seria essa luta.

Essa escalada beligerante global, tanto na retórica como em ações como rearmamento, não tem paralelo nas últimas décadas. É preciso voltar ao final da Guerra Fria, nos anos 80, quando Sting lançou a música “Russians”, sobre o risco de uma guerra nuclear entre os EUA e a extinta União Soviética. Mas um paralelo pode ser feito também com os períodos que antecederam as duas grandes guerras mundiais. Discutia-se e se ameaçava e todos se preparavam para a guerra, tanto que ela acabou acontecendo, quase como se fosse uma consequência inevitável. “Eu sei que soa devastador, especialmente para as novas gerações, mas temos de nos acostumar com o fato de que uma nova era começou: a era pré-guerra. Eu não estou exagerando, está ficando mais claro a cada dia”, afirmou o premiê polonês Tusk na entrevista da semana passada.

FONTE

https://valor.globo.com/opiniao/humberto-saccomandi/coluna/apos-decadas-guerra-volta-a-ser-uma-ameaca-global.ghtml