Associação Brasileira dos Jornalistas

abjmaior
Coronavírus: Como proteger nossas vidas e meios de sobrevivência

Coronavírus: Como proteger nossas vidas e meios de sobrevivência

Precisamos encontrar uma solução para o vírus e para a economia. Combater o vírus é o começo.

Tudo mudou. Há apenas algumas semanas, todos vivíamos as nossas vidas ocupadas normalmente. Agora, aquilo que muitas vezes era subestimado – uma noite com amigos, deslocamentos diários, pegar um voo de volta para casa – não é mais possível. Relatos diários de infecções e mortes crescentes em todo o mundo aumentam nossa ansiedade e, em casos de perda pessoal, deixam-nos em luto. Há incertezas sobre o futuro, a saúde e a segurança de nossas famílias, amigos e entes queridos, assim como sobre nossa capacidade de viver a vida que amamos.

Além da preocupação imediata sobre o impacto real na vida humana, há o temor sobre a grave recessão econômica que pode resultar de uma longa batalha contra o novo coronavírus. Empresas estão sendo fechadas e as pessoas estão perdendo seus empregos. Acreditamos e esperamos que haja uma alternativa diferente daquela publicada no recente editorial do Wall Street Journal que sugere que, em breve, enfrentaremos um dilema, uma terrível escolha entre prejudicar gravemente nossos meios de sobrevivência com lockdowns prolongados ou sacrificar a vida de milhares, se não milhões, por um vírus de rápida propagação. Nós discordamos. Ninguém quer ser obrigado a fazer essa escolha e precisamos fazer tudo o que for possível para encontrar soluções.

Por que este é o imperativo do nosso tempo? Com base em múltiplas fontes e em nossa análise, o choque dos trabalhos de combate ao vírus nas nossas vidas e meios de sobrevivência pode ser o maior em quase um século. Na Europa e nos Estados Unidos, os lockdowns necessários da população e outros esforços para controlar o vírus devem levar ao maior declínio trimestral da atividade econômica desde 1933. Nunca na história moderna sugerimos que as pessoas não trabalhem, que a população de países inteiros permaneça em casa e que nos mantenhamos a uma distância segura uns dos outros. Não se trata de PIB ou economia: é sobre nossas vidas e nossa sobrevivência.

Vemos um enorme investimento de energia no combate ao vírus, enquanto muitos exigem medidas ainda mais rápidas e rigorosas. Também vemos uma energia enorme aplicada à estabilização da economia por meio de políticas públicas. No entanto, para evitar danos permanentes aos nossos meios de sobrevivência, precisamos encontrar maneiras de definir um “timebox”[1] para este evento: devemos pensar em como conter o vírus e diminuir a duração do choque econômico. E precisamos fazer ambos agora!

Para encontrar uma solução tanto para o vírus como para a economia, precisamos estabelecer comportamentos que impeçam a propagação do vírus, trabalhando para que a maioria das pessoas possa voltar ao trabalho, às atividades familiares e à vida social.

Até o momento, a única forma comprovada de conter o vírus, uma vez que a transmissão comunitária já é generalizada, é através da imposição de lockdowns significativos, distanciamento físico disciplinado, testes e rastreamento de contatos. China, Japão, Singapura e Coreia do Sul mostraram que essas medidas são capazes de impedir a propagação do vírus e permitir a retomada da atividade econômica, pelo menos até certo ponto. Todos estão acompanhando de perto os acontecimentos na Itália e em muitos outros países para saber se as medidas de controle existentes são suficientes para frear o aumento de infecções e mortes. Nosso objetivo comum deve ser implementar a melhor resposta possível para deter essa crise.

Ao mesmo tempo, líderes globais e locais também estão considerando o impacto econômico dessas medidas. O que acontecerá se muitas empresas deixarem de operar ou precisarem reduzir significativamente suas atividades? Por quanto tempo podemos fazer isso? Até que ponto podemos sustentar um choque econômico sem causar um sofrimento humano que nossa sociedade não é capaz ou não está disposta a suportar?

Nas próximas seções, apresentamos maneiras de pensar sobre essas questões prementes. (Veja também o artigo “Beyond coronavirus: The path to the next normal” de nossos colegas Kevin Sneader e Shubham Singhal, que busca imaginar como será o futuro).

Lidando com as incertezas relacionadas à COVID-19

· A propagação da COVID-19. Quantas novas infecções teremos? A taxa de mortalidade está caindo? A disseminação do vírus mostrará algum tipo de sazonalidade? Uma nova cepa do vírus evoluirá?

· A resposta da saúde pública em cada país, estado, município. Haverá lockdowns? Ainda será possível ir ao trabalho? As fábricas terão permissão para operar? Precisamos nos submeter a um centro oficial de quarentena ao chegar de uma viagem ou podemos fazer uma “autoquarentena”?

· O impacto na economia e nos nossos meios de sobrevivência. As empresas padecerão e irão à falência? É possível manter o fornecimento de bens e serviços essenciais? Teremos um emprego? Quanto tempo isso vai durar?

· As consequências para nossas vidas. Conseguiremos evitar a infecção? Nossos entes queridos estão seguros? Ainda podemos treinar para o evento esportivo para o qual estamos nos preparando? Podemos obter um diploma universitário agora que muitas instituições de ensino estão fechadas e os exames foram cancelados?

Essas e mais um milhão de perguntas têm passado por nossa mente, acentuando a já desafiadora realidade de viver no tempo do coronavírus.

Duas coisas são razoavelmente certas: se não pararmos o vírus, muitas pessoas morrerão. Se as nossas tentativas de conter a pandemia prejudicarem gravemente a nossa economia, é difícil imaginar como não haverá um sofrimento ainda mais severo pela frente.

Impacto do lockdown no consumo e na atividade econômica

Estamos aprendendo o que acontece durante um lockdown como o implementado na China, Itália e, cada vez mais, na Europa e nos Estados Unidos: a atividade econômica cai mais acentuadamente do que qualquer um de nós jamais experimentou. As pessoas não compram, a não ser o essencial; as pessoas não viajam; as pessoas não compram automóveis.

Estimamos que 40% a 50% dos gastos discricionários do consumidor podem não ocorrer. Em todas as recessões, as pessoas reduzem as compras que podem ser facilmente adiadas (como carros e eletrodomésticos) e aumentam as economias por precaução, em antecipação a uma crise cada vez maior. O que diferencia a pandemia do coronavírus é que as pessoas também estão eliminando os gastos com restaurantes, viagens e outros serviços que normalmente diminuem, mas não chegam a zero.

Uma queda de 40% a 50% nos gastos discricionários traduz-se em uma redução de aproximadamente 10% no PIB – sem considerar os efeitos de segunda e terceira ordem. Isso não é apenas inédito na história moderna, é historicamente quase inimaginável – até agora.

Já temos algumas evidências fatuais de um choque econômico nessa escala, como a crise econômica relacionada à COVID-19 na China, além de indícios precoces com “dados em alta frequência” nos Estados Unidos, como gastos com cartões de crédito.

Quanto maior a duração do lockdown, pior será o impacto em nossas vidas. Para visualizar o que isso significa quem vive em áreas de lockdown, imagine taxistas cujos clientes não podem ir às ruas; chefs cujos restaurantes foram forçados a fechar; e comissários de bordo em solo, com aviões estacionados nos aeroportos – por meses. Com 25% dos domicílios nos Estados Unidos vivendo de salário em salário, e 40% dos norte-americanos incapazes de cobrir uma despesa inesperada de US$ 400 sem tomar um empréstimo, o impacto de um lockdown prolongado para muitas, muitas pessoas será nada menos que catastrófico.

A resposta não pode ser a aceitação de que a pandemia sobrecarregará nosso sistema de saúde, e milhares, se não milhões, morrerão. Mas será que a resposta pode ser causar um sofrimento humano potencialmente ainda maior ao prejudicar de forma permanente a economia?

Limitando a incerteza em torno dessa crise

As piores e mais típicas reações dos humanos diante de grandes incertezas são paralisar-se ou dar uma resposta simplista como “esse problema irá desaparecer tão rapidamente quanto surgiu, é igual à gripe de todos os anos”. A COVID-19 é particularmente desafiadora nesse sentido porque a maioria dos infectados sentirá apenas sintomas menores ou nenhum tipo de sintoma. É um inimigo invisível, porém nefasto. Devemos tentar limitar a incerteza através do uso da razão e pensar em soluções dentro de um número limitado de cenários que podem evoluir.

A seguir, descrevemos o impacto da COVID-19 na economia mundial em duas dimensões, que serão as principais alavancas dos resultados da crise para todos nós:

· O impacto econômico da propagação do vírus: as características do vírus e da doença, tais como modos e taxas de transmissão, e taxas de mortalidade; bem como a resposta da saúde pública, tais comolockdowns, proibições de viagens, distanciamento físico, testes abrangentes, rastreamento de contatos, capacidade de prestação de serviços de saúde, introdução de vacinas e melhores métodos de tratamento.

· O impacto econômico dos efeitos colaterais das respostas de saúde pública, tais como aumento do desemprego, fechamento de empresas, falências corporativas, inadimplência, queda nos preços de ativos, volatilidade do mercado e vulnerabilidades do sistema financeiro; bem como o impacto das respostas de políticas públicas para mitigar esses efeitos colaterais, tais como políticas para evitar falências generalizadas, apoiar a renda de trabalhadores em licença e proteger o sistema financeiro e a viabilidade dos setores mais afetados.

Em termos de propagação do vírus e resposta da saúde pública, atualmente vemos três “receitas” de intervenções e resultados:

1. A resposta contundente da saúde pública apresenta sucesso no controle da disseminação em um país dentro de dois a três meses, e o distanciamento físico pode ser descontinuado rapidamente (como visto na China, Taiwan, Coreia e Singapura).

2. A resposta da saúde pública é bem-sucedida no início, mas o distanciamento físico precisa continuar (regionalmente) por vários meses adicionais para evitar a ressurgência do vírus.

3. A resposta da saúde pública não consegue controlar a disseminação do vírus por um longo período, talvez até que as vacinas estejam disponíveis ou a imunidade de grupo seja alcançada.

Em termos de efeitos colaterais e resposta das políticas públicas, antecipamos três potenciais níveis de eficácia:

1. Ineficaz: início da dinâmica de recessão que reforça a si mesma; falências e inadimplência generalizadas; potencial crise bancária.

2. Parcialmente eficaz: as respostas da política compensam os danos econômicos até certo ponto; a crise bancária é evitada, mas o alto nível de desemprego e o fechamento de empresas impedem a recuperação.

3. Altamente eficaz: uma forte resposta política evita danos estruturais à economia; uma sólida recuperação após o controle do vírus faz a economia reestabelecer os níveis e o momentum pré-crise, comprovados pelos fundamentos da economia.

Se combinarmos essas três “receitas” de propagação viral e os três graus de eficácia da política econômica, veremos nove cenários para o próximo ano ou mais.

CONTINUA AQUI:

https://braziljournal.com/coronavirus-como-proteger-nossas-vidas-e-meios-de-sobrevivencia