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Boletim Focus do Banco Central (BC) e Mídia: como se constrói uma crise

A construção de uma crise econômica no Brasil frequentemente passa por uma interação complexa entre as previsões do Boletim Focus do Banco Central (BC) e a cobertura midiática que amplifica suas repercussões. A mídia corporativa, em sua maioria, tende a enfatizar obsessivamente o “equilíbrio fiscal”, uma preocupação que permeia suas narrativas, mesmo diante de contextos diversos e, por vezes, alarmantes. Esta abordagem revela um viés intrínseco no jornalismo econômico que privilegia uma visão unilateral, negligenciando a pluralidade de perspectivas necessárias para uma compreensão ampla das políticas econômicas e seus impactos sociais.

Boletim Focus e o Equilíbrio Fiscal: Uma Análise Crítica

O Boletim Focus é uma publicação semanal do Banco Central que compila as expectativas do mercado financeiro sobre diversos indicadores econômicos, incluindo inflação, PIB, taxa de câmbio e a meta Selic. A divulgação desses dados, que deveria servir como um termômetro das expectativas econômicas, frequentemente se transforma em um catalisador de crises midiáticas. A mídia corporativa, ao dar destaque exacerbado às previsões de deterioração fiscal, frequentemente molda a opinião pública e influencia as decisões políticas, criando um ciclo vicioso de pessimismo econômico.

A Obsessão pelo Equilíbrio Fiscal

Os jornalistas econômicos muitas vezes operam sob uma lógica que prioriza o equilíbrio fiscal acima de outras considerações. Este enfoque exclusivo ignora que a economia é um campo complexo e multifacetado, onde políticas fiscais devem ser equilibradas com objetivos sociais, como redução da desigualdade e estímulo ao crescimento econômico. No entanto, a cobertura midiática predominantemente foca nos aspectos negativos de qualquer desvio fiscal, retratando-o como um prelúdio inevitável para o caos econômico.

Semioticamente Desconstruindo a Mídia

Para entender como a mídia constrói narrativas de crise, é crucial desconstruir semioticamente suas mensagens. Semioticamente, os signos e símbolos utilizados nas reportagens econômicas carregam significados que vão além da mera informação factual. Termos como “rombo fiscal”, “ajuste necessário” e “perigo de insolvência” evocam um senso de urgência e catástrofe iminente, moldando a percepção do público de que o equilíbrio fiscal é uma condição sine qua non para a estabilidade econômica.

A escolha de fontes e especialistas também é reveladora. A predominância de economistas de orientação neoliberal nas entrevistas e artigos reforça uma visão hegemônica que marginaliza outras abordagens econômicas, como o keynesianismo ou teorias de desenvolvimento sustentável. Esta seleção não é neutra; ela reflete e perpetua interesses específicos, muitas vezes alinhados com o capital financeiro e as elites econômicas.

Um Jornalismo Desequilibrado

O resultado é um jornalismo desequilibrado, que oferece uma visão parcial e, muitas vezes, alarmista da realidade econômica. Ao enfatizar constantemente o risco fiscal, a mídia contribui para a formação de um senso comum que vê o ajuste fiscal como a única resposta viável a qualquer problema econômico. Esta narrativa ignora as complexidades e as nuances das políticas econômicas, além de desconsiderar as necessidades e aspirações de diferentes segmentos da sociedade.

A Necessidade de Pluralidade

Para construir uma visão mais equilibrada e justa da economia, é essencial que o jornalismo adote uma abordagem mais pluralista. Isso implica dar voz a uma gama diversificada de especialistas e perspectivas, explorando as múltiplas dimensões das políticas econômicas e seus impactos. O jornalismo deve reconhecer que o equilíbrio fiscal é apenas uma parte da equação e que o bem-estar social, o desenvolvimento sustentável e a justiça econômica são igualmente importantes para a construção de uma sociedade próspera e equitativa.

A construção de uma crise econômica pelo Boletim Focus e pela mídia revela um viés profundo na cobertura jornalística que privilegia o equilíbrio fiscal acima de tudo. Esta obsessão, refletida na escolha de palavras e fontes, contribui para uma visão unidimensional da realidade econômica. Desconstruir semioticamente essa narrativa é essencial para promover um jornalismo mais equilibrado e pluralista, capaz de informar de maneira mais completa e justa, refletindo a complexidade do mundo econômico e as diversas necessidades da sociedade.

FONTE: Agência de Notícias ABJ – Associação Brasileira dos Jornalistas

( Reprodução autorizada mediante citação da fonte: Agência de Notícias ABJ – Associação Brasileira dos Jornalistas )