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“Não existe soberania sem capacidade militar”, diz Breno Altman

Jornalista afirma que a crise na Venezuela expõe limites da defesa regional e defende mudança na doutrina militar do Brasil.

247 – Breno Altman afirmou que a crise venezuelana, agravada após os acontecimentos de 3 de janeiro, evidencia um ponto central para a América Latina: a relação entre soberania e capacidade de defesa. Na avaliação do jornalista, o episódio revela que projetos políticos nacionais ficam vulneráveis quando não há meios militares para dissuadir pressões externas e ataques de alta tecnologia.

As declarações foram feitas por Altman em entrevista ao Bom Dia 247, ao comentar as lições que, segundo ele, podem ser extraídas do caso venezuelano. No programa, o jornalista sustentou que a situação atual exige revisão de estratégias de defesa e de escolhas políticas na região, com impacto direto no debate brasileiro sobre indústria militar, doutrina das Forças Armadas e investimentos no setor.

“O que eu acho que não se pode subestimar é o poderio militar norte-americano e tem que se criar uma resposta a esse poderio militar”, disse. Em seguida, Altman sintetizou o que considera a principal conclusão do episódio: “Qual é a lição que se tira da situação venezuelana? É que não existe soberania sem capacidade militar e jamais um processo soberano se consolidará na América Latina sem proteção militar ou proteção militar estrangeira”.

Crítica à ideia de “região de paz” e foco em dissuasão

Ao abordar o tema, Altman criticou a visão de que a América Latina pode sustentar sua autonomia apenas com diplomacia e compromissos multilaterais. Para ele, a assimetria militar com os Estados Unidos, especialmente no hemisfério ocidental, torna insuficiente a estratégia baseada apenas em tratados e acordos.

“Toda essa doutrina da América Latina como região de paz, ela é inútil. Ela é inútil”, afirmou.

Altman também mencionou Cuba como exemplo histórico de proteção externa, ao citar o período em que a União Soviética garantiu um “escudo” contra investidas. “Jamais um processo soberano se consolidará na América Latina sem proteção militar ou proteção militar estrangeira, que foi o que a União Soviética ofereceu a Cuba durante décadas, ou capacidade autônoma de defesa militar”, disse.

Comparação com a Coreia do Norte e o tema nuclear

Na entrevista, Altman recorreu à comparação com um país que, segundo ele, não é alvo de “pressão norte-americana para valer” apesar de ser relativamente pequeno. “Qual é o país no mundo que, embora seja relativamente pequeno, não é alvo da pressão norte-americana para valer. É a Coreia do Norte”, afirmou.

Ele apontou o que considera o fator decisivo dessa dissuasão. “E o que a Coreia do Norte tem de diferente? É bomba atômica e capacidade balística de jogar mísseis sobre o Japão, sobre a Coreia do Sul. Dizem alguns que até sobre os Estados Unidos”, disse.

A partir disso, Altman defendeu que o debate latino-americano sobre defesa deveria se deslocar para a capacidade de dissuasão estratégica. “Não faz nenhum sentido os países latino-americanos continuarem no tratado de não proliferação nuclear”, afirmou, ao argumentar que a soberania “absoluta”, em sua visão, dependeria desse tipo de capacidade. “Só tem soberania absoluta quem tem a bomba atômica. Quem não tem bomba atômica não tem soberania absoluta”, declarou.

Propostas para o Brasil: doutrina, indústria e orçamento

Ao tratar do Brasil, Altman afirmou que o país deveria rever tanto a formação quanto a estratégia de defesa. “O Brasil tem que viver uma reforma militar em duplo sentido, no sentido de mudar a formação e a promoção dos seus oficiais para que a doutrina que dirige as forças armadas brasileiras seja uma doutrina anti-imperialista”, disse.

Ele também defendeu mudanças na política industrial do setor. “O Brasil precisa deixar de ser dependente do Ocidente no que diz respeito ao seu armamento, precisa desenvolver sua própria indústria de defesa, precisa desenvolver relações com a indústria de defesa de países efetivamente aliados como Rússia e China”, afirmou.

No plano orçamentário, Altman sustentou que a área não deveria ser submetida a limites fiscais. “O Brasil precisa de muitos recursos para a sua indústria de defesa e esses recursos têm que estar salvaguardados de qualquer limitação fiscal, como é o caso do arcabouço fiscal”, disse. Em seguida, declarou: “O Brasil precisa dobrar seus gastos militares”.

Foto: Brasil247

FONTE: https://www.brasil247.com/entrevistas/nao-existe-soberania-sem-capacidade-militar-diz-breno-altman