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De inundações a saques, caos no RS mostra que reduzir Estado é um delírio

A reação à tragédia no Rio Grande do Sul não mostra apenas o que o “ser humano tem de melhor”, com campanhas de doações e voluntários em resgates, mas também o que somos de pior, com estupros e abusos em abrigos, saques em residências desocupadas às pressas e gangues e facções tocando o terror.

Dizer que a catástrofe é a prova de que a sociedade pode prescindir do papel do Estado porque é capaz de resolver sozinha os seus problemas é um conto da carochinha ideológico extremamente perigoso. Falácia que também prejudica o nosso futuro, pois posterga políticas públicas para enfrentar as mudanças climáticas

Quando as regras e normas que regem a vida coletiva perdem a efetividade por conta de guerras e desastres, temos uma condição de anomia. Há casos em que ela leva à união coletiva em busca da sobrevivência e outros em que o que domina é o cada um por si e Deus acima de todos – no melhor estilo de filmes e séries apocalípticos em que a sociedade é devorada por fungos, zumbis ou, vejam só, mudanças climáticas.

Tem circulado nas redes discursos de pessoas defendendo de que a catástrofe é a prova de que a importância do poder público é superestimada, uma vez que moradores estariam conseguindo sobreviver através da solidariedade uns dos outros, e rechaçando a presença do Estado.

Uma bobagem. Pois é a percepção dessa ausência que faz com que a criminalidade exploda em locais de tragédias. O que não é monopólio nosso, mas ocorreu em outras, como na Nova Orleans pós-furacão Katrina, por exemplo.

Para combater a instituição da lei do mais forte e do mais armado, o Ministério da Justiça e da Segurança Pública está mandando mais agentes da Força Nacional para o Rio Grande do Sul. Percebeu que há territórios que se tornaram bombas-relógio.

Mas não é apenas na segurança que a ausência de um Estado que defenda os direitos e proteções previstos na Constituição Federal se faz sentir. Ao longo de anos, o poder público, seja em Brasília, seja em Porto Alegre, seja em alguns municípios, se ausentou do papel de preparar o Rio Grande do Sul e o país para o novo clima. Mesmo com ele dando sinais de que havia endoidado.

Pior: o Estado serviu de garçom para setores econômicos que defendem uma sociedade sem regulação, sem regras e normas, apenas a livre busca pelo lucro. Já é difícil manter viva a legislação ambiental que impede o ser humano de acelerar a sua própria extinção, imagine então com um poder público que se ausenta dos deveres.

Tão difícil que, ao longo dos anos, estamos perdendo a batalha – e o próprio Rio Grande do Sul é exemplo disso, tendo dilapidado legislação ambiental que, agora, apresenta a fatura.

A ausência do Estado tanto nas ações que garantem proteção ambiental quanto naquelas que adaptam as cidades para um mundo mais quente também cria um ambiente de caos. Pode não ser rápido como a anomia que mata, abusa e agride da falta de segurança pública, mas cobra inexoravelmente seu preço. E em grande escala.

O Estado pode e deve ser repensado e reestruturado nas áreas em que não funciona bem. Porém, o Estado precisa ter capacidade de fazer valer a lei. A prevenção às mudanças climáticas e a prevenção da segurança pública mostram que enfraquecer essa capacidade de dar respostas é um delírio perigoso. O problema é que (quase) todo mundo concorda com a segunda necessidade, enquanto (quase) todo mundo empurra a primeira com a barriga.

FONTE: https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2024/05/09/de-saques-a-inundacoes-caos-no-rs-lembra-que-reduzir-estado-e-um-delirio.htm