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Fome em Madagascar é um alerta climático para todo o mundo

Fome em Madagascar é um alerta climático para todo o mundo

País vive uma seca histórica, a primeira que a ONU atribuiu diretamente às mudanças no clima

Para as Nações Unidas trata-se da primeira crise de fome no mundo induzida pelas mudanças climáticas. O governo de Madagascar concorda que a crise é resultado de um estilo de vida ocidental alimentado a emissões de carbono. Mas vários especialistas e cientistas discordam, dizendo que a crise, na verdade, é uma consequência da pobreza e da má administração. Já para a população do sul de Madagascar, alheia ao debate internacional, trata-se simplesmente da “kere”, a fome.

Por David Pilling e Charlie Bibby — Financial Times, de Ambovombe

Soanavorie Tognemare, de 22 anos, que vive com o marido e dois filhos pequenos, fez tudo o que podia para manter os filhos vivos. “Dei de comer cactos e folhas silvestres a meus filhos”, diz, segurando a filha de dois anos, Haova, que chegou a ser diagnosticada como sofrendo de desnutrição grave. “Nós fervemos as folhas e colocamos sal. Não tinha gosto, mas enchia nossas barrigas”, diz ela. “Kere significa fome. Ficar sem comida, todos os dias. Isso é kere.”

Quase sem chuva há três anos, o sul de Madagascar é uma área semidesértica, em uma nação insular do tamanho da Califórnia, na costa leste da África, região mais frequentemente associadas a florestas tropicais, lêmures e árvores baobás do que à fome. Mas no sul da ilha, a mais de 1.000 km da capital Antananarivo, ou a três dias de viagem por uma estrada de terra acidentada, que faz as vezes de rodovia, as pessoas mesmo nas melhores épocas sobrevivem à mais carente das existências. Numa parte do país onde celulares e motocicletas são raridade e só os mais ricos viajam em carroças puxadas por bois, a falta de chuva levou centenas de milhares de pessoas à fome extrema. Cerca de 1,68 milhão de pessoas, um terço da população do Grand Sud, como a região é conhecida, estão em situação de “crise” ou “emergência humanitária”, conforme a Classificação Integrada de Fases da Segurança Alimentar (IPC, na sigla em inglês), uma escala padronizada de cinco pontos para a gravidade das situações de fome. Numa paisagem repleta de cactos, onde as pessoas usam chapéus de abas largas, tipo de caubói, e têm uma orgulhosa história de resistência à autoridade central, muitos se viram relegados a comer plantas e folhas normalmente dadas ao gado. Marcelline Voatsasinanjara, que cresceu na região e que agora trabalha para a organização não governamental Save the Children, descreve os efeitos físicos da fome extrema. “Você não consegue se mexer”, diz ela. “Só os olhos mostram que você está vivo.” Crise humanitária em Madagascar levanta a questão da destruição ambiental causada pela atividade humana O governo reconhece que muitas pessoas passam fome, mas tem receio em usar o termo “fome”, dada a implicação de fracasso do Estado. Ainda assim, um funcionário público local diz que em um único dia 26 pessoas morreram de fome. “Eles não tinham nada para comer, então comeram folhas de cactos ou folhas que encontravam no chão”, diz Lalaina Rakotondramanana, prefeito de Ambovombe, capital de uma das três regiões administrativas do Grand Sud. As crianças cambaleavam até a cidade para pedir comida, diz. Os adultos vendiam seus poucos bens, como panelas e frigideiras, para comprar mandioca ou arroz, ou água, um bem tão precioso que um morador o comparou a ouro líquido. De forma parecida às pessoas que fugiram [das constantes tempestades de areias] do “Dust Bowl” nos EUA da década de 1930, muitos pegaram tudo o que tinham e rumaram a outros lugares. Alguns até foram filmados fervendo e comendo suas sandálias de couro, embora Rakotondramanana diga que se tratou de uma farsa. A tragédia em câmera lenta toca em vários problemas que vão muito além das circunstâncias particulares de Madagascar. Da mesma forma que em tantos outros países, anos de negligência em Madagascar por parte de um governo central deixaram comunidades marginalizadas vulneráveis a choques repentinos, sejam os provocados pelo clima ou por eventos de impacto inflacionário nos alimentos, como a guerra na Ucrânia. A intervenção das agências de ajuda humanitária coloca em evidência seu papel em salvar pessoas desesperadas, ainda que essas instituições exibam um histórico bem mais irregular na tarefa de impedir, em primeiro lugar, que as pessoas fiquem sujeitas a essas crises.

Ainda mais importante, a crise humanitária em Madagascar levanta a questão da destruição ambiental causada pelo homem, seja em nível mundial ou local. Ao mesmo tempo em que as pessoas no Grand Sud sofrem para subsistir de um solo esgotado, sua situação é um sinal de alerta a outros países, e possivelmente ao próprio planeta, sobre o que acontece quando os seres humanos pressionam a natureza além dos limites. Como escreveu o geógrafo Jared Diamond seu livro “Colapso – Como as sociedades escolhem o fracasso ou sucesso” (ed. Record), sociedades inteiras – como a da Ilha de Páscoa, a outrora florescente ilha do Pacífico – podem entrar repentinamente numa espiral rumo à autodestruição. Da mesma forma que algum ilhéu de Páscoa derrubou a última das árvores das quais dependia a sobrevivência da ilha, a população de Madagascar, onde o desmatamento também foi desenfreado, corre o risco de arruinar a própria paisagem da qual precisa para sobreviver. Enquanto tanto países pobres quanto ricos exploram o ambiente à procura de seus recursos e o usam como uma fossa para despejar lixo e emissões de carbono, o que acontece no sul de Madagascar pode ser um prenúncio para comunidades em outros lugares. Muitos cientistas acreditam que é apenas questão de tempo até outras pessoas em muitas partes do mundo se encontrarem vivendo em lugares que simplesmente não têm mais capacidade para sustentar a vida como eles a conheciam. “É difícil viver aqui. Não há chuva suficiente, então não podemos cultivar alimentos”, diz Patricia Vola, uma organizadora comunitária no Grand Sud. Rastreando as causas. A fome de Madagascar tornou-se uma fonte de atração de discussões sobre as mudanças climáticas, em particular, sobre o aquecimento mundial e se ele teria influenciado a crise na ilha. David Beasley, ex-governador republicano da Carolina do Sul e agora diretor-executivo do Programa Mundial de Alimentos da ONU, foi quem primeiro fez a conexão. “Houve secas consecutivas em Madagascar que levaram as comunidades à beira da inanição”, disse, após viajar à região em junho. “Isso não é causado por uma guerra ou conflito, é causado pelas mudanças climáticas.” Em uma espiral perigosa: as pessoas ficam mais pobres a cada ano e as mudanças climáticas só pioram a situação O próprio governo de Madagascar usa esse argumento. Na COP26 (sigla para a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas) da ONU, em Glasgow em novembro, Baomiavotse Vahinala Raharinirina, então ministra do Meio Ambiente de Madagascar, repreendeu o Ocidente por não levar a sério os elos entre as próprias ações e a situação das populações mais pobres. Por que os europeus continuam a cruzar o continente deles em voos baratos, perguntou? Até os delegados enviados a uma conferência sobre mudanças climáticas comiam ao ar livre aquecidos por aquecedores a gás. Os países ricos, prosseguiu ela, tampouco honraram a promessa, feita pela primeira vez em 2009, de arrecadar US$ 100 bilhões por ano para ajudar os países pobres na mitigação e adaptação às mudanças climáticas. Com sua parte desse dinheiro, Madagascar poderia ter construído um aqueduto para levar água à árida região sul, disse. Em meio à disparada dos termômetros no Reino Unido, a alertas quanto a um “apocalipse de calor” na França e a incêndios florestais devastadores da Austrália aos EUA, poderia parecer óbvio que a longa seca em Madagascar é resultado das mudanças climáticas mundiais. Várias regiões da África, do Sahel ao Chifre da África, onde a fome também predomina, têm sido afetadas negativamente por padrões climáticos imprevisíveis e devastadores. Mas um relatório de dezembro passado da World Weather Attribution, uma respeitada iniciativa coletiva de pesquisas, concluiu que, no caso de Madagascar, foi a “variabilidade climática natural”, e não a “mudança climática causada pelo homem”, a principal causa relacionada ao evento climático, que normalmente deveria dar-se a cada 135 anos (tal evento já ocorreu duas vezes em 30 anos). Além disso, destacou, “a insegurança alimentar em Madagascar não é apenas causada pela seca meteorológica, mas também por uma série de fatores como demografia, pobreza, infraestrutura, medidas políticas e choques não climáticos”. Esse relatório foi considerado por alguns críticos como evidência de que tanto a ONU quanto o governo de Madagascar haviam aproveitado o discurso das mudanças climáticas como uma manobra para arrecadar de fundos. Uma instituição beneficente que trabalha no sul de Madagascar admite que as contribuições dispararam depois de começarem a surgir artigos relacionando a fome ao aquecimento global. Emre Sari, jornalista que mora em Madagascar e escreve para a revista francesa “Revue XXI”, considera essa conexão com o clima “uma das manobras de mídia mais bem-sucedidas dos últimos anos”. Em vez das mudanças climáticas, ele culpa o fracasso das políticas governamentais, o roubo de gado e outros fatores locais de um país que hoje é mais pobre do que em 1960, quando se tornou independente. A negligência do governo, sem dúvida, desempenhou um papel. No sul de Madagascar, a disponibilidade de quase tudo, de escolas a estradas, é inadequada ou inexistente. “O sul está esquecido há muito tempo”, diz Rakotondramanana, prefeito de Ambovombe. Em Antananarivo, políticos vêm prometendo arrumar a estrada principal há décadas, algo que ele acredita que poderá acontecer agora, pelo menos em uma seção, depois de uma visita presidencial recente. Do jeito que está, carros e caminhões podem ficar presos por dias e até mesmo semanas, aumentando os custos dos produtos e dificultando o transporte de excedentes agrícolas – onde há algum – para as cidades. Ainda mais urgente, segundo autoridades locais, é levar água para a região, seja canalizando-a ou explorando as reservas que ficam no subsolo. “A Madagascar rural retrocedeu economicamente nas últimas décadas”, afirma Paul Wilkin, especialista em Madagascar do Royal Botanical Gardens, mais conhecidos como Kew Gardens. “A seca não é causada principalmente pelas mudanças climáticas, e sim pela pobreza.” Falhas políticas à parte, alguns cientistas têm uma explicação diferente para a seca. Patricia Wright, especialista em meio ambiente de Madagascar na Universidade Stony Brook de Nova York, afirma que as práticas humanas insustentáveis levaram o país à beira da catástrofe. “Madagascar está em uma espiral negativa perigosa”, diz ela. “As pessoas ficam mais pobres a cada ano. E as mudanças climáticas só pioram as coisas, acelerando tudo.” Derrubando árvores para produzir carvão. O assentamento humano em Madagascar, que segundo algumas estimativas separou-se da massa continental há mais de 80 milhões de anos, é relativamente recente. Dez mil anos atrás, alguns africanos atravessaram o canal de Moçambique até a ilha, a 400 km da costa, mas foram os indonésios que colonizaram a ilha em massa, provavelmente há cerca de 2.500 anos. A língua mais próxima do malgaxe, o idioma nacional de Madagascar, é falada no interior de Bornéo, a cerca de 10 mil km de distância. Os novos colonizadores encontraram uma ilha com densas florestas – o grau dessa densidade é contestado -, cujas flora e fauna eram 90% endêmicas. Para grande parte da megafauna da ilha, a chegada do Homem significou a extinção. Cientistas estimam que cerca de 17 espécies de lêmures gigantes, um tipo de mamífero encontrado apenas em Madagascar, duas espécies de hipopótamos, duas espécies de tartarugas gigantes e quatro espécies de pássaros-elefantes foram exterminadas, caçadas pela sua carne ou privadas de seus habitats pela agricultura de corte e queima. A introdução do gado, tão venerado no sul que seus chifres adornam as sepulturas de seus donos, criou uma nova necessidade por pastagens. Wright, da Universidade Stony Brook, afirma que a atividade humana recente tem sido ainda mais destrutiva. A pobreza empurrou as pessoas para práticas cada vez mais insustentáveis, afirma ela, incluindo o corte de árvores para a produção de carvão, usado nas cidades pelas pessoas para cozinhar. A população do país cresceu seis vezes, de cinco milhões na independência para os atuais 40 milhões, aumentando a pressão sobre as terras, diz ela. “Onde isso acaba? Acaba em desastre, não é?” Alison Richard, pesquisadora de Yale contesta o que ela chama de versão “Paraíso Perdido” da história ambiental de Madagascar, que ela diz ter sido caracterizada pelo fluxo constante bem antes da chegada dos humanos. Autora do livro “The Sloth Lemur’s Song: Madagascar from the Deep Past to the Uncertain Present” (a canção do lêmur-preguiça: Madagascar do passado profundo ao presente incerto), Richard diz que grande parte da ilha era coberta de gramíneas silvestres, e não de florestas, e que o solo no sul provavelmente sempre foi pobre e as secas frequentes. Ela admite que imagens de satélite mostram que 40% da cobertura florestal desapareceu nos últimos 50 anos, engolida pela agricultura, a silvicultura e mineração e a atividade carvoeira. Embora tenha havido tentativas de culpar os malgaxes por tudo, ela afirma que há muitos outros culpados. A França, que colonizou a ilha em 1896, acelerou a destruição ambiental ao expropriar as melhores terras cultiváveis, forçando os produtores de arroz a subir as encostas para produzir em terras inviáveis. No sul, muitos desmatamentos ocorreram depois da década de 90, segundo ela, uma consequência não intencional de uma política bem-intencionada da União Europeia para promover a agricultura comercial. “Há muitas mãos no machado”, diz ela. Richard afirma que, com vontade política, a destruição ambiental pode ser revertida e a vida das pessoas melhorada. Ela defende o plantio de árvores nativas. Os agricultores poderiam produzir culturas valiosas como a baunilha – Madagascar supre 80% das necessidades mundiais – e a pimenta verde. “Não é a presença humana. É o que você faz”, diz ela. “Para mim isso é uma semente de esperança. Caso contrário, é uma espécie de ‘estamos condenados. A autodestruição está em nosso DNA’.” No vilarejo de Somontsala, a três horas de carro de Ambovombe, Letoto Manantsoa, um ancião, aceita a ligação entre o desmatamento e a seca. “Como povo malgaxe, achamos que talvez seja porque cortamos as árvores. Talvez seja por isso que não chove mais.” Wilkin, do Kew Gardens, concorda que pode haver uma ligação entre o desmatamento local e a mudança nos padrões de chuva. O mesmo também pode valer para as temidas tempestades de areia, conhecidas como “tiomena”, ou “ventos vermelhos”, que destroem as mudas e tornam a vida insustentável. “A tiomena vem do leste, trazendo areia vermelha”, diz Fenosoa, aldeão que atende por esse único nome. “Todas as folhas e tudo mais na vila fica vermelho. Até mesmo as vacas ficam vermelhas.” Rakotondramanana, o prefeito, diz: “As tempestades de areia são resultado do desmatamento. Não há árvores suficientes para sustentar a terra”. Com o solo degradado, o plantio fica ainda mais difícil, forçando as pessoas a buscar outras fontes de renda. Um homem concorda em mostrar sua atividade ilegal de produção de carvão com madeira colhida de árvores a várias horas de caminhada pela estrada. Um saco grande custa 10 mil ariary, ou cerca de US$ 2. “Não posso dar meu nome. Tenho medo de ir para a cadeia”, diz ele. Um pouco de chuva neste ano, juntamente com um grande esforço internacional de ajuda – catalisado em parte pela suposta associação da fome às mudanças climáticas globais -, aliviaram um pouco a situação, embora muitas pessoas continuem desesperadas. O IPC diz que a probabilidade de safras ruins de milho, mandioca e batata doce, produtos básicos da região, significa que dezenas de milhares poderão voltar à fome extrema. Após três anos de seca, serão necessários mais do que alguns dias se chuva para restabelecer o equilíbrio, afirmam trabalhadores humanitários. Em Somontsala, os aldeões afirmam que os pagamentos mensais em dinheiro do Save the Children evitaram a fome. Mas a última das seis parcelas foi paga em julho. Perguntada sobre o que vão comer agora, Mary Blandine abre uma noz minúscula e mostras as sementes na palma da mão. “Isso”, diz ela. (Tradução de Sabino Ahumada e Mario Zamarian)

FOTO: Sem chuva há três anos, o sul de Madagascar é uma área semidesértica onde 1,68 milhão de pessoas estão em situação de crise — Foto: Laetitia Bezain/AP

FONTE

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2022/08/04/fome-em-madagascar-e-um-alerta-climatico-para-todo-o-mundo.ghtml