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Na 1ª entrevista à imprensa ocidental após invadir Ucrânia, Putin discursa sobre sua visão do conflito

Conversa com apresentador de extrema-direita dos EUA foi dominada por monólogos do líder da Rússia, usados para justificar a invasão do país de Volodymyr Zelensky e impor condições para o fim da guerra.

A esperada entrevista do presidente da Rússia, Vladimir Putin, com Tucker Carlson – apresentador de extrema-direita dos Estados Unidos – foi a primeira do líder russo para um veículo de imprensa ocidental desde o início da guerra contra a Ucrânia. A conversa, contudo, foi dominada por longos monólogos de Putin sobre a história russa, usados para justificar a invasão do país de Volodymyr Zelensky.

Os primeiros 30 minutos da entrevista de duas horas entre Putin e Carlson foram usados para um grande pronunciamento revisionista sobre a história da Rússia e da Ucrânia, abordando o colapso da União Soviética e o expansionismo da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Após seus “esclarecidos históricos”, Putin começou a discorrer sobre diversos temas, como a guerra na Ucrânia, as relações da Rússia com os EUA, o caso do repórter americano preso Evan Gershkovich e até sobre inteligência artificial. O líder russo evitou, no entanto, temas espinhosos.

Ao final da conversa, deixou claro que apenas encerraria a guerra na Ucrânia se Kiev aceitasse os termos de cessar-fogo propostos por Moscou durante reunião na Turquia, em 2022.

Crimes de guerra

Durante a entrevista, Carlson não fez perguntas sobre os ataques russos a áreas civis ou infraestruturas críticas na Ucrânia, que causaram milhares de mortes, nem menção às alegações de crimes de guerra que Putin enfrenta no Tribunal Penal Internacional – a Corte na Haia – devido à deportação forçada de crianças ucranianas.

Também não foram abordados temas como a repressão política na Rússia ou a prisão de russos contrários ao governo.

O tom adotado por Carlson seguiu “linha mais esotérica”, como quando o entrevistador perguntou a Putin se, às vezes, ele tomava decisões baseadas em “forças que não são humanas”, uma ideia rejeitada pelo líder russo. Outras perguntas tentavam provocar Putin a apoiar teorias conspiratórias sobre a existência de um “Estado profundo” nos EUA que manipula o país.

Sobre a Ucrânia, Putin disse estar disposto a negociar o fim da guerra de acordo com proposta discutida em Istambul, em 2022, e frisando que os aliados da Otan teriam que encontrar uma maneira de aceitar o controle russo sobre o território ucraniano que ocupa atualmente. Ele também insistiu para que o legislativo ucraniano aprovasse leis proibindo “todos os tipos de movimentos neonazistas”.

Pressionado por Carlson para explicar a afirmação, Putin pediu que a Ucrânia removesse monumentos e símbolos públicos que celebram Stepan Bandera e Roman Shukhevych, que são nacionalistas ucranianos que lutaram contra a União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial.

“Estamos prontos para este diálogo”, disse Putin, afirmando que Washington havia instruído o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, a interromper as negociações. “Eles pararam as negociações. É um erro? Sim. Corrijam. Estamos prontos. O que mais é necessário?”

Carlson tentou repetidas vezes direcionar a conversa para questões mais contemporâneas, como a expansão da Otan, porém as tentativas eram rebatidas e criticadas por Putin, que mudava o assunto.

FONTE: https://valor.globo.com/mundo/noticia/2024/02/09/na-1a-entrevista-a-imprensa-ocidental-apos-invadir-ucrania-putin-discursa-sobre-sua-visao-do-conflito.ghtml