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Brasil, um deserto intelectual?, por Arthur Grohs

Agora que o Brasil começa a caminhar com suas próprias pernas novamente, é o instante necessário para novos projetos e empreendimentos.

Incomodado, senão perplexo, ao longo do século XX, com a escassez de novos intelectuais públicos, o historiador estadunidense Russell Jacoby lançou um ensaio chamado Os últimos intelectuais. Na obra, Jacoby refletiu sobre o vácuo geracional que resultava em uma falta de renovação dessas referências à esquerda no debate público dos Estados Unidos (EUA). O autor, dentre os vários motivos contabilizados, sugere que, em linhas gerais, seu país passou por alterações bruscas em sua geografia urbana, o que consolidou uma nova forma de vida.

O êxodo das grandes cidades em direção aos subúrbios e, depois, o processo de gentrificação de bairros, à luz dos argumentos desse autor, foram catalisadores de um desmanche quase generalizado de vários pilares que sustentavam o estilo de vida de intelectuais públicos (como cafés e bares). Esses críticos sociais não estavam na universidade, mas na vida pública, escrevendo ensaios filosóficos ou políticos através de jornais, revistas e/ou livros, bem como palestrando e se encontrando com pares a fim de mobilizar alternativas e ideias pensando na arena política e no debate público.

Jacoby, além do mais, incomodava-se também com o preenchimento dessa lacuna tão bem evidenciada por ele. Afinal, sua análise permite inferir que esse espaço foi rapidamente ocupado por instituições (como think tanks) e por “empresários e mascates” de pior qualidade, os quais tem como trabalho a difusão do ideário do establishment político, ainda que anunciados como ilustres imparciais.1

Há muito mais o que dizer sobre o ensaio de Jacoby; entretanto, esse longo preâmbulo procura provocar a seguinte reflexão: quais são os intelectuais públicos brasileiros? Antes, aliás, convém dizer que, por “intelectual público”, grosso modo, há de se entender um sujeito que intervém no debate público com ideias e argumentos, distanciando-se dos meros palpites destilados em muitas colunas e outros espaços de opinião. Deve-se ter em mente nomes como Jane Jacobs, Upton Sinclair e Émile Zola. Quer dizer, pessoas que desempenham um papel doutrinário visando influenciar “uma audiência educada e não especializada”.2

Arrisca-se dizer que, via de regra, dois grupos podem ser contabilizados. Sendo o primeiro formado por nomes que, com frequência, encontram-se como convidados e analistas de programas midiáticos, contudo sem grande apresentação crítica, mas sim educativa, em certo sentido. Enquanto, o outro, mais enxuto, voltado à discussão identitária, sem necessariamente uma continuidade ou uma grande abrangência temática para além da etiqueta mencionada.

O primeiro conjunto — que tem na recorrência de suas participações na vida pública sua principal marca — resumem-se em quatro nomes: Mario Sergio Cortella, Clóvis de Barros Filho, Leandro Karnall e Luiz Felipe Pondé. Tratam-se de figuras populares que pouco abordam ou pouco influenciam a política (se é que um dia tiveram essa pretensão). São autores preocupados em popularizar conhecimentos que, em tese, a população deveria ter domínio desde a escola, tal qual reflexões que dizem respeito à vida na sociedade contemporânea. Significa dizer, portanto, que seu viés doutrinário é percebido através do preenchimento de lacunas em regime pedagógico, ou seja, é, com efeito, despojado de conteúdo que por essência caracterizou as atividades dos intelectuais públicos. Importa notar que, como percebido por Jacoby, todos dessa “vertente” são (ou foram), antes de intelectuais públicos, professores universitários. Sua legitimidade partiu, primeiro, de um ambiente que possui, por característica, inacessibilidade.

Depois, o segundo grupo de intelectuais públicos, mais recente, inclui nomes que se arvoraram no debate público ao se inserirem em discussões sobre os pleitos identitários — ainda que com ressalvas. Essa lista inclui Francisco Bosco, Sílvio Almeida, Antonio Risério e Aílton Krenak. Note-se o seguinte: desses, Risério e Bosco, entre si e em comparação com os outros dois, representam posições diferentes.3 Bosco é quem apresenta uma análise sobre diferentes polêmicas, aliadas a uma reflexão sobre a formação de um novo espaço público brasileiro e as repercussões políticas que ele ocasionou na política interna e na própria autoimagem do brasileiro em relação a sua própria cultura.4 Por sua parte, Sílvio Almeida se dedicou a explicar seu conceito de racismo estrutural, procurando articular a ideia de raça e racialização em diferentes estruturas da sociedade (direito, economia, política etc.).5 Enquanto isso, Krenak expressa as diferenças culturais dos “brancos” em relação aos indígenas ao discorrer sobre questões ambientais, a cultura ocidental contemporânea e os desafios impostos pelos problemas relacionado ao meio ambiente que a humanidade começou a enfrentar mais diretamente.6 Por fim, Risério, em síntese, faz um movimento revisionista7 do movimento negro brasileiro e de diversos eventos históricos, questionando várias de suas pretensões. Acusa, desse modo, que há uma ideologia identitária vigente a qual se consolidou como hegemônica e, assim, impõe um código de conduta (colocando-se em posição de árbitro do que é correto), da mesma maneira que determina uma interpretação dos acontecimentos exigindo ser percebida como verdade.8

Com isso, pode-se afirmar que, enquanto esse Krenak se concentra, em particular, em uma discussão, acima de tudo, moral, os demais observam tópicos particulares da arena política contemporânea (o primeiro, mais generalista e, por conseguinte, abrangente, e o os outros dois, mais específico). Chama a atenção, todavia, que apesar das intervenções mais críticas, o segundo grupo está associado, de modo inevitável, ao assim chamado, debate identitário (ainda que se debruçando em subtemas distintos).

Essa tese, consequentemente, sugere que o estado de coisas atual relacionado aos intelectuais públicos brasileiros está limitada (1) àqueles mais perenes pouco se manifestam sobre política9 e quando o fazem, suas considerações são basicamente inexpressivas e (2) àqueles que se manifestam sobre assuntos da política, mas que acabam se restringindo a um eixo temático na maior parte das oportunidades, com articulações próprias da problematização da qual tratam.

Existem, por óbvio, exceções a essa classificação, caso de Jessé Souza.10 Porém, a regra parece ser essa divisão entre pedagogos e identitaristas, o que põem em xeque a diversidade que existiu outrora em países como os EUA e a França. Poucos são os intelectuais que se desencastelam do léxico acadêmico e que ocupam espaços com potencial de difusão maior. As razões brasileiras para esse crepúsculo da abundância de ideias merecem um estudo apurado e de longo termo.

As preocupações de Jacoby com seu país deveriam se estender para o nosso. Não por acaso, o vocabulário de certos assuntos continua sendo mitológico e pouco questionado. Entidades míticas como “o mercado”, “o eleitorado” e “a opinião pública” são evocados quase sempre em favor de um argumento que ecoa um ideário hegemônico. Os poucos esforços ainda são esparsos e tímidos, senão franzinos; enquanto as alternativas postas à mesa conversam somente com seus convertidos, sem, de fato, disputar o público.

Se os meios de comunicação de massa difundem o ideário de seus proprietários (como não poderia deixar de ser), contar com a benevolência e o espírito democrático de todos os veículos é, no mínimo, quixotesco. Nesse momento que o Brasil começa a caminhar com suas próprias pernas novamente, é o instante necessário para que novos projetos e empreendimentos sejam pensados com o intuito de disputar a democracia brasileira e seu público, tornando-a verdadeiramente democrática no plano das ideias. Sem esforços na construção de um ambiente fecundo para as práticas críticas, o Brasil tende a agravar o cenário — cada vez mais, limitando-se a espaços apertados e públicos, dia após dia, mais reduzidos —, tornando o debate público em um verdadeiro deserto intelectual.

Arthur Grohs (né F. Simões Pires) é doutorando e mestre em Comunicação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

Notas

1 Jacoby, R. (1997). Os últimos intelectuais: A cultura americana na Era da Academia. Edusp/Trajetória Cultural, p. 209.

2 Ibid., p.18.

3 Bosco, F. (2023). Risério acerta ao separar anti-identitarismo e racismo Novo livro do antropólogo defende um antirracismo mestiço e universalista, em contraste com tribalismo em voga na esquerda. Folha de S. Paulo, 23 set. 2023. Disponível em <https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2023/09/riserio-acerta-ao-separar-anti-identitarismo-e-racismo.shtml>. Acesso em 28 abr. 2024.

4 Bosco, F. (2017). A vítima tem sempre razão?: Lutas identitárias e o novo espaço público brasileiro. Todavia.

5 Almeida, S. (2019). Racismo Estrutural. Pólen; Almeida, S. (2019). O que é racismo estrutural?. Letramento.

6 Krenak, A. (2019). Ideias para adiar o fim do mundo. Companhia das Letras; Krenak, A. (2020a). O Amanhã não está à venda. Companhia das Letras; Krenak, A. (2020b). A vida não é útil. Companhia das Letras.

7 Entenda-se a ideia de revisionismo não como sinônimo de negacionismo (como costuma ser usada no Brasil), mas um movimento de propor uma nova interpretação, divergindo daquela paradigmática.

8 Risério, A. (2019). Sobre o relativismo pós-moderno e a fantasia fascista da esquerda identitária. Topbooks ; Risério, A. (2021). As sinhás pretas da Bahia: Suas escravas, suas joias. Topbooks. Ver também: Risério, A. (2017). Movimentos negros repetem lógica do racismo científico, diz antropólogo. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2017/12/1943569-movimentos-negros-repetem-logica-do-racismo-cientifico-diz-antropologo.shtml>. Acesso em 18 abr. 2024. Risério, A. (2022). Racismo de negros contra brancos ganha força com identitarismo. Folha de São Paulo. 15 jan. 2022. Disponível em <https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2022/01/racismo-de-negros-contra-brancos-ganha-forca-com-identitarismo.shtml>. Acesso em 20 abr. 2024.

9 Aqui entendida, de um ponto de vista genérico, como os assuntos institucionais, a política externa, as disputas pelo poder etc.

FONTE: https://jornalggn.com.br/opiniao/brasil-um-deserto-intelectual-por-arthur-grohs/