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Então, quem quer uma guerra quente?

Então, quem quer uma guerra quente?

Não foi por acaso que o Hegêmona apelou para um vale-tudo para intimidar e tentar esmagar a integração eurasiana por todos os meios possíveis, analisa Pepe Escobar.

É uma batalha de escorpiões dentro de um turbilhão de espelhos distorcidos dentro de um circo.

O joão-ninguém que passa por ministro das Relações Exteriores da Ucrânia foi a Bruxelas para ser cortejado pelo Secretário de Estado dos Estados Unidos, Tom Blinken, e pelo secretário-geral da OTAN, Stoltenberg.

Por Pepe Escobar, para o Strategic Culture

Tradução de Patricia Zimbres, para o 247

Na melhor das hipóteses, temos aí um jogo de sombras circense. Muito mais que consultores da OTAN passando por uma frenética porta giratória em Kiev, o verdadeiro jogo de sombras é o MI6, a inteligência militar britânica, trabalhando muito próxima ao Presidente Zelensky.

O script belicista de Zelensky vem diretamente de Richard Moore, do MI6. A inteligência russa tem perfeito conhecimento de todas as letras miúdas. Alguns vislumbres chegaram a ser cuidadosamente vazados para um especial de televisão do canal Rossiya 1.

Isso me foi confirmado por fontes diplomáticas de Bruxelas. A mídia britânica também ficou sabendo – mas, obviamente, recebeu instruções para distorcer ainda mais os espelhos, e culpar – o que mais seria? – a “agressão russa”.

A inteligência alemã praticamente inexiste em Kiev. Os consultores da OTAN continuam sendo legiões. Mas ninguém menciona a explosiva conexão MI6.

Nos corredores de Bruxelas, sussurros descuidados juram que o MI6 realmente acredita que, no caso de uma vulcânica, embora ainda evitável guerra quente com a Rússia, a Europa continental arderia em chamas e a Brexitlândia seria poupada.

Continuem sonhando. Mas voltando ao circo.

Ah, você é tão provocador

Tanto o Pequeno Blinken quanto o espantalho Stoltenberg papaguearam o mesmo script em Bruxelas, depois de conversar com o ministro das relações exteriores ucraniano.

Tudo isso fez parte de uma “reunião especial” da OTAN sobre a Ucrânia – onde algum eurocrata deve ter dito a um bando de outros eurocratas sem noção que eles seriam instantaneamente carbonizados pelas aterradoras ogivas TOS-1 Burantino russas, no caso de a OTAN tentar alguma gracinha.

Ouçam o som dos latidos de Blinken: as atitudes russas são “provocadoras”.

Bem, sua equipe por certo não entregou a ele uma cópia da análise passo a passo da mobilização anual do DEFENDER-Europe 21 do exército dos Estados Unidos, feita pelo Ministro da Defesa da Rússia, Sergei Shoigu: “As principais tropas estão concentradas no Mar Negro e na região do Báltico”.

Agora, ouçam o som dos latidos de Stoltenberg: Assumimos o compromisso de dar “firme apoio” à Ucrânia”.

Au,au. Agora, voltem a seu tanquinho de areia e continuem brincando.

Não, ainda não. O Pequeno Blinken ameaçou Moscou com “consequências”, aconteça o que acontecer na Ucrânia.

A infinita paciência do porta-voz do Kremlin Dmitri Peskov é quase taoísta. A Arte da Guerra, de Sun Tzu, por sinal, é uma obra-prima taoísta. A resposta de Peskov a Blinken: “Nós simplesmente não precisamos sair por aí proclamando:  ‘Eu sou o maior, eu sou o maior!’ Na verdade, quanto mais se faz coisas assim, mais as pessoas duvidam…”

Em caso de dúvida, chamem o insubstituível Andrei Martyanov – que sempre dá nome aos bois. A turma do Boneco de Teste de Colisão, em Washington, ainda não entendeu – embora alguns profissionais do Deep State tenham entendido.

Aqui, Martyanov fala:
Como venho constantemente dizendo – os Estados Unidos nunca lutaram uma guerra onde seus sistemas de Comando e Controle fossem implacável e incessantemente alvejados, e sua retaguarda atacada e desorganizada. Em termos convencionais, os Estados Unidos não conseguiriam vencer uma guerra contra a Rússia na Europa, pelo menos em seu lado Oriental, e o melhor seria se o governo Biden acordasse para a realidade de que ele talvez não venha a sobreviver a qualquer tipo de escalada. De fato, os modernos Kalibrs, por sinal os 3M14M, têm um alcance de 4.500 quilômetros, e também um alcance de mais de 5.000 quilômetros de mísseis de cruzeiro X-101, que não terão a menor dificuldade em penetrar no espaço aéreo norte-americano, quando lançados pelos bombardeiros estratégicos da Rússia sem sequer deixar a segurança do espaço aéreo russo.

O efeito Patrushev

O circo continuou com o telefonema de “Biden” – quer dizer, o Boneco de Teste de Colisão, munido de um fone de ouvido e de um teleprompter, em frente ao telefone – para o Presidente Putin.

Chame-se a isso de o “efeito Patrushev“.

Em sua estarrecedora entrevista ao Kommersant, o Triplo Yoda Patrushev mencionou uma conversa telefônica muito civilizada, ocorrida em fins de março, que ele teve com Jake Sullivan, Consultor de Segurança Nacional dos Estados Unidos. É claro que não há prova incontestável, mas se alguém teve a ideia de um telefonema salva-face Biden-Putin, esse alguém teria sido Sullivan.

As versões de Washington e Moscou divergem apenas minimamente. Os americanos destacam que “Biden” – na verdade o combo com poder de decisão que está por trás dele – quer construir “uma relação estável e previsível com a Rússia, consistente com os interesses dos Estados Unidos”.

O Kremlin disse que Biden “manifestou interesse em normalizar as relações bilaterais”.

Independentemente de todo esse nevoeiro, o que realmente importa é a relação Patrushev-Sullivan. Isso tem a ver com Washington dizendo à Turquia que navios de guerra americanos transitariam pelo Bósforo em direção ao Mar Negro. Sullivan deve ter dito a Patrushev que não, eles não estariam “ativos” no Donbass. E Patrushev disse a Sullivan: Ok, não vamos incinerá-los.

Moscou não tem a menor ilusão de que essa suposta cúpula Biden-Putin em um futuro distante venha algum dia a acontecer. Especialmente depois de o taoísta Peskov ter deixado muito claro que “ninguém permitirá que a América fale com a Rússia a partir de uma posição de força”. Se isso soa como uma fala vinda diretamente de Yang Jiechi – que fez a sopa de barbatana de tubarão de Blinken-Sullivan no Alasca – é porque veio mesmo.

Kiev, como seria previsível, permanece presa ao modo circense. Depois de receberem cáusticas mensagens do Sr. Iskander, do Sr. Khinzal e do Sr. Buratino, eles mudaram de ideia, ou pelo menos fingem ter mudado, e agora estão dizendo que não querem guerra.

E aqui vem a intersecção entre o circo e as coisas sérias. O combo “Biden” nunca disse explícita e publicamente que não quer guerra. Pelo contrário: eles estão enviando esses navios de guerra para o Mar Negro e – novamente o circo! – designando um enviado, ao estilo Ministério dos Passos Bobos, de Monty Python, cuja única tarefa é tirar dos trilhos o gasoduto Nord Stream 2.

Daí o suspense – como um teaser do Expresso do Amanhã – é o que irá acontecer quando o Nord Stream 2 estiver concluído.

Mas, antes disso, há algo ainda mais importante: na próxima quarta-feira, em seu discurso para o Conselho de Segurança Russo, o Presidente Putin dará a palavra final.

É o Minsk 2, estúpido

O vice-ministro russo das Relações Exteriores, Sergei Ryabkov, falou em um tom bem menos taoísta que o de Peskov: “Os Estados Unidos são nossos inimigos e fazem tudo para minar a posição da Rússia na arena internacional. Não percebemos nenhum outro elemento em sua abordagem com relação a nós. Estas são nossas conclusões”.

Isso é realpolitik nua e crua. Ryabkov conhece, pelo direito e pelo avesso, a mentalidade “incapaz de acordo” do Hegêmona. Uma dimensão adicional de sua observação, portanto, é sua conexão direta com a única solução possível para a Ucrânia: os acordos Minsk 2.

Putin reafirmou os Minsk 2 em sua teleconferência com Merkel e Macron – e certamente para “Biden”, no telefonema em que eles conversaram. O Beltway, a União Européia e a OTAN estão todos cientes do fato. O Minsk 2 foi assinado pela Ucrânia, França e Alemanha, e certificado pelo Conselho de Segurança da ONU. Se Kiev o violar, a Rússia – como membro do Conselho de Segurança das Nações Unidas – tem que forçar sua aplicação.

Já há meses Kiev vem violando o Minsk 2 e recusando-se a implementá-lo. Como uma leal satrapia do Hegêmona, a Ucrânia também é “incapaz de acordo”. Mas agora eles estão vendo a profecia sinistra – na forma de poder de fogo – sobre o que vai acontecer caso eles ousem sequer pensar em iniciar uma blitzkrieg contra o Donbass.

O segredo aberto em toda a selva de espelhos sob a tenda do circo da Ucrânia/Donbass é, obviamente, a China. Mas a Ucrânia, em um mundo sensato, não apenas faria parte de um corredor da Iniciativa Cinturão e Rota (ICR), como também do projeto russo da Grande Eurásia. O especialista em China Nikolai Vavilov reconhece a importância da ICR, mas também tem certeza de que a Rússia está, acima de tudo, defendendo seus próprios interesses.

Idealmente, Ucrânia e Donbass estariam inseridos no renascimento maior das Rotas da Seda – como, por exemplo, o comércio interno da Eurásia Central, desenvolvido com base na demanda da totalidade da Eurásia. A integração da Eurásia – tanto na visão chinesa quanto na russa – diz respeito a economias interconectadas por meio de comércio inter-regional.

Não foi por acaso, portanto, que o Hegêmona – prestes a se tornar um ator irrelevante em toda a Eurásia – apelou para um vale-tudo para intimidar e tentar esmagar a integração continental por todos os meios disponíveis.

Nesse contexto, manipular um estado falido para fazê-lo ir de encontro à sua própria perdição é apenas um negócio (circense).

FONTE:

https://www.brasil247.com/blog/entao-quem-quer-uma-guerra-quente