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Na era da IA, vale a pena escrever seus próprios textos?

Eu não sei explicar exatamente como nem o porquê, mas eu começo a ler algo e muitas vezes já penso: “isso aqui é ChatGPT”. E, na maioria das vezes, acerto.

Ainda não existe uma ferramenta confiável para autenticar se um texto foi escrito por IA, mas a gente consegue fazer isso melhor do que a máquina.

A quantidade de gente preguiçosa terceirizando para a máquina suas tarefas está criando uma pilha de textos muito bem escritos, mas plastificados, chatos, sem qualquer personalidade. A mediocridade, hoje, é a assinatura da IA.

E isso acontece em todas as áreas. É o povo usando IA nas universidades, em redes sociais e até para publicar livros na Amazon. Esses dias, uma pessoa usou o ChatGPT para comentar em um post meu no LinkedIn. O textinho era exatamente o que eu tinha escrito, mas com outras palavras. Eu fico me perguntando: para que passar essa vergonha?

Desde o lançamento do ChatGPT, as pessoas passaram a usar a IA loucamente para criar conteúdos de todos os tipos, mas há uma pergunta —pelo menos no mundo acadêmico— que sempre esteve no ar: em que medida a IA consegue produzir textos criativos?

Nesta semana, estive no Havaí para participar da conferência CHI (Conference on Human Factors in Computing Systems), um dos principais eventos acadêmicos que reúne especialistas de computação, IA, design, antropologia, psicologia, neurociência e muito mais. Tudo isso para discutir e entender melhor como os humanos interagem com a tecnologia.

Foram muitas sessões que discutiram criatividade e IA, o que certamente aprofundarei em coluna futuras, mas nesta resolvi trazer um recorte específico sobre a capacidade da máquina para criar textos criativos.

Um grupo de pesquisadores investigou essa questão com bastante rigor acadêmico. Eles criaram um novo protocolo de avaliação chamado TTCW (Torrance Test of Creativite Writting), a partir de duas formas bem estabelecidas de avaliação de criatividade:

  1. O “Torrance Test of Creative Thinking” entende a criatividade como um processo e a avalia a partir de quatro principais dimensões: fluência, flexibilidade, originalidade e elaboração;
  2. Já o “The Consensual Assessment Technique” pensa a criatividade mais como um produto e explora o julgamento coletivo de especialistas na área.

Com isso, o TTCW analisa um texto a partir de 14 diferentes dimensões, que vão da originalidade ao menor uso de clichês até a criação de mundos e desenvolvimento de personagens.

Para avaliar a capacidade das IAs de produzir um texto criativo, os pesquisadores coletaram dezenas de contos publicados por diferentes autores na revista “The New Yorker”. Isso incluiu obras de autores menos conhecidos até o conclamado Haruki Murakami e a ganhadora do Nobel de literatura, Annie Ernaux.

Em seguida, os pesquisadores criaram uma série de diferentes “prompts” para as IAs (GPT-4 e Claude) gerarem contos com a mesma narrativa e estrutura dos conteúdos publicados pela “The New Yorker”.

Os conteúdos eram então avaliados por um grupo de 10 especialistas em literatura e escrita criativa. Os resultados não deixam dúvida: a IA ainda precisa de muita coisa para escrever aquele texto que toca na nossa alma.

Os escritos criados por IA não conseguiram chegar nem perto dos textos dos escritores em nenhuma das 14 dimensões do TTCW. E os avaliadores conseguiam perceber com certa facilidade se um texto era gerado por IA.

Essa é uma das primeiras pesquisas que levantam com rigor científico evidências sobre a capacidade criativa da máquina para gerar textos. Como qualquer pesquisa, é claro que há limitações e restrições, mas ela abre espaço para podermos aprofundar o entendimento da nossa relação criativa com IA no processo de escrita.

Pode ser que em poucos meses surja uma nova IA que seja melhor ainda para escrever textos criativos. Ou então que a customização dos modelos existentes permita uma especialização para escrever textos mais criativos. Agora, ao menos, temos como comparar a capacidade da IA com escritores humanos.

O mais importante talvez não seja pensar em uma competição entre humanos e máquinas, mas pensar em uma simbiose criativa. Apesar de não ter concretizado ainda a promessa de ser um ente criativo, a IA é uma ferramenta riquíssima para expandir nosso processo criativo.

A mágica está na combinação entre humano e máquina.

No meu caso, uso a IA como assistente. Em muitas vezes, ela traz insights interessantes ou me ajuda a desbloquear. Eu não peço para a máquina gerar meus textos, mas converso com ela quando estou em dúvida sobre um parágrafo de que gosto ou peço alternativas para me inspirar.

Eu nunca copio e colo um texto da IA. Eu processo o resultado da máquina na minha mente para exercitar a minha criatividade e minha habilidade de escrita. O que vai para o texto final é o que meu cérebro está mandando. É a materialização da minha subjetividade.

Não precisamos terceirizar o trabalho criativo para IA, mas usá-la como nossa aliada. Agora, se você for preguiçoso e pedir para a máquina escrever algo que você deveria criar, saiba que estará assinando um conteúdo medíocre.

FONTE: https://www.uol.com.br/tilt/colunas/diogo-cortiz/2024/05/18/na-era-da-ia-vale-a-pena-escrever-seus-proprios-textos.htm