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Na Alemanha a crise econômica encoraja a luta

Dezenas de milhares de manifestantes saem às ruas contra a extrema direita alemã.

A locomotiva em ruínas do continente europeu não surpreende pelo aumento dos protestos sociais denunciando o mau momento da economia alemã. Oportunista, a extrema-direita à espreita, mostra os dentes e treina seus músculos. No entanto, a partir de 14 de janeiro deste ano, uma resposta popular superlativa ganha protagonismo nas ruas contra os planos “secretos” e xenófobos desses setores conservadores.

Mais de 200 mil pessoas saíram às ruas no sábado (20) em várias cidades da Alemanha para protestar contra a extrema-direita. Várias fontes da imprensa apontam para a realização de quase uma centena de mobilizações nesse terceiro fim de semana do mês. Pelo menos 35 mil manifestantes em Frankfurt. Número semelhante (sempre de acordo com fontes oficiais da polícia) em Hannover, Dortmund e Hamburgo. E mais de 10 mil em Kassel, Nuremberg e Erfurt. No domingo (21), os protestos de rua continuam em cidades emblemáticas, como Berlim.

As concentrações progressistas que se expandem pelo país a partir do passado domingo, 14 de janeiro, já estão entre as mais significativas dos últimos anos. Começaram apenas quatro dias depois de o coletivo de jornalismo investigativo Correctiv noticiar, em 10 de janeiro, sobre um plano secreto que a extrema-direita aplicaria se chegasse ao governo da Alemanha. Essas manifestações assumem também um significado especial num país que nas semanas anteriores foi palco de grandes protestos do mundo rural e de vários sindicatos, cada um com suas pautas específicas de reivindicações.

Crises e jornadas de protestos antigovernamentais

Na segunda-feira, 15 de janeiro, Berlim foi transformada de capital do país em uma grande fazenda, na qual nada menos que 6 mil tratores alteraram sua aparência urbana por algumas horas. O histórico Portão de Brandemburgo foi bloqueado por milhares de agricultores.

Esse protesto contra o governo contou com a presença de alguns militantes da extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD, sigla em alemão). No entanto, os organizadores do bloqueio de Berlim, a Associação de Agricultores Alemães (DBV, sigla em alemão), mantiveram distância, formalmente,dessa força política.

De acordo com a Associação, mais de 30 mil agricultores foram mobilizados para Berlim, embora as autoridades governamentais tenham tentado reduzir esse número significativamente. De qualquer forma, e como apontado por diferentes meios de comunicação, foi uma das maiores mobilizações desse tipo desde a reunificação alemã. O evento também foi o fecho de uma semana inteira de lutas descentralizadas e bloqueios de estradas em diferentes partes do país. A sua principal reivindicação: que o Governo de coligação (socialistas, verdes e liberais), liderado pelo socialdemocrata Olaf Scholz, recue nos cortes nos subsídios ao sector agrícola decretados no final do ano passado. Em dezembro, o Governo alemão viu-se obrigado a reduzir o orçamento do Estado para 2024 devido a uma decisão do Tribunal Constitucional, que não o autorizou a realocar rubricas orçamentárias excedentes não utilizadas durante a pandemia de Covid-19 para o campo, para a indústria e para a transição ecológica.

Segundo a Deutsche Welle, os protestos dos agricultores alemães “estão colocando o Governo nas cordas, que já recuou em algumas das medidas, embora mantenha em pauta o plano de eliminar completamente o subsídio ao diesel agrícola até 2026” (https://www.dw.com/es/masiva-protesta-de-agricultores-alemanes-contra-recorte-de-subsidios/a-67990875).De acordo com o jornal suíço Le Temps, em um artigo de 15 de janeiro, “a mobilização dos agricultores aumenta a pressão sobre o governo, cujo índice de aprovação nunca foi tão baixo”. A extrema-direita, que está em ascensão, especialmente no leste do país, tenta tirar proveito da revolta do setor rural. O mesmo artigo refere-se a uma sondagem recente realizada para o jornal diário Bild, segundo a qual “64% dos alemães disseram que gostariam de uma mudança de governo”. Nas últimas semanas, em um cenário econômico de crescimento lento e aumento dos preços, uma ampla gama de setores, da metalurgia à educação e ao transporte organizaram protestos (https://www.letemps.ch/monde/europe/des-milliers-d-agriculteurs-en-colere-deferlent-dans-les-rues-de-berlin-au-volant-de-leur-tracteur).

Por outro lado, na segunda semana de janeiro, paralelamente aos dias de protesto no mundo rural, o Sindicato dos Maquinistas Alemães (GDL, sigla em alemão) também entrou em greve, paralisando quase 80% do tráfego ferroviário de passageiros e de mercadorias no país entre terça-feira, 9, e sexta-feira, 12 de janeiro. O impacto da greve foi sentido em toda a Europa, já que seis dos 11 principais corredores de carga do continente passam pela Alemanha.

A greve do sindicato, que tem cerca de 10 mil associados, apresentou duas reivindicações centrais: aumentos salariais para compensar a inflação e uma semana de trabalho de 35 horas, concentrando o trabalho em apenas quatro dias.

O cenário complexo ameaça novos ventos de tempestade nas próximas semanas. Os trabalhadores em terra da companhia aérea Lufthansa, que passam por uma fase de discussão do seu acordo coletivo de trabalho, anteciparam possíveis medidas de força em caso de incumprimento dos acordos. Esse quadro se assemelha à situação dos trabalhadores das lojas de atacado e varejistas, que já tinham realizado paralisações curtas de advertência em dezembro e que podem lançar uma nova fase mais radical de protestos caso os novos acordos laborais com os patrões não forem assinados.

A linha entre o protesto social (e contra o governo) e a capitalização política, tal como concebida pela extrema-direita, parece ser muito tênue hoje em dia num país polarizado e com problemas econômicos evidentes. Isso também é compreendido por amplos setores da população que estão preocupados com o crescimento acelerado das forças reacionárias no país.

Plano secreto da extrema-direita

Em 10 de janeiro, a rede de jornalismo investigativo Correctiv revelou a existência de um preocupante Plano Secreto. Caso a Alternativa para a Alemanha vença as próximas eleições, este Plano prevê a expulsão de milhares de estrangeiros ou de origem estrangeira (https://correctiv.org/) do país. A Correctiv produziu um trabalho jornalístico muito bem documentado que começa em 23 de novembro do ano passado, dia em que membros dessa força política e representantes de grupos neonazistas se reuniram na cidade de Potsdam junto com poderosos empresários e aliados austríacos. De acordo com a Correctiv, naquela reunião eles planejaram nada menos do que a expulsão de milhões de pessoas da Alemanha”.Impactadas com a revelação da Correctiv, milhares de pessoas se mobilizaram no domingo (14) em diferentes cidades alemãs, embora tenha sido em Potsdam, a apenas 40 quilômetros ao sul de Berlim, onde a principal convocatória foi feita por iniciativa do prefeito socialdemocrata Mike Schubert. O chanceler Scholz esteve presente no evento, acompanhado por vários líderes de primeira linha da aliança governamental. Scholz se manifestou contra “os extremistas”, advertindo que a extrema-direita está tentando explorar as mobilizações sociais, especialmente as dos agricultores. Na segunda-feira, 16, um dia após o protesto em Potsdam, novas mobilizações contra a extrema-direita foram realizadas em Leipzig, Essen e Rostock. Desde então, os protestos contra a extrema-direita se multiplicaram e se expandiram ao longo da semana nas principais cidades do país. Indiretamente, dá um ar político ao governo de Olaf Scholz.

A indignação antifascista explode

A denúncia jornalística caiu como uma bomba na Alemanha e se tornou notícia prioritária em muitos meios de comunicação europeus. Além disso, como relata a Euronews, “os resultados da investigação provocaram indignação entre todos os outros partidos políticos do país e reabriram o debate sobre a possível proscrição da Alternativa para a Alemanha. Para essas forças políticas, os planos da extrema-direita lembram o capítulo mais sombrio da história alemã”.Por sua vez, o jornal francês Le Monde comentou a “onda de choque” produzida pela investigação. E noticiou na sua edição online de 14 de janeiro que, na reunião de novembro, em Potsdam, o cofundadordo Movimento Identitário da Áustria (IBÖ, por sua sigla em alemão), Martin Sellner, partilhou com os seus homólogos alemães um projeto para expulsar cerca de dois milhões de pessoas para o Norte de África. Basicamente requerentes de asilo, estrangeiros e cidadãos alemães considerados “não assimilados”. Entre os membros da AfD presentes na reunião de novembro estavam, entre outros, Roland Hartwig, representante pessoal de Alice Weidel, presidente do partido de extrema-direita; o deputado Gerrit Huy e o presidente do grupo parlamentar regional da AfD na Saxônia, UlrichSiegmund.De acordo com o Le Monde, essas revelações provocaram comoção no país, num momento em que as sondagens mostram um impulso ascendente favorável para a AfD, com uma intenção de voto nacional de 21% a 23%. O partido de extrema-direita chega a ultrapassar 30% das intenções de voto nos Estados da antiga Alemanha Oriental, como Saxônia, Turíngia e Brandemburgo, onde, durante o segundo semestre do ano, serão realizadasimportantes eleições regionais (https://www.lemonde.fr/international/article/2024/01/10/en-allemagne-des-responsables-du-parti-d-extreme-droite-afd-envisagent-l-expulsion-en-masse-d-allemands-d-origine-etrangere_6210063_3210.html).

Perspectiva econômica preocupante

Se 2023 foi um ano particularmente sombrio para os alemães, 2024 não será melhor, de acordo com o IW Economic Institute. Aliás, este último prevê uma queda do Produto Interno Bruto (PIB) de 0,5% em 2024. Os especialistas revisaram significativamente suas previsões para baixo desde setembro passado e continuam a estimar um crescimento pífio de 0,9% para o ano atual.

A queda da economia alemã, que entrou no vermelho em 2023, deveu-se, em particular, ao elevado custo da energia (corolário da guerra Rússia-Ucrânia), às elevadas taxas de juros e à desaceleração da demanda externa, fatores que enfraqueceram a sua força industrial e as exportações.

Em 16 de janeiro, o jornal francês La Tribune titulou uma análise econômica “Más notícias na Alemanha, após a recessão confirma-se a subida da inflação”. Afirma que “os retrocessos da economia alemã continuam. Em 15 de janeiro, depois de confirmar sua entrada em recessão, a inflação subiu em dezembro passado para 3,7%, de acordo com o instituto de estatísticas Destatis. As perspectivas para 2024 também não são muito otimistas”.

Um país em crise, uma sociedade mobilizada, uma nação profundamente polarizada. Nesse contexto, a tensão entre a visível crise económica e a provocação da extrema-direita definem um cenário muito particular, não isento de grandes surpresas políticas.

Sergio Ferrari é jornalista

Tradução: Rose Lima.

FONTE:

https://www.brasil247.com/mundo/na-alemanha-a-crise-economica-encoraja-a-luta?tbref=hp