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Historiador estreia na literatura para contar a aventura da geração que recorreu à luta armada contra a ditadura

O aviso veio de Leonel Brizola: quando se escreve uma autobiografia, o autor termina e morre. As palavras ficaram ressoando na cabeça do historiador Daniel Aarão Reis e o fizeram demorar 40 anos para publicar “Na corda bamba: Memórias ficcionais”. O recurso à autoficção foi para escapar do vaticínio do político trabalhista, evitar ferir suscetibilidades e, ao mesmo tempo, poder cumprir o pacto com leitores de biografias: contar a verdade ou o que acha ser verdade.

“Na corda bamba” usa memória, história e ficção para recriar a aventura da geração que recorreu à luta armada contra a ditadura, correu perigo, correu o mundo nos países de exílio e voltou ao Brasil com a Anistia para reinventar a vida. Os nomes dos personagens foram mudados, mas os sentimentos ainda estão em carne viva.

O livro é divido em três partes – “Ditadura”, “Exílio” e “Retorno” -, subdivididas em contos com relatos da pequena história do cotidiano dos que tinham a revolução como utopia.

Hoje fora do radar, as epopeias revolucionárias emaranhavam-se nos projetos dessa geração inspirada pela vitória relativamente recente de Mao Tsé-Tung na China, em 1949; dez anos depois a Revolução Cubana saía vitoriosa; mais três anos, a Revolução Argelina, e, na guerra então em curso no Vietnã, o pequeno país derrotava os EUA, a grande potência.

“Me dei a missão de alcançar uma dimensão que os trabalhos da academia não têm: as incertezas das pessoas, os zigue-zagues, as frustrações, emoções que dificilmente são objeto da História”, disse Aarão Reis, autor de muitos livros acadêmicos como “A revolução faltou ao encontro”, “Ditadura militar, esquerdas e sociedade”, “A revolução que mudou o mundo: Rússia, 2017”.

Em “Na corda bamba”, o discurso político articulado, as análises sociológicas e históricas praticamente desaparecem e o destaque é para a dimensão humana dos personagens e suas reações espontâneas diante de situações banais ou trágicas.

O editor Rodrigo Lacerda lembrou um dos contos – “Os sanduíches” -, em que três militantes chegam a um bar tarde da noite para esvaziar o caixa. Eles estão armados, só há duas mesas ocupadas, decidem esperar as pessoas saírem. Percebem que um casal está tendo uma DR, a velha discussão da relação. Resolvem respeitar o momento dos vizinhos de mesa, pedem sanduíches. Ninguém está com fome, um deles come tudo, de puro nervoso.

E nada da DR acabar. Pedem mais sanduíches, um garçom avisa que o bar já vai fechar e, nesse exato momento, ainda discutindo, o casal levanta-se. Os assaltantes fazem o mesmo, o garçom vê os revólveres, a ação começa. A “expropriação” acontece como previsto, e os “três saem na madrugada como boêmios depois de uma noite bem vivida” – na linguagem da época, assalto é expropriação, sequestro é captura.

Há histórias muito dramáticas como a de Lena, um doce de pessoa, estudante de medicina que atuava no diretório e, para surpresa dos companheiros, foi presa numa ação com tiroteio. Continuava calma, entrou na lista de presos trocados por um embaixador sequestrado e desembarcou na eferverscência do Chile com Salvador Allende na presidência.

Vira e mexe, Lena travava, sentia-se esquisita. Foi para Berlim, cidade que adorou e onde encontrou um brasileiro bem-humorado que gozava a vida e não queria saber de revolução. Lena continuava tendo a sensação estranha, um travo vinha e voltava. Numa manhã gelada, depois de uma noite de sexo com o marido, Lena vestiu-se toda de branco, foi para a estação de metrô e, quando ouviu o trem chegando, pulou. “Um garoto gritou: mamãe, jogaram um lençol branco nos trilhos”, conta Aarão Reis.

No grupo de resistência à ditadura, misturavam-se pessoas muito rígidas com outras irônicas e críticas, gente que se levava muito a sério, outras com visões mais complexas de si mesmas e do mundo.

Uma das personalidades mais interessantes era Marta, uma bela e espirituosa revolucionária com uma fila de pretendentes, mas era ela quem escolhia os parceiros sexuais. Num cotidiano de tensão, em que a morte podia acontecer a qualquer momento, a busca pelo prazer não se descolava do dia a dia. Quando tudo passou, ela comentou que a revolução socialista fracassara, mas que a revolução do comportamento tinha mudado o mundo.

O historiador de 78 anos chega como estreante à literatura num campo já percorrido por muitos, o das memórias dos anos de chumbo. Logo depois da Anistia o assunto rendeu best-sellers – como os escritos por Fernando Gabeira e Alfredo Sirkis – e belos livros de ficção como “Em câmara lenta”, de Renato Tapajós, e “Quarup”, de Antonio Callado. Para leitores da mesma geração de Daniel Aarão Reis, é fácil identificar quem eram os verdadeiros atores dessa aventura, apesar de algumas histórias estarem misturadas.

A utopia revolucionária passou, a Anistia trouxe os exilados de volta e o livro acaba no comício das Diretas na Cinelândia, um momento-chave da redemocratização do Brasil. Mas a leitura de “Corda bamba” nos lembra que ainda estamos discutindo as mesmas questões 60 anos depois do golpe militar.

FONTE: https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2024/03/31/historiador-estreia-na-literatura-para-contar-a-aventura-da-geracao-que-recorreu-a-luta-armada-contra-a-ditadura.ghtml