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“Brasil não abraçou a adaptação climática”, diz Ana Toni

Governo prepara estratégia nacional de adaptação climática com 15 planos setoriais.

A emergência climática invadiu as nossas casas. O Brasil tem muitos dados, mas apesar disso ainda não abraçou o tema da adaptação. Tudo tem que se adaptar a um aumento de temperatura de 1,5°C ou mais. As três frases acima são da economista e doutora em ciência política Ana Toni, secretária nacional de Mudança do Clima do Ministério do Meio Ambiente. “O Brasil é um país muito vulnerável à mudança do clima -essa ficha tem que cair.”

Ana Toni conduz um processo no Ministério do Meio Ambiente, com 20 outras pastas do governo federal, de atualização do Plano Clima e da Estratégia Nacional de Adaptação. Estão sendo construídos 15 planos setoriais – de agricultura e energia, biodiversidade, povos indígenas, cidades- para preparar o país ao que é inevitável e, em alguns casos, iminente.

Também a comunidade internacional “ainda coloca menos ênfase na adaptação. Cerca de 90% do financiamento climático global ainda é para mitigação. Essa é a realidade”, diz ela. Se investimentos em mitigação de gases-estufa têm resultados globais, a adaptação é local e de menos impactos transfronteiriços. Essa é a primeira dificuldade.

Outra são os custos gigantescos. “As Nações Unidas têm uma estimativa de custo de adaptação para países em desenvolvimento de algo entre U$ 215 bilhões e U$ 387 bilhões por ano, mas não temos custos estimados para o Brasil. Com os 15 planos específicos teremos condições de ter estimativas de custos mais seguras.”

Ana Toni tem claro o que deve acontecer para que se salvem mais vidas e as perdas sejam as menores possíveis, em desastres futuros. “O importante é que se inicie um processo de olhar adaptação nos planos dos governos que seja “mainstreaming”. Ou seja, que se pense em adaptação em todas as áreas.”

A seguir os principais pontos da entrevista que ela concedeu ao Valor nos dias em que o Rio Grande do Sul vive uma tragédia:

O desastre na sala
A emergência climática invadiu as nossas casas. Falar de mitigação é prioritário porque diminui o impacto futuro das emissões de gases-estufa, mas temos que falar também, e com igual ênfase, de adaptação e dos desastres que já estão acontecendo.

Só que essa é uma agenda mais crua na negociação internacional. Porque enquanto mitigação, se faço no Brasil, pode ter efeitos positivos na China ou no Reino Unido, e vice-versa -pode ser um efeito negativo, se estiver emitindo- a adaptação é de responsabilidade local e tem efeitos transfronteiriços muito menores. Então, a comunidade internacional ainda coloca menos ênfase na adaptação. Cerca de 90% do financiamento climático global ainda é para mitigação. Essa é a realidade. Por isso o Brasil colocou como uma das prioridades do G20, no grupo de trabalho de meio ambiente e clima, falar de financiamento para adaptação.

A ficha tem que cair
Adaptação já é uma realidade. O Brasil é um país muito vulnerável à mudança do clima – essa ficha tem que cair. Sempre se pensa nas oportunidades econômicas do país, que são verdadeiras, mas temos que falar das vulnerabilidades do Brasil para enchentes e secas. No semiárido há previsão de termos uma área desértica.

O segundo ponto é que os municípios não estão preparados para adaptação à mudança do clima. Não têm planos ou são poucos, pouca Defesa Civil, pouca comunicação com a sociedade. A capacidade adaptativa ainda é pouca, continuamos falhando. Em Bangladesh, por exemplo, como convivem muito com eventos extremos, já existem lugares para estocar sementes, onde pessoas podem se abrigar.

No Brasil temos muitos dados. O site AdaptaBrasil, do MCTI, é maravilhoso – tem dados município por município. Mas, apesar de ter tantos dados, o Brasil não abraçou o tema de adaptação. O país tem que se preparar melhor.

Estratégia
Estamos trabalhando na atualização do Plano Nacional sobre Mudança do Clima, o Plano Clima. Está ocorrendo no Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima, o CIM, e há 20 órgãos participando. Há uma estratégia geral que se divide em mitigação e adaptação. Estamos trabalhando agora em 15 planos setoriais de adaptação.

Já tivemos reuniões com Estados e municípios. Temos um programa para ajudar 260 cidades a fazerem seus planos de adaptação. Conseguimos recursos do Green Climate Fund e agora cada um dos 26 Estados vai sugerir os dez municípios mais vulneráveis para que façam seus planos de adaptação.

15 planos setoriais
A estratégia de adaptação terá dados de vulnerabilidades, o contexto climático, e especificações sobre os planos setoriais. São 15 planos setoriais liderados pelos ministérios correspondentes. Por exemplo: o plano de adaptação da agricultura é liderado pelos ministérios da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário. O de energia, pelo Ministério da Energia. Para que os planos tenham características similares, o governo concordou com um modelo geral que todos os ministérios estão usando.

Os setores
São 15 planos setoriais de adaptação: agricultura e pecuária; biodiversidade; cidades e mobilidade; gestão de riscos e desastres; indústria; energia; transportes; igualdade racial e combate ao racismo; povos e comunidades tradicionais; povos indígenas; recursos hídricos; saúde; segurança alimentar e nutricional; oceano e zona costeira; turismo

Agricultura e povos indígenas
O plano de agricultura já está muito avançado porque o Brasil já tem o Plano de Agricultura de Baixo Carbono, o Plano ABC, com recuperação de pastagens degradadas, integração lavoura-pecuária-floresta, e outras frentes. Adaptação para agricultura é desde projetos de irrigação ou até sementes resistentes à mudança do clima.

Existirá um plano de adaptação para populações tradicionais e povos indígenas. Será feito pela primeira vez. Aqui é pensar, por exemplo, como lidar com mais fogo. Na área de infraestrutura, por exemplo, estão colocando pluviômetros nas estradas para ajudar as empresas de construção a se organizarem e terem ambulâncias próximas, tratores para limpar barreiras no caso de grandes chuvas – tanto em estradas em construção ou para as que já existem.

Não dá para fazermos só a gestão do desastre. Temos que fazer a gestão do risco climático”

Em regiões em que pode haver seca, construir cisternas, captar águas de telhados quando chove. Tudo isso é adaptação. O importante é que se inicie um processo de olhar adaptação nos planos dos governos que seja “mainstreaming”. Ou seja, que se pense em adaptação em todas as áreas.

Custos
As Nações Unidas têm uma estimativa de custo de adaptação para países em desenvolvimento de algo entre U$ 215 bilhões e U$ 387 bilhões por ano, mas não temos estimativas para o Brasil. Com os 15 planos específicos teremos estimativas de custos mais seguras.

Preparar para o que é iminente
Tudo tem que se adaptar a 1,5°C a mais. De novo, é “mainstream”- adaptação na infraestrutura, no transporte, na proteção das cidades. Mas muito disso são planos de médio e longo prazo para adaptação climática, não se faz tudo imediatamente.

Outro espaço é o do plano de preparação para desastres. Quase 2 mil municípios estão extremamente vulneráveis a inundações, deslizamentos, secas, incêndios. A pergunta é: como preparar aquela cidade, aquela região, aquele bioma para algo que é quase iminente? A ciência ainda não diz “vamos ter chuva daqui a um ano na cidade x. Anda não temos essa ciência, mas está cada vez mais sofisticada. Já sabemos que alguns desastres ambientais podem ocorrer 60 dias antes do fato, em determinada região. Ou 15 dias, ou um mês. A pergunta é: que programas temos para responder neste período em que sabemos que vai haver um desastre ambiental? Isso não é adaptação. Isso é preparação para emergência climática.

Não agir só na véspera
Não dá para fazermos só a gestão do desastre. Temos que fazer a gestão do risco climático.

Essa área, do desastre, é dividida entre o MMA e o Ministério de Integração Regional. Porque toda a área que olha para eventos extremos, desastres e Defesa Civil, está no Ministério de Integração Regional. O Brasil tem um plano robusto, só que tem pouca implementação para a preparação ao desastre. Tem muito mais atuação na hora do desastre e quando os municípios já decretam estado de calamidade. O problema está entre fazer uma adaptação estrutural e a preparação para um evento extremo que pode durar uma semana ou seis meses. Temos poucos recursos e políticas para este período anterior ao desastre.

A ministra Marina Silva e os ministros Waldez Góes (da Integração e do Desenvolvimento Regional), Luciana Santos (da Ciência, Tecnologia e Inovação) e Jader Filho (das Cidades) estão formalizando uma portaria para esse período de preparação a eventos extremos climáticos. Como tirar populações das encostas antes do desastre, ajudar municípios a desenvolverem planos para emergência climática, limpar bueiros, aumentar a drenagem. Chegamos agora, infelizmente, a uma outra escala de desastres ambientais e climáticos.

Financiamento para adaptação
Os instrumentos de financiamento climático para mitigação são muito diferentes dos da adaptação. Não só vamos precisar muito de recurso público, mas vai ter que mobilizar recursos privados para adaptação. Quem já percebeu isso são as seguradoras, que são as primeiras a querer que nos adaptemos melhor porque os custos acabam sendo pagos por elas.

FONTE:

https://valor.globo.com/brasil/noticia/2024/05/17/brasil-nao-abracou-a-adaptacao-climatica-diz-ana-toni.ghtml