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Crise cria legiões de “novos pobres” no país

Crise cria legiões de “novos pobres” no país

Impulsionada pela pandemia, parcela da população brasileira abaixo da linha de pobreza beira 13%.

Quando bate 9h, Marina Timóteo da Silva, de 20 anos, pega o filho mais novo no colo e leva a mais velha pela mão para descer as vielas apertadas da Grota, em Paraisópolis, até chegar à fila da marmita, na ONG G10 das Favelas, parte baixa da comunidade.

Por Marsílea Gombata no VALOR ECONÔMICO

Pega duas “quentinhas” para almoço e jantar e fica esperando para ver se consegue outra para o café da manhã do dia seguinte. Separada do marido há quatro meses, ela sustenta a filha de 5 anos e o filho de 1 ano com a comida de doação e os bicos de cabelereira na vizinhança. Mas está com a corda no pescoço e se preocupa com o aluguel, que passará de R$ 300 para R$ 400. Marina é parte dos mais de 4 milhões de “novos pobres” que a pandemia deixou como legado no Brasil. Desde o choque da covid-19, o país vive explosão de pobreza e as perspectivas não são animadoras. Essa aceleração é visível nas grandes cidades, entre elas São Paulo, onde há um aumento de famílias inteiras na mendicância vivendo nas ruas.

FOTO DE CAPA: Marina Timoteo da Silva: fila diária da quentinha e bicos como cabeleireira para arcar com o alguel de R$ 300 — Foto: Silvia Costanti/Valor

A proporção de pobres – quem tem renda per capita mensal de até R$ 261 – era de 10,97% (23,1 milhões de pessoas) em 2019. Em agosto de 2020, passou para 4,63% (9,8 milhões de brasileiros), o melhor ponto da série histórica, em razão da adoção do auxílio emergencial pleno, segundo a FGV Social, a partir de microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua e da Pnad Covid.

Renata do Nascimento: “A gente quer trabalhar e não consegue. Tem muita família por aí em situação difícil” — Foto: Silvia Costanti/Valor

Renata do Nascimento: “A gente quer trabalhar e não consegue. Tem muita família por aí em situação difícil” — Foto: Silvia Costanti/Valor

No primeiro trimestre de 2021 tirando o auxílio emergencial, mas devolvendo o Bolsa Família, a pobreza é multiplicada por 3,5 e chega a 16,1% da população. Isso significa 34,3 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza, 24,5 milhões a mais do que nos seis meses anteriores. Com a adoção do novo auxílio em escala reduzida e duração limitada a partir de abril deste ano, a proporção de pessoas abaixo da linha da pobreza chega a 12,98%, 4,6 milhões a mais do que antes da pandemia. O cenário adiante é incerto, afirma Marcelo Neri, coordenador do FGV Social, por conta das dúvidas que rondam o Auxílio Brasil, que substituirá o Bolsa Família. “Se fosse mantido o valor original do Bolsa Família, seriam outros 6,8 milhões na pobreza, totalizando 11,4 milhões de pobres a mais do que antes da covid”, diz Neri. “Mas não deve chegar a esse total, pois o novo auxílio será maior. Só não se sabe ainda o quão maior será e quanto tempo vai durar.”

O debate sobre linhas de pobreza, correção pela inflação, e extensão está em curso. Muitos beneficiários do Bolsa Família e do auxílio emergencial ainda não sabem se serão contemplados com o Auxílio Brasil, que substitui o Bolsa Família. É o caso de Marina, de Paraisópolis. Antes da pandemia, a baiana, que vive em São Paulo, há 15 anos trabalhava servindo prato feito no restaurante Cidão do Bar, no entorno da favela no Alto Morumbi. Ganhava R$ 900 por mês até março de 2020, quando Cido, o dono, teve de passar o ponto. Chegou a receber parcela de R$ 600 do auxílio emergencial no ano passado e, desde então, se vira com os R$ 150 que consegue fazendo luzes no cabelo das vizinhas, as marmitas que recebe de segunda-feira a sábado e a ajuda do ex-marido, que na semana passada deu R$ 100 para comprar fruta e fralda. Vive em um imóvel pequeno na Grota, uma das áreas onde os moradores moram amontoados em Paraisópolis, em meio a vielas com lixo. No andar de baixo, um colchão de solteiro onde dorme com os filhos João Miguel e Ana Vitória, ao lado da pia com frutas, três pratos e detergente, e do banheiro. Na parte de cima, o piso frio com poças que se formaram na noite anterior por causa das goteiras. “Com o que ganho hoje não dá para comprar botijão de gás e fazer comida. Se eu recebesse o auxílio, conseguiria comprar botijões, e pegaria um fogão no ferro velho”, diz. “Mas não sei se vou receber, e preciso ver como vou fazer para pagar o próximo aluguel. Estou vivendo de catar latinha.” A 20 quilômetros dali, em Heliópolis, Renata Cristine do Nascimento, de 31 anos, vive situação parecida. “Nasci e cresci aqui. Nunca passei por isso. Já passei aperto, mas sempre tinha uma carroça para puxar, reciclagem, latinha e papelão para pegar, uma verdura para vender. Mas agora não”, conta. “A gente quer trabalhar e não consegue. E, como a gente, tem muita família por aí em situação difícil, dividindo leite, arroz, o que tiver.” Renata mora com o filho Miguel, de 5 anos, e a filha Janaína, de 12, em um quarto cozinha, dentro de uma casa antiga que foi dividida em três, em uma área conhecida como Paquistão, próxima ao Hospital Heliópolis. Sua casa é a única por onde entra ventilação pela porta e pela janela – as outras duas vizinhas só têm porta. O aluguel no cômodo, que tem uma cama de casal onde dorme com o filho, uma cama de solteiro para a filha, uma TV, um fogão, uma geladeira e o banheiro com chuveiro, custa R$ 400 e está dois meses atrasado. Ela conta que tudo piorou depois que pegou covid-19, em janeiro deste ano. Até então ela recebia o Bolsa Família de R$ 171 e o salário de R$ 1.200 como funcionária de um supermercado na Mooca. Teve três AVCs, ficou 15 dias internada, fez fisioterapia e ficou com a visão do olho esquerdo parcialmente comprometida. Chegou a receber uma parcela de R$ 1.200 do auxílio emergencial em abril de 2020, mas não sabe qual será o tamanho do benefício que terá no futuro. Hoje recebe o Bolsa Família mais R$ 380 que consegue com bicos de auxiliar de cozinha em um bar e no Clube Juventus, a cada 15 dias. Dentre os gastos fixos estão aluguel (R$ 400), internet (R$ 50) e transporte escolar (R$ 120). Eventualmente consegue um bico para fazer pé e mão por R$ 25 ou faxinar uma casa por R$ 100. “Às vezes recebo doação, cesta básica, ou coloco alguma compra no cartão de crédito. Já fiquei devendo três meses de aluguel e veio um amigo e me ajudou”, conta. “Mas não consigo trabalho mais. Já fiz um monte de entrevista para auxiliar de cozinha e copeira, mas, quando explico que preciso fazer exames toda segunda-feira e quinta-feira por causa das sequelas da covid, não aceitam.”

Renata reclama que o poder público esqueceu quem mora na favela e que, mesmo se o novo auxílio for maior do que R$ 400, não será suficiente. “A gente não quer dinheiro, a gente quer trabalho. Não quero que o governo me dê R$ 400, quero trabalhar”, diz. “Quero poder passear, sair com as crianças, levar no parque. Só quero ter trabalho para, se meu filho pedir pão, eu poder pagar. Porque hoje eu não tenho um centavo.” Todos as evidências parciais sugerem que houve um aumento bastante significativo e triste da pobreza no Brasil, afirma Pedro Herculano Guimarães Ferreira de Souza, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). “O que detonou isso foi a pandemia, mas o problema é que todos os males que ela trouxe vieram em um momento muito ruim para o Brasil”, argumenta. “A recuperação que houve entre 2016 e 2019 beneficiou a metade mais rica da população, enquanto as taxas de pobreza continuaram muito altas. Foi uma década perdida porque, depois da recessão, a pobreza e a desigualdade aumentaram e não desceram mais ao nível anterior.” Souza argumenta que a pandemia pegou o Brasil em um momento de “calças curtas”, com o Bolsa Família defasado e sem reajuste, e a renda dos mais pobres menor do que antes da recessão. “Foi um ponto de partida muito ruim. Tivemos em 2020 o auxílio emergencial, mas foi um benefício temporário e que expirou. Agora estamos vendo o real impacto da crise, e o buraco ficou claro.” Hoje o grande problema do Auxílio Brasil é a incerteza, diz. “Qualquer programa que consiga transferir mais dinheiro às famílias pobres é bem-vindo, porque R$ 50 ou R$ 100 fazem muita diferença”, diz. “Mas não se sabe o formato do programa, os valores, se será permanente ou não, como será o reajuste das linhas da pobreza.” Dados do Ministério da Cidadania mostram que quase 68,26 milhões de pessoas foram elegíveis para receber o auxílio emergencial em 2020, número que caiu para 56,84 milhões de aptos a receber a extensão do auxílio emergencial e para 39,37 milhões que receberam o auxílio emergencial neste ano. Destes, pouco mais de 10 milhões são beneficiários do Bolsa Família e devem continuar recebendo o benefício, agora sob o nome de Auxílio Brasil. Mas o destino de mais de 29 milhões de pessoas que receberam o auxílio emergencial neste ano, mas não recebem o Bolsa Família, é uma incógnita. “O que vai acontecer é que essas pessoas ficarão desprotegidas”, diz Marcelo Medeiros, professor da Universidade Columbia. “Mesmo se elas forem elegíveis, até incluir todo mundo nesse novo Bolsa Família demora e depende de engajamento do governo. E os estímulos que o governo tem para isso são profundamente eleitoreiros.” Medeiros prevê que o aumento da desigualdade nos últimos anos deve persistir no médio prazo. “A verdade é que a pobreza no Brasil cresceu como sempre acontece pós-recessão. O que a pandemia fez foi amplificar isso, introduzindo novas causas. Mas a covid-19 não foi a única razão”, afirma. Segundo o economista, depois da recessão de 2015-2016 não se tomou nenhuma medida clara para recuperar a renda dos mais pobres. “Era justamente quando o governo deveria ter expandido brutalmente o Bolsa Família, mas não o fez. A rede de proteção social existe para isso: impedir que as pessoas caiam na pobreza em uma crise”, argumenta. Medeiros afirma que de 2016 para cá houve poucos momentos de recuperação, concentrada nos mais ricos. Em um país “normal”, o gasto social existe para compensar, reduzir e mitigar problemas sociais decorrentes de crises econômicas, como a que o Brasil vive desde o fim de 2014, diz Celia Kerstenetzky, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “A crise sanitária agravou esse cenário, afetando emprego e renda. Mas também mostrou o potencial da política social para compensar problemas em conjuntura crítica, como ocorreu com o auxílio emergencial, e demonstrou o que muitos já vinham dizendo: que a política social tem impactos positivos sobre a economia e o desenvolvimento. Na ausência dessa transferência de renda, a queda do PIB em 2020 teria sido bem maior do que foi”, diz. A experiência internacional, lembra, mostra que a política social funciona bem quando institucionalizada sob a forma de programas e políticas regulares, sistemáticos, funcionando como “estabilizadores automáticos” que respondem imediatamente a necessidades sociais. Mas no caso do Brasil, observa, reagimos às crises desinstitucionalizando as respostas públicas anteriores, subtraindo capacidade de responder a problemas. “O símbolo mais perverso disso é o extermínio do Bolsa Família e sua substituição por algo que ninguém sabe o que é, mas que tem data para terminar e objetivo político-eleitoral a cumprir”, diz. Medeiros argumenta que o Brasil se encontra de novo no ambiente pós-recessão que marcou o governo de Michel Temer. “Precisamos fazer a economia se recuperar e não há nenhuma medida clara de promover recuperação econômica entre os mais pobres”, alerta. Se o Produto Interno Bruto (PIB) crescer cerca de 4,8% neste ano, como apontam projeções, não significa crescimento dessa magnitude para todos, afirma. “Quando falamos que a economia crescerá, estamos falando dos 5% mais ricos, que ficam com metade de tudo”, diz. A ideia de retomada da economia vem sendo abortada, com previsões piorando e um cenário de estagflação, que já é realidade para os pobres, afirma Neri. “A taxa de desemprego e a inflação são maiores para a metade mais pobre da população. E ambos vão subir antes de cair”, diz. “O cenário é preocupante e se soma ao ciclo eleitoral que se aproxima, o que tende a jogar mais combustível em todas essas incertezas.”

FONTE

https://valor.globo.com/brasil/noticia/2021/11/30/crise-cria-legioes-de-novos-pobres-no-pais.ghtml