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Conflito no Mar Vermelho ameaça economia europeia

Ataques têm levado empresas de navegação a optar pelo caminho mais seguro, mas mais longo e caro, de contornar a África pelo Cabo da Boa Esperança.

Pela segunda vez em três anos, um conflito na caótica vizinhança da Europa ameaça enfraquecer sua economia já em dificuldades, enquanto os EUA, fortalecidos, observam a uma distância segura.

Desta vez, os ataques dos rebeldes houthis no Iêmen contra navios mercantes no Mar Vermelho têm levado um número maior de empresas de navegação a optar pelo caminho mais seguro, mas mais longo e caro, de contornar a África pelo Cabo da Boa Esperança.

Esses desvios elevam o custo dos fretes e fazem os varejistas se preocuparem com a possibilidade de ficar sem estoque. Algumas fábricas já suspenderam o trabalho por falta de peças. Se a ameaça persistir, muitos economistas temem que a redução da inflação conquistada pela Europa em 2023 possa perder força e adiar um possível corte na taxa básica de juros.

“Esse é, claramente, um dos principais riscos de alta da inflação e de queda do crescimento”, disse Ana Boata, economista-chefe da seguradora Allianz Trade. “Poderíamos falar [até] de um risco de recessão.”

Estas novas faíscas geopolíticas podem consolidar a crescente tendência de assimetria entre Europa e EUA. Como grande produtor de fontes de energia, os EUA, possivelmente, emergiram mais fortes da crise desencadeada pela guerra na Ucrânia. E, embora algumas de suas importações passem pelo Canal de Suez, o volume é comparativamente pequeno. Além disso, o Oceano Pacífico oferece uma rota alternativa para cargas da Ásia.

Por enquanto, as interrupções nas cadeias de abastecimento se dão em escala modesta em comparação aos gargalos mais generalizados vistos em 2020 e 2021, e seu impacto econômico deverá ser proporcionalmente menor. As empresas também aprenderam com as interrupções da pandemia da covid-19 e passaram a ter estoques maiores do que na época.

O presidente da varejista sueca Ikea, Jesper Brodin, disse que o conflito no Mar Vermelho aumentou o tempo das rotas de navegação em dez dias ou mais, embora seus clientes não estejam sendo afetados. “A grande diferença no momento é que nos recuperamos após a pandemia”, disse durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, Suíça. “Isso significa que nossos estoques estão em bom estado.”

Segundo a rede varejista de descontos Pepco, o conflito no Mar Vermelho teve efeito limitado na disponibilidade de produtos, mas, caso continue, poderá prejudicar o fornecimento nos próximos meses. Na quinta-feira, a rede – dona das marcas Poundland, no Reino Unido, e Dealz e Pepco, na Europa continental – informou que os ataques dos houthis contra navios estavam provocando aumentos nas taxas de frete e atrasos nos prazos de entrega de contêineres.

Ainda assim, na esteira de uma pandemia mundial e da maior guerra europeia em 80 anos, a escalada do conflito que começou com o ataque de Hamas a Israel no início de outubro é um lembrete de que as perspectivas para a economia mundial estão sendo cada vez mais definidas por acontecimentos fora do alcance das autoridades econômicas.

Os navios que atravessam o Mar Vermelho transportam cerca de 40% das mercadorias comercializadas entre Europa e Ásia. De início, os houthis diziam ter como alvos os navios israelenses ou aqueles com destino a seus portos, mas, na prática, seus ataques têm sido indiscriminados. Isso levou mais operadores a optar pela rota ao redor do Cabo da Boa Esperança.

No início do mês, a Tesla divulgou que atrasos na entrega de componentes causados pelo redirecionamento de navios a forçariam a suspender a produção em sua única grande fábrica na Europa, a GigaBerlin, perto de Berlim. A montadora sino-sueca Volvo Cars, por sua vez, disse que o atraso na entrega das caixas de câmbio para veículos a forçou a interromper a produção por três dias em uma fábrica na Bélgica.

A Volkswagen, maior fabricante de carros da Europa em vendas, informou que suas fábricas não foram afetadas, mas que continua monitorando a situação em contato próximo com seus fornecedores. A montadora destacou estar redirecionando as remessas, o que causa algum atraso.

A Oxford Economics estima que um navio viajando a 16,5 nós de Taiwan para a Holanda através do Mar Vermelho e do Canal de Suez leva cerca de 25 dias e meio para completar a viagem. O tempo aumenta para 34 dias se a viagem for desviada ao redor da África.

O tempo extra reduz a disponibilidade anual de cada navio e pode ter um efeito cascata nos custos de frete em outras rotas, incluindo aquelas entre a Ásia e os EUA. De acordo com o índice Freightos Baltic, o custo médio por contêiner de transporte de mercadorias pelo mundo dobrou entre 22 de dezembro e 12 de janeiro.

O tempo desses trajetos pode aumentar mais se os navios desviados tiverem que aguardar para abastecer combustível adicional para essas viagens não planejadas em portos africanos sobrecarregados, entre os quais Durban, na África do Sul, o maior deles.

“Não temos congestionamentos terríveis em Durban”, disse o CEO da firma de consultoria marítima Windward, Ami Daniel.

Para a Europa, o impacto da crise dependeria em grande parte da extensão e duração das interrupções. Economistas da Allianz Trade calculam que, se o frete continuar com o preço dobrado por mais de três meses, isso poderá elevar a inflação da região do euro em 0,75 ponto percentual e reduzir o crescimento econômico em quase 1 ponto percentual. Com a economia da zona do euro já enfraquecida, isso pode fazer com que tenha uma retração em 2024.

Na semana passada, Paolo Gentiloni, principal encarregado econômico da União Europeia, disse que a situação no Mar Vermelho “deve ser monitorada muito de perto”, porque pode elevar os preços da energia e a inflação.

Existem várias razões pelas quais o impacto da crise na economia europeia pode ser menos severo do que em episódios anteriores de aumento nos custos de frete. Em primeiro lugar, as empresas passaram por diversas interrupções nas cadeias de abastecimento nos últimos anos e acreditam estar mais bem preparadas.

“Estamos sendo afetados pela crise”, disse o presidente da Schaeffler Automotive Technologies, Matthias Zink. “Mas isso está sob controle. Talvez a explicação seja que agora temos bastante experiência nessa resiliência ou na reação a essas crises.”

Segundo a Stellantis, fabricante ítalo-franco-americana da Fiat, Peugeot e Jeep, os atrasos dos navios redirecionados vêm sendo compensados “pelo uso de algumas soluções limitadas de transporte aéreo” e não vêm tendo “quase nenhum impacto na fabricação até o momento”.

Patrick Lepperhoff, consultor da Inverto, uma unidade da BCG, disse que as crises passadas tornaram as empresas mais preparadas para choques repentinos. Muitas empresas investiram em tecnologia da informação para obter uma melhor visibilidade de suas cadeias de abastecimento e ficaram mais próximas de seus principais fornecedores, acrescentou.

Além de as empresas estarem mais bem preparadas, o ambiente econômico também é diferente do período da pandemia, um evento global que afetou as cadeias de abastecimento ao redor do mundo. A crise atual é local, de forma que os fornecedores têm mais alternativas. Além disso, muitas empresas agora mantêm estoques maiores do que antes da pandemia. Na Europa, a fraca demanda do consumidor contribui para esse colchão de segurança.

“O Mar Vermelho não é tão perigoso para o comércio global quanto foram os eventos há alguns anos”, disse Lepperhoff. (Colaborou Emily Glazer – Tradução de Sanino Ahumada)

FONTE:

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2024/01/22/conflito-no-mar-vermelho-ameaca-economia-europeia.ghtml