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La Niña em 2024: relembre a última passagem do fenômeno no Brasil

Previsão é que La Niña entre em ação entre julho e setembro deste ano.

O Hemisfério Sul segue sob o domínio de um El Niño, mas isso deve mudar em breve. Apesar da data incerta, o retorno de La Niña está confirmado para 2024, provavelmente entre julho e setembro, segundo o relatório mais recente da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA).

O retorno do fenômeno, caracterizada pela queda de mais de 0,5 °C na temperatura da porção equatorial do Oceano Pacífico, é fonte de preocupação. Por regra, em tempos de La Niña as chuvas diminuem no Sul e aumentam no Norte e Nordeste. No Sudeste e no Centro-Oeste há riscos de períodos frios e chuvosos.

Entenda a diferença entre o El Niño e a La Niña — Foto: Giovanna Gomes/Ed. Globo

Relembre os efeitos da última La Niña, entre setembro de 2020 e março de 2023, no Brasil:

Sul

No Sul, as chuvas abaixo da média na maioria do período causaram prejuízos no agronegócio. A seca gerou uma crise hidrídica na região, afetando o abastecimento de água para consumo humano e também a irrigação nas lavouras.

No Rio Grande do Sul, o tempo seco gerou danos de 50% a 80% nas plantações de milho e soja, impactando, inclusive, a pecuária, que depende da produção do milho silagem.

Willians Bini, meteorologista e Chief Climate Officer (COO) da FieldPRO, explica que as baixas temperaturas ainda favorecem a formação de geadas e ondas de frio, colocando em risco, principalmente, a produção de café, milho e cana-de-açúcar.

Em janeiro de 2022, a Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado do Rio Grande do Sul (FecoAgro/RS) anunciou que as perdas financeiras na agricultura devido à estiagem poderiam chegar aos R$ 36 bilhões. O impacto na soja foi de R$ 29,51 bilhões no Valor Bruto da Produção (VBP), enquanto o milho registrava R$ 6,62 bilhões.

Sudeste

Apesar de La Niña favorecer as precipitações, o fenômeno também foi responsável por um período de estiagem no Sudeste do país, gerando perdas significativas em diversas culturas e dificultando o abastecimento de água para consumo humano e irrigação nas lavouras.

A baixa umidade, os ventos fortes e o acúmulo de vegetação seca também contribuíram para o aumento da frequência e intensidade de fogo nas florestas, principalmente em algumas regiões do Centro-Oeste.

Centro-Oeste

Um levantamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apontou que os anos de 2021 e 2022 bateram recordes de queimadas no Cerrado.

A região enfrentou dois extremos, com volumes de chuva intensos em determinadas áreas, enquanto outras sofriam com a estiagem. Na agricultura, a irregularidade impactou na perda de algumas culturas, com quebras significativas na safra de grãos.

No relatório sobre como a estiagem influenciou na produção soja em 2021 e 2022, a Defesa Civil do Mato Grosso apontou que “as áreas mais críticas foram no período reprodutivo, do florescimento até o enchimento do grão, e tiveram sintomas: morte de plantas, nanismo e enrolamento, amarelamento e queda das folhas”.

Norte

No Norte, especialmente na Amazônia, foram registradas episódios de chuva intensa durante o La Niña, o oposto do que ocorreu durante a atuação do El Niño. A situação causou aumento do fluxo dos rios e elevação do nível dos lagos. As inundações prejudicaram infraestrutura, agricultura e populações ribeirinhas, aumentaram a proliferação de mosquitos e ocorrência de deslizamentos de terra.

Nordeste

Algo semelhante ocorreu no Nordeste, onde a precipitação ficou acima da média entre 2020 e 2023, provocando inundações e deslizamentos. Em áreas isoladas, a seca foi mais forte com crises hídricas, e a estiagem gerou problemas na atividade agrícola.

O que esperar da La Niña em 2024?

Ainda sem a confirmação do fim do El Niño pela NOOA, Desirée Brandt, meteorologista sócia-executiva da Nottus, diz que é prematuro prever como o fenômeno irá agir no Brasil. Ao que tudo indica, o período de neutralidade prevalece durante o inverno, com o início do La Niña apenas para o segundo semestre.

“Precisamos monitorar quando realmente se consolida. De acordo com o último relatório, será um fenômeno, por enquanto, de fraca intensidade. Essas são as expectativas no momento”, diz.

Segundo a especialista, os modelos que conseguem elaborar a previsão do tempo de forma mais estendida não mostram nada fora do normal. Ou seja, as chuvas devem chegar na época, com setembro registrando os primeiros episódios de precipitação. Em outubro, os volumes podem aumentar. No mês seguinte, isso se repete, principalmente, na faixa entre a costa do Sudeste e o Norte.

Quais os riscos para a agricultura?

el niño-la niña-efeitos-agricultura-brasil (Foto: Giovanna Gomes/Ed. Globo) — Foto: Globo Rural

Nas previsões iniciais, o La Ninã não dá indicativo que irá atrasar o período de chuva ou que será irregular, como aconteceu em anos anteriores, garante Desirée. Porém, nada pode ser descartado. Da mesma forma que tem influência para postergar, também pode devolver a chuva por mais tempo, volume e abrangência.

Um dos riscos para o período é a ocorrência de invernadas no Centro-Oeste durante o verão. O sistema, que engloba frio, chuva e vento ao mesmo tempo, causa impactos em momentos importantes da produção agrícola, como a colheita e a secação da soja. Além deste, há o perigo em relação ao excesso de chuvas e o surgimento de doenças em diversas culturas.

Dos três anos de atuação do fenômeno, os dois últimos (2021 e 2023) registraram episódios de estiagem em diversas áreas do território gaúcho. “Normalmente, esse risco é para o Sul do Brasil todo, mas o Rio Grande do Sul sente mais os efeitos. E não é apenas lá. Também é eminente para regiões produtoras da Argentina e Uruguai”, finaliza a meteorologista.

FONTE:

https://globorural.globo.com/previsao-do-tempo/noticia/2024/05/la-nina-em-2024-relembre-a-ultima-passagem-do-fenomeno-no-brasil.ghtml