Associação Brasileira dos Jornalistas

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AS RAÍZES DO 8 DE JANEIRO NÃO FORAM ARRANCADAS.

Como os prédios da Esplanada dos Ministérios simbolizam mas não esgotam a democracia, o problema não acabará com a prisão das 100, 500 ou 1 mil pessoas que os depredaram. Se há algo a ser aprendido com os eventos de 8 de Janeiro de 2023, e há muito a ser aprendido, não é a cronologia dos acontecimentos daquela tarde e dos dias seguintes, já fartamente investigada por duas Comissões Parlamentares de Inquérito e pela Polícia Federal.

Recentes entrevistas de autoridades e documentários voltam a tratar desses aspectos mais impactantes e midiáticos.

O grande buraco, infelizmente, é bem mais embaixo.

AS RAÍZES DO 8 DE JANEIRO NÃO FORAM ARRANCADAS.

Seus galhos estão aí expostos à luz do sol para quem quiser enxergar.

Quando o ex-presidente Jair Bolsonaro afirma que o 8 de Janeiro foi “uma armadilha da esquerda” e essa fala esdrúxula é reproduzida acriticamente pela mídia, com toneladas de provas dizendo o contrário, nós sabemos que o 8 de Janeiro continua.

Ver o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, estufar o peito ao dar uma entrevista como defensor da democracia é um tapa no rosto dos democratas.
Quando esse senador autoriza o andamento, sem discussão com a sociedade civil, de um Projeto de Lei que afronta uma decisão exaustivamente tratada no plenário do STF (Supremo Tribunal Federal) sobre a tese jurídica do “marco temporal”, o 8 de Janeiro continua.

O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e a bancada ruralista da Câmara, ao darem vazão ao mesmo projeto e a outro que revogou poderes do Ministério dos Povos Indígenas no processo de demarcação de terras indígenas também demonstram que o 8 de Janeiro está vivo e passa bem.

Há muitas outras formas de dilapidar uma democracia além de jogar pedras e quebrar cadeiras.

Quando um projeto de lei ofende os direitos — reconhecidos pelo Judiciário – dos povos indígenas e tramita tranquilamente no Senado e na Câmara sob a autoridade de Pacheco e Lira sem que os indígenas, maiores atingidos, sejam sequer ouvidos, a democracia também está sendo atacada.

Foi uma virada de mesa ideologicamente motivada e legalmente fabricada, já que um Projeto de Lei funcionou como uma Proposta de Emenda à Constituição.

As facadas dadas pelos bolsonaristas no Palácio do Planalto destruíram obras de arte.

No Legislativo, os povos indígenas é que foram esfaqueados.

“O 8 de Janeiro continua quando os representantes de um Poder se recusam a ouvir os mais despossuídos, os que mais necessitam de Justiça.

A democracia não pode ficar restrita a gabinetes refrigerados, computadores de última geração, cadeiras altas e mesas polidas como os que foram destruídos em 2023, ela se engrandece é na relação com os que têm menos voz e menor poder de influência.

O 8 de Janeiro continua quando o agronegócio é poupado da cobrança de qualquer explicação sobre o seu papel nos ataques à democracia ao longo de quatro anos do governo Bolsonaro, porém tem a capacidade, por meio de sua bancada ruralista, de abrir CPIs pífias como as “do MST” e “das ONGs”.

Sem fato determinado, o Legislativo promove perseguição ideológica. Isso é puro 8 de Janeiro.

Quando a Câmara de Vereadores da maior cidade brasileira ameaça investigar um padre que dá de comer aos famintos, nós sabemos que o 8 de Janeiro continua firme.

Quando Rodrigo Pacheco pauta uma série de medidas com o propósito de constranger o Judiciário e o Executivo, nós sabemos que o 8 de Janeiro continua.

Pode até ter razão no mérito de algumas das propostas, mas o timing e o objetivo são evidentes, casuísticos, é um agrado aos enormes bolsões da direita e da extrema-direita principalmente do seu estado, Minas Gerais. Alimenta, com isso, o monstro fascista.

O 8 de Janeiro continua quando 30 senadores, mais de um terço da Casa, assinam uma carta contra o ato em defesa da democracia promovido pelo Executivo realizado na última segunda-feira (😎.

Essa cartinha auto-incriminatória não diz nada sobre a democracia, só expõe novamente seus inimigos.

Quando as Forças Armadas se recusam, sob a frágil alegação de falta de recursos, a entregar cestas básicas a um grupo étnico em situação calamitosa, como os Yanomami, ainda que o próprio presidente da República tenha determinado todas as medidas necessárias para superar a emergência sanitária, nós sabemos que o 8 de Janeiro continua.

O 8 de Janeiro segue de vento em popa quando o Exército anuncia que não houve crime nenhum cometido por militares naquele dia fatídico.

O 8 de Janeiro está mais vivo do que nunca quando o ministro da Defesa, José Múcio, afirma que era “como um grande piquenique” a multidão que se dirigia à Praça dos Três Poderes para invadir e depredar os prédios públicos.

H A MUITAS FORMAS DE DESTRUIR A DEMOCRACIA

Quando um ministro do STF manda parar uma operação de retirada de invasores da Terra Indígena Apyterewa, contrariando uma decisão do próprio presidente do Supremo e relator da matéria há muitos anos, Luís Barroso, nós sabemos que o 8 de Janeiro continua.

Quando outro ministro do STF manda eliminar todas as evidências coletadas durante uma investigação policial inteiramente autorizada pelo próprio Poder Judiciário – em vez de procurar corrigir as supostas falhas – nós sabemos que o 8 de Janeiro continua.

Porque a democracia não existe como ideia solta no ar, ela depende da confiança dos cidadãos.

Os brasileiros precisam acreditar na boa-fé das autoridades mas, se elas cometerem crimes, também precisam saber que serão punidas tanto quanto eu ou você.

Precisam acreditar que as autoridades agem com propósitos nobres, e não com base no próprio bolso.

Não é só pelo valor desviado, é também pela crença do público no sistema político que a corrupção também destrói a democracia. Vai comendo pelas beiradas.

Esse 8 de Janeiro não é para ser comemorado, é para ser encarado como um alerta.

E se for o último?

Batizar de “democracia inabalada” o evento convocado pelo governo federal traduz, no mínimo, uma visão condescendente sobre a realidade. Um abismo não deixa de existir só porque não queremos vê-lo.

Editorialista: Rubens Valente
rubensvalente@apublica.org

FONTE: https://www.facebook.com/photo?fbid=10159901993018837&set=a.10156147988853837