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Confie em mim, sou jornalista

Confie em mim, sou jornalista

Ser jornalista não é fácil no momento. Você enfrenta ameaça e assédio diário de todos os lados: governos repressivos e pretensos autocratas, postagens abusivas no Twitter e no Facebook, bem como ameaças físicas e um risco sem precedentes de te matarem por causa do seu trabalho. Acrescente a isso o estresse crônico de se trabalhar em uma indústria atormentada por uma crise existencial financeira.

Por SHARON MOSHAVI no IJNET

A recompensa por lidar com tudo isso? Quase ninguém confia em você. De acordo com o Edelman Trust Barometer Spring Update: A World in Trauma de 2021, a confiança no jornalismo tradicional atingiu seu recorde mais baixo (embora a confiança nas redes sociais seja ainda menor). Embora a confiança da população na maioria das instituições (incluindo governo e ONGs) não seja forte, a crença na mídia é ainda mais frágil. Você sabe que a coisa está ruim quando as pessoas dizem que políticos são uma fonte com mais credibilidade que nós jornalistas.

A polarização política crescente e a inundação de desinformação merecem boa parte da culpa, é verdade. Cada vez mais, jornalistas não são vistos como vozes independentes, e sim percebidos como tendo intenções ocultas, o que faz com que eles estejam “do nosso lado” ou “contra nós”. Enquanto isso, notícias baseadas em fatos estão competindo por atenção com desinformação provocativa e que induz a fúria. Alguns “agentes maus” estão ativamente mirando a credibilidade dos jornalistas — e muito frequentemente sendo bem-sucedidos, graças ao atual ambiente do ecossistema de redes sociais, que permite isso.

Um exemplo: a destemida vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2021, a jornalista filipina Maria Ressa. Minha organização, o International Center for Journalists, em um trabalho com a Universidade de Sheffield e o site de Ressa, Rappler, recentemente realizou uma análise forense de centenas de milhares de ataques contra Ressa nas redes sociais nos últimos cinco anos. Quase 60% desses ataques foram criados especificamente para abalar sua credibilidade profissional e, consequentemente, a confiança do público em seu jornalismo.

O que pode ser feito para reverter essa maré de hostilidade? Uma melhor autorregulação das plataformas de redes sociais ajudaria, assim como outras políticas de intervenção — apesar de haver atualmente pouco consenso sobre o que elas seriam, e de muitos jornalistas temerem que ações do governo ostensivamente criadas para ajudar a mídia acabem fazendo o contrário. É por isso que muitos jornalistas acreditam que a melhor estratégia é simplesmente “seguir adiante e fazer o trabalho”.

Eu não acredito que isso seja bom o bastante. É hora de repensar o jornalismo de um modo fundamental, desde como ele é produzido e distribuído a como ele interage com a audiência e como nós medimos o impacto. Restaurar a confiança requer muitas ações, grandes e pequenas, que jornalistas e as organizações que ainda os empregam podem tomar. Pense nas sugestões a seguir não como uma espécie de projeto pronto para a mudança, e sim como uma exploração inicial de passos possíveis que podem fazer a diferença.

Repensando a reportagem

Uma sugestão que vem de uma fonte inesperada: o Papa Francisco. O pontífice recentemente articulou uma visão do jornalismo que fala diretamente com a reconstrução da cultura de confiança. A missão de jornalistas, ele disse, é “é explicar o mundo para torná-lo menos sombrio, para fazer com que os que vivem aqui tenham menos medo dele e olhem para os outros com mais consciência e também com mais confiança”. Em outras palavras, não pare de revelar atos sombrios; ofereça a luz também.

Muitos jornalistas, claro, já estão fazendo bastante ambas as coisas. Eles revelam “atos sombrios” ao ajudarem a derrubar governos corruptos na Eslováquia, revelando redes de tráfico humano na Nigéria e documentando a intensificação da crise de fome no Afeganistão. Eles também oferecem alguma luz noticiando a vida das pessoas nas comunidades menos privilegiadas e menos assistidas de São Paulo, os esforços bem-sucedidos de participação eleitoral na Nação Navajo, o que os países podem aprender com a Estônia sobre cibersegurança e assim por diante.

Sem reduzir o essencial jornalismo investigativo que expõe problemas, há outras formas inteligentes que organizações de mídia podem descobrir para fazer mais matérias sobre soluções? E de que outras formas as redações podem evoluir sua cobertura para serem mais relevantes para os leitores? Algumas sugestões:

  • Lute de frente contra a desinformação. As redações poderiam adotar uma abordagem mais holística na cobertura da desinformação, examinando detalhadamente a “infodemia” da mesma forma que abordamos cada aspecto da pandemia de COVID-19. Elas podem desencavar os números por trás de campanhas de desinformação e fazer frequentemente matérias sobre assuntos como a descoberta de pesquisadores segundo a qual apenas 12 contas do Facebook, Twitter e Instagram estavam por trás da maior parte da desinformação sobre as vacinas da COVID-19 nas plataformas sociais. Imagine se as redações fizessem esse tipo de trabalho regularmente, identificando patógenos de desinformação à medida em que eles aparecem, em vez de esperar que eles se espalhem. Veículos jornalísticos podem se reunir regularmente com pesquisadores e organizações estratégicas que tenham o poder computacional e analítico para identificar essas tendências das mídias sociais.
  • Conecte-se melhor com a audiência. Pesquisas mostram que as pessoas se engajam mais com as notícias quando uma produção jornalística responde a uma pergunta que todos os leitores frequentemente perguntam instintivamente: “o que isso significa pra mim?”. Por que não fazer mais matérias que pegam uma grande questão e mostrar o impacto dela nas pessoas e menos cobertura política no estilo corrida de cavalos? Um exemplo: a Code For Africa, uma organização de engajamento civil, lança frequentemente projetos baseados em dados que, por exemplo, ajudam a calcular a disparidade salarial de gênero em qualquer país africano ou a encontrar preços competitivos de medicamentos em farmácias nas proximidades.
  • Insira a confiança no processo. Em qualquer matéria, jornalistas deveriam se perguntar: “como eu posso fazer essa matéria de um modo que ajude as pessoas a confiarem nela?”. Isso pode incluir destacar soluções em vez de apenas os problemas; incluir uma diversidade de vozes; e envolver a audiência diretamente na matéria — solicitando a contribuição do público, por exemplo.

Edite com foco na transparência

Poucas pessoas de fora do jornalismo sabem realmente como as notícias são produzidas. Essa opacidade contribui para suspeitas sobre os vieses de jornalistas. A “história por trás da matéria” que é oferecida por alguns veículos jornalísticos (como o New York Times Insider) é um passo na direção correta. As organizações jornalísticas devem considerar ir mais fundo por meio do seguinte:

  • Faça uma distinção melhor entre opinião e fatos. A proliferação de artigos de opinião e análises em todos os tipos de veículos jornalísticos fez proliferar também as oportunidades de confundir a audiência. Em um estudo de 2018, apenas 43% das pessoas disseram que podiam distinguir facilmente notícias de opinião no Twitter e no Facebook.
  • Participe de esforços como o The Trust Project, uma associação que desenvolveu uma série de oito “Indicadores de Confiança” que as organizações jornalísticas podem usar para mostrar quem e o quê estão por trás de uma matéria. Pesquisa da Universidade do Texas em Austin descobriu que os indicadores melhoram a credibilidade de um veículo jornalístico. Os indicadores aos quais a audiência mais prestou atenção foram “a descrição de por que a matéria foi feita (notada por 44%) e informação sobre o Trust Project (notada por 43%)”. O projeto, lançado em 2017, tem apenas 200 parceiros de mídia pelo mundo até o momento. Em 2022 este número deve crescer muito mais.
  • Meça e comunique o impacto das notícias. Acompanhar o impacto de uma matéria faz muito sentido editorialmente, seja uma grande investigação ou simplesmente uma matéria local sobre um problema comum. A Gazeta do Povo tentou fazer exatamente isso há alguns anos, produzindo uma newsletter de impacto para sua audiência. Um esforço de jornalismo cidadão na Índia, CGNet Swara, monitorou centenas de impactos tangíveis de seu trabalho (ligação de energia, pagamento de professores) e informou sua audiência a respeito.

É a distribuição, estúpido

No mundo atual, dominado pelas mídias sociais, controlar como o conteúdo é distribuído se tornou um desafio complexo que muitas organizações jornalísticas têm dificuldade de cumprir. Uma pesquisa do Reuters Institute mostra, sem nenhuma surpresa, que há menos confiança nas notícias quando elas são vistas em plataformas de mídias sociais infestadas de desinformação. A mídia tentou reagir a isso com notificações e muitas newsletters, alcançado leitores através de seus telefones e emails. É um começo. Mas o jornalismo precisa ser mais criativo para descobrir outras formas de ganhar mais controle sobre a distribuição de seu produto. Por exemplo:

  • Crie associações. Temos visto ótimas colaborações editoriais como os Panama e os Pandora Papers. Mas há outros tipos de colaboração, alguns focados na distribuição e co-branding, que podem ajudar a criar conexões melhores com os leitores. Elas podem assumir a forma de experimentos como o Ohio Local News Initiative, que está reunindo pequenos veículos locais e grupos comunitários em todo o estado sob um mesmo guarda-chuva. Ou o esforço das maiores empresas de mídia da Suíça para criar um login único para todos os seus sites para recuperar a conexão direta com os leitores. Iniciativas como essas podem também tirar a audiência de suas bolhas e direcioná-las para novas fontes de informação. Ou considere o #FactsMatter, que reúne verificadores de fatos e organizações jornalísticas da Nigéria e influenciadores de redes sociais (ou seja, comunicadores confiáveis) para ajudar a levar notícias precisas para uma audiência maior.
  • Pense grande. As organizações jornalísticas chegaram tarde na era digital e desde então estão tentando recuperar o tempo perdido. Mas alguns jornalistas independentes estavam realmente à frente do seu tempo. Roger Fidler, no falecido Knight Ridder, inventou o tablet nos anos 1990, 15 anos antes de Steve Jobs, mas as redações estavam muito no bem-bom para prestarem atenção. Nós precisamos reacender esse tipo de espírito inovador — e, dessa vez, apoiar as ideias que ele gerar. Nós ainda não sabemos qual vai ser a próxima sensação. O que nós sabemos é que o momento de condescendência já passou faz tempo.

A confiança precisa estar diretamente no centro de todos os aspectos de um empreendimento jornalístico, da reportagem e edição ao marketing e distribuição.

Independentemente do que você pensa sobre essas ideias específicas, o impulso geral deve ser nítido: fortalecer a credibilidade do jornalismo não pode ser uma reflexão posterior, algo que o jornalismo considera depois de fazer o “trabalho de verdade”. Este é o trabalho de verdade das organizações jornalísticas e daqueles dentre nós que as valorizam e as apoiam. A confiança precisa estar diretamente no centro de todos os aspectos de um empreendimento jornalístico, da reportagem e edição ao marketing e distribuição. Há muita coisa em jogo. O jornalismo enfrenta não só uma crise de confiança mas também uma crise financeira existencial. Mas as pessoas são muito mais propensas a pagar por notícias nas quais elas confiam. Resolva uma crise e você pode acabar resolvendo a outra.


Este artigo foi originalmente publicado pela Edelman, como parte de uma série de ensaios sobre confiança neste ano que se inicia encomendados pelo Edelman Trust Institute a especialistas líderes na área acadêmica, negócios, ONGs e governo.

 

Foto por Ronda Dorsey no Unsplash

 

FONTE

https://ijnet.org/pt-br/story/confie-em-mim-sou-jornalista