Associação Brasileira dos Jornalistas

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Como o jornalismo deve promover as campanhas de saúde

As campanhas de esclarecimento na área de saúde aumentam a cada ano em ações presenciais e nas redes sociais. O jornalismo é uma eficiente maneira de promovê-las. O início do ano é o momento certo para refletir sobre os melhores caminhos para resultados efetivos. E os jornalistas precisam estar por dentro tanto do calendário das campanhas de saúde quanto dos assuntos envolvidos.

As cores mês a mês

Cores e temas já estão definidos mês a mês: o branco em janeiro é de combate à cárie; o roxo em fevereiro é das doenças raras; o azul em março é do alerta ao câncer do intestino; o azul claro em abril é sobre o câncer de esôfago; o violeta em junho é sobre a saúde dos olhos e o vermelho, também em junho, para doação de sangue; o dourado em agosto é sobre a amamentação; o setembro amarelo para prevenção do suicídio; o outubro rosa é um alerta ao câncer de mama; o novembro azul é um alerta sobre a diabetes e o câncer de próstata; e o dezembro laranja sobre a prevenção ao câncer de pele.

Confuso decorar cada cor e mês? Para a jornalista Lúcia Helena, da coluna Viver Bem, da UOL, é preciso encontrar soluções mais criativas e menos repetitivas para as campanhas públicas. “Esgotamos as cores do arco íris e o excesso destas escolhas faz com que a população não consiga mais diferenciar, nem assimilar a informação”, analisa Helena.

jornalista Moura Leite Netto, da SENSU Consultoria de Comunicação, que trabalha para a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), lembra que essa linha de campanha com cores já tem mais de 15 anos, sendo que algumas encontraram o formato ideal de sucesso. “Acompanho essa paleta de cores de prevenção de doenças há muito tempo e, realmente uma das mais fortes é a do câncer de mama, o outubro rosa”.

A iniciativa veio dos Estados Unidos, criada pela Fundação Susan G. Komen for the Cure, durante a primeira Corrida pela Cura, realizada em 1990. Netto lembra que foi um espelho para que todas as demais surgissem e elas vêm se transformando ao longo do tempo, a partir do avanço das pesquisas científicas na área.

Como fazer uma campanha vingar

“O ideal é ter um foco com assuntos que rendam uma pauta, incluindo fatos inéditos, pesquisas científicas e informações que vão de encontro às necessidades da população”, explica Helena, que atua há mais de 30 anos na área de saúde. Ela reforça que o público precisa se reconhecer e pensar ‘que bom que surgiu essa campanha para que eu mudasse’.

Netto acha importante observar o perfil do público em relação à determinada doença para que a campanha seja desenvolvida com a meta da melhoria da saúde da população. Para o jornalista, ex-presidente da RedeComciência (rede de jornalistas que cobrem ciência no Brasil), à medida que as doenças vão se transformando as campanhas precisam ir se modificando, se reestruturando em novos formatos.

“Quando você é comunicador e não um cientista é preciso estudar para ter conhecimento suficiente para dar as orientações adequadas para a criação de projetos. Não adiantam campanhas com engajamento se não há resultado benéfico e correto para o público”, diz Netto.

Ações de conhecimento e campanhas públicas

Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Dr. Paulo Miranda, foi feita uma mudança recente na comunicação da entidade em relação aos formatos das campanhas, já que são 11 subespecialidades dentro da endocrinologia. Miranda explica que era preciso encontrar uma alternativa para fazer alertas, já que são ações em quase todos os meses do ano. Assim a SBEM passou a realizar dois tipos de atividades, divididas entre ações de esclarecimento e campanhas públicas.

“Temas como dia mundial da acromegalia, por exemplo, tem o objetivo de explicar melhor a uma população específica, não sendo necessária a criação de diversas peças de comunicação, nem aviso para a imprensa”, exemplifica Miranda. Ele esclarece que nesse caso o foco principal é direcionado ao público que tem a doença. Dessa maneira é possível fortalecer a busca por fontes seguras de informação, sem exagerar nas mensagens de comunicação. Mas sobre doenças mais comuns, como tireoide e diabetes, as ações são mais amplas, incluindo o trabalho da assessoria de imprensa junto à mídia leiga.

Jornalismo, publicidade e ciência juntos

Assim como o câncer de mama, o diabetes tem ações desde 2002, contando com o apoio da Organização das Nações Unidas (ONU) desde 2007. A Dra. Hermelinda Pedrosa, membro do board da International Diabetes Federation (IDF), conta que depois da Resolução 61/225, da ONU, o dia 14 de novembro (Dia Mundial do Diabetes) ganhou mais força.

“Para sucesso de uma campanha é necessário planejamento e antecedência, com conteúdo baseado na ciência. As agências de publicidade e o os jornalistas precisam caminhar juntos”, diz Pedrosa. “Os profissionais de comunicação precisam entender sobre o tema que está sendo discutido; ter uma linguagem unificada; e um briefing bem detalhado”.

A médica reforça que entre os pontos do planejamento estão: o apoio de órgãos governamentais, a escolha de porta vozes que possam gerar conteúdo adequado, desenvolvimento de pesquisas bem alinhadas para serem divulgadas e resultados que tragam benefícios e esclarecimento à população.

Sem sensacionalismo

Para a Dra. Margareth Dalcolmo, presidente da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), pesquisadora da Fiocruz e embaixadora do Movimento Nacional pela Vacinação, os médicos saíram dos casulos durante a pandemia para abrir os horizontes nas campanhas de esclarecimento.

Segundo Dalcolmo, o Brasil é um exemplo na área de campanhas de imunização na área da vacinação contra a Covid-19. “Salvo raras exceções, a imprensa ouviu e deu apoio para descontruir a retórica governamental negacionista. Acho que a imprensa, de uma forma geral, tem um papel fundamental em se aliar aos cientistas na divulgação correta”.

A geração de conteúdo falso, infelizmente tão presente na área da saúde, tem que ser combatida com um jornalismo responsável.  “É preciso encontrar formas simples de passar mensagens de forma a que todos entendam. O trabalho tem que ser em conjunto entre todos os atores envolvidos, ouvindo sugestões e opiniões de cada segmento”, reforça Dalcolmo.

Médicos e jornalistas envolvidos no processo de campanhas de saúde alertam ainda que é preciso sempre: escolher fontes seguras de informação, evitar o sensacionalismo e ter a consciência da grande responsabilidade com a saúde individual e coletiva.

FONTE:

https://ijnet.org/pt-br/story/como-o-jornalismo-deve-promover-campanhas-de-sa%C3%BAde