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Inundação de aço barato chinês alimenta reação global, dos EUA ao Brasil, Índia e Vietnã

As exportações chinesas de aço cresceram 33% no último ano, com os grandes produtores do país tentando descarregar seus produtos no exterior diante da recessão no mercado interno da construção

A crise imobiliária épica na China sobrecarregou suas siderúrgicas com um excesso de metal não vendido. Elas agora estão vendendo para o exterior a preços reduzidos — e os Estados Unidos não são o único país que está reagindo. O presidente Joe Biden solicitou na quarta-feira a autoridades comerciais dos EUA a imposição de tarifas mais pesadas às importações de aço chinês, na ação mais recente de uma campanha mais ampla contra as exportações baratas chinesas que segundo Washington estão inundando os mercados globais e o americano. As exportações chinesas de aço cresceram 33% no último ano, com os grandes produtores do país tentando descarregar seus produtos no exterior diante da recessão no mercado interno da construção. Nos 12 meses até fevereiro, a China exportou 95 milhões de toneladas de aço, segundo dados da Alfândega chinesa, uma soma que supera as estimativas do consumo total de aço pelos EUA em todo o ano de 2022.

Por Jason Douglas, Em Dow Jones — Cingapura 21/04/2024

O aumento das exportações chinesas de aço é um exemplo potente da crescente preocupação com a perspectiva de um “novo choque chinês” que abale o comércio mundial. Pequim está canalizando investimentos para fábricas para acelerar o crescimento de uma economia sitiada pela queda dos gastos do consumidor e pela crise imobiliária. O resultado é uma explosão das exportações que está trazendo de volta lembranças do choque chinês original do começo dos anos 2000, quando uma torrente de produtos baratos fez a festa dos consumidores, mas revelou-se um desafio intransponível para alguns setores americanos expostos à nova concorrência. Na quarta-feira, o presidente Biden pediu a triplicação de uma tarifa importante sobre o aço chinês para 25%, um imposto que se soma a uma segunda tarifa de 25% aplicada ao aço chinês pelo governo Trump em 2018, por razões de segurança nacional. Em um sinal de que a briga comercial com os EUA pode estar se intensificando, o Ministério do Comércio da China disse na sexta-feira que vai impor uma taxa de 43,5% às importações de um produto químico importante dos EUA, depois que uma investigação concluiu que as empresas americanas fizeram “dumping” no mercado chinês. A China iniciou no ano passado a investigação sobre o ácido propiônico — usado na produção de alimentos, medicamentos e pesticidas —, após reclamações de produtores chineses. Números chineses mostram que as exportações de aço para os EUA diminuíram desde que as tarifas da era Trump entraram em vigor. A China exportou 1,2 milhão de toneladas de aço para os EUA em 2018, segundo dados alfandegários chineses. Em 2023, elas caíram para 815 mil toneladas. Assim, o aço chinês está sendo despejado em outros países como Brasil, Vietnã, Índia, Reino Unido, Filipinas e Turquia, todos com investigações “antidumping” em andamento. As autoridades chinesas rejeitam as queixas de que o país esteja subsidiando injustamente seus fabricantes e exportando um excesso de produtos para os mercados mundiais. Elas classificam as críticas de uma cortina de fumaça à incapacidade das empresas ocidentais de concorrerem com as chinesas. Na quinta-feira, a China exortou os EUA a não repetirem o que ela descreveu como erros do governo Trump ao aumentar as barreiras comerciais. O Ministério do Comércio classificou a tarifa proposta de medida protecionista. “Conclamamos os EUA a enfrentar seus próprios problemas”, disse o ministério. O forte crescimento das exportações chinesas de aço nos últimos 12 meses lembra uma inundação parecida em 2015. As exportações de aço atingiram o recorde de 112 milhões de toneladas naquele ano, 5,5 vezes as exportações registradas uma década antes. Esse aumento foi impulsionado por um colapso na demanda por aço graças ao enfraquecimento do mercado imobiliário chinês. Segundo algumas estimativas, o setor da construção chinês responde em um ano normal por 25% da demanda global por aço, segundo Frederic Neumann, principal economista do HSBC para a Ásia. O mercado imobiliário chinês passa mais uma vez por uma crise profunda. A maioria dos economistas acredita que a crise persistirá enquanto Pequim elimina do sistema o que vê como excessos especulativos. Isso significa que os produtores de aço poderão ficar com metal encalhado durante anos, a não ser que controlem a produção. No entanto, a produção aumentou no ano passado, cerca de 3% em comparação ao 1,2 bilhão de toneladas métricas. “Qual é a saída? Isso precisa ser exportado”, diz Neumann. A Angang Steel, uma unidade do Ansteel Group listada na Bolsa de Valores de Hong Kong e o terceiro maior produtor mundial de aço, disse no mês passado que as vendas internas em 2023 caíram 15%, mas as exportações cresceram 18% depois que ela “ampliou ativamente seus canais de venda no exterior”. A companhia teve um prejuízo de 3,25 bilhões de yuans no ano passado, equivalente a cerca de US$ 449 milhões, atribuindo-o aos preços baixos e à demanda interna fraca. Dados chineses mostram que as exportações de aço para a Índia nos 12 meses até fevereiro foram 84% maiores do que no ano anterior, somando cerca de 3 milhões de toneladas. As exportações para o Vietnã cresceram 78% para quase 10 milhões de toneladas. No mesmo período, as exportações para o Brasil cresceram 55%, para a Turquia 58% e para o México 14%. No Brasil, cerca de 2.000 trabalhadores siderúrgicos foram demitidos colocados de licença nos últimos seis meses em fábricas da Gerdau e da ArcelorMittal de Luxemburgo, enquanto os produtores lutam para competir com as importações chinesas. As siderúrgicas brasileiras vêm pedindo a imposição de tarifas de 25% sobre o aço importado, para proteger a produção local. “O Brasil exporta minério de ferro para a China, que o transforma em aço e vende de volta para nós a um preço inferior ao que nossas próprias siderúrgicas conseguem estabelecer”, diz Weller Gonçalves, presidente de um dos maiores sindicatos dos trabalhadores siderúrgicos do país. “A concorrência da China é hoje muito pior do que antes”, afirma ele. Em março, as autoridades brasileiras iniciaram investigações antidumping sobre certas chapas de aço-carbono e aço pré-pintado da China. Em setembro, o México iniciou uma investigação sobre os pregos de aço da China usados em concreto. O Vietnã está de olho nos fios de aço, o Reino Unido em cabos de aço e as Filipinas em cilindros de aço. O governo Biden disse que pretende trabalhar com o México para garantir que seu vizinho não seja usado como canal para a entrada de aço chinês no mercado americano, refletindo preocupações de que os produtores chineses estejam buscando meios para contornar as tarifas. Em 2018, o governo Trump acusou o Vietnã, a Malásia e a Tailândia de serem vetores desse tipo de baldeação. A Casa Branca disse que as autoridades comerciais também estão lançando investigações antidumping sobre as indústrias da construção naval, marítima e de logística da China. O ataque acontece antes de uma eleição presidencial em que o comércio com a China deverá ser uma questão fundamental. Em contraste com o começo dos anos 2000, quando a China fabricava principalmente produtos de baixo custo, hoje a China compete com indústrias do mundo todo, seja aço, produtos têxteis ou cerâmicos nos mercados emergentes, ou semicondutores, veículos elétricos e outros equipamentos de alta tecnologia nas economias avançadas. Em uma viagem recente à China, a secretária do Tesouro dos EUA, Janet Yellen, alertou que a China é agora simplesmente grande demais para o resto do mundo absorver sua crescente produção industrial, que segundo autoridades americanas é apoiada por subsídios generosos e empréstimos dirigidos pelo Estado. “Quando o mercado global é inundado por produtos chineses artificialmente baratos, a viabilidade das empresas americanas e de outras empresas estrangeira é colocada em dúvida”, disse Yellen. (Colaboraram Xiao Xiao de Pequim, Samantha Pearson de São Paulo e Clarence Leong de Cingapura)

FONTE:

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2024/04/21/inundao-de-ao-barato-chins-alimenta-reao-global-dos-eua-ao-brasil-ndia-e-vietn.ghtml