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Negar a mudança climática é tripudiar sobre os mortos das chuvas no RS

Tal como ocorreu no ano passado, o Rio Grande do Sul está contando corpos devido à falta de preparo do poder público para as tempestades causadas pelo El Niño anabolizadas pela mudança do clima. Ainda em 2023, os gaúchos passaram por uma seca histórica, fruto de outro fenômeno, o La Niña, também bombado pelo aquecimento do planeta. O estado, como o resto do país, lembra de aquecimento global só durante as crises.

Foram, ao menos, dez mortes agora e o próprio governador Eduardo Leite (PSDB) afirmou que o número deve disparar nos próximos dias porque a chuva continua. E que este deve ser o “maior desastre” da história do estado, superando as mais de 50 vítimas fatais após as chuvas do ano passado. Lula viajou ao Rio Grande do Sul, nesta quarta (2), para levar ajuda.

Mesmo se você é um sociopata insensível e não se importa com vidas além da sua, saiba que o Brasil inteiro sente o impacto do que está acontecendo. Basta ver o preço do arroz também sofreu com secas e cheias no estado. Ou seja, o clima doido ajudou a deixar o grão 28% mais caro nos últimos 12 meses, segundo o IPCA/IBGE.

Essa sequência de eventos extremos, comprimindo no período de dois anos o que ocorreria ao longo de décadas, serve como alerta da irresponsabilidade e estupidez de quem ainda brada que mudança do clima é um discurso ideológico.

Pior: que o problema até existe, mas não é tão grave quanto parece, sendo possível retardar a implentação de projetos de mitigação e adaptacão. Ou de redução da emissão de carbono na atmosfera. Aquela velha história de que o país não pode prescindir da grana da exploração de novos poços de petróleo, como na margem equatorial da Amazônia, por exemplo.

Quando cientistas alertaram que a subida da temperatura média do planeta já estava levando ao aumento na frequência de eventos climáticos extremos, negacionistas, orgulhosos de sua burrice, questionavam nas redes “este inverno fez mais frio, cadê o aquecimento”?

Ao mesmo tempo, municípios, estados e a União deram de ombros aos alertas e não se prepararam, preferindo se justificar por trás de declarações como “as chuvas foram além da média histórica”, quando a média histórica tornou-se ultrapassada pela mudança do clima.

Nos últimos anos, brasileiros assistiram assustados ao calor extremo em todo o país, a tempestades de areia engolirem cidades, a rajadas de ventos fortes causarem mortes, a água faltar na torneira das cidades, nas turbinas das hidrelétricas, na irrigação da lavoura, nos rios da Amazônia, para, logo depois, a chuva matar centenas por deslizamento ou inundação. Bem-vindos ao inferno do real.

Como aqui já disse, qualquer alce que caiu em um buraco na Sibéria após o colapso do permafrost local ou qualquer urso polar deprimido por estar à deriva em uma placa de gelo que se soltou no Ártico ou ainda qualquer tamanduá-bandeira pensando “danou-se” ao estar cercado pelas chamas de uma queimada descontrolada no Pantanal é capaz de dizer que, infelizmente, fizemos merda desde a revolução industrial. E continuamos fazendo mesmo com a água no pescoço.

As mudanças climáticas em andamento na Terra já são irreversíveis. Nas próximas décadas, teremos milhões de refugiados ambientais por conta da subida no nível dos oceanos e pelos eventos climáticos extremos; fome em grande escala devido à redução e desertificação de áreas de produção e à perda da capacidade pesqueira; aumento na quantidade de pessoas doentes e subnutridas, além de conflitos e guerras em busca de água e de terra para plantar.

Muita gente vai morrer no Brasil e no mundo. E os sobreviventes terão que adaptar sua vida para conviver com um ambiente mais hostil. Para quem tem filhos e netos, e se importa com eles, deve ser angustiante.

O mundo tentava manter o aumento da temperatura global em 1,5 graus Celsius até 2100, o que deve ser praticamente impossível dada a nossa incompetência. Podemos chegar a 3, 4 ou 5 graus a mais.

Fazer com que pessoas acreditem que tudo está mudando sem que sintam isso na pele é difícil. Por isso, que esses terríveis eventos extremos no Brasil e no mundo têm a triste capacidade de mobilizar por mudanças.

Talvez o esperado investimento para a redução de emissões e a mudança no comportamento dos cidadãos, bem como o desenvolvimento de tecnologias mais baratas para sequestrar carbono da atmosfera, virão quando houver pânico diante dos tais eventos. Infelizmente, é depois de andar pelo vale da sombra que estamos mais abertos para olhar o futuro e desejar que o sofrimento igual nunca mais se repita.

Infelizmente, porque há inocentes (desde os que são muito novos ou que nem nasceram até os que sempre estiveram alijados do consumo por serem pobres demais) que não são sócios da tragédia ambiental como a maioria de nós.

A questão não é mais “evitar” mudanças climáticas e sim “reduzir a tragédia que já começou”. O mundo precisa entender que já está no fundo poço. A questão é que, no fundo, há um alçapão.

Não acreditem em quem fala que estamos em contagem regressiva: já adentramos uma nova era de extinção em massa de uma série de espécies. Talvez menos a nossa. Pois, ao final, os ricos comprarão sua segurança e herdarão a Terra, desta vez mais árida e violenta. Ou migrarão para Marte, nos foguetes de bilionários.

Diante de tudo isso, se um negacionista climático ironizar com um “cadê o seu aquecimento global” diante de um dia frio, responda (com a paciência pedagógica de quem fala com tolos): nos cemitérios do Rio Grande do Sul e de todo o Brasil.

FONTE:

https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2024/05/02/negar-a-mudanca-climatica-e-tripudiar-sobre-os-mortos-das-chuvas-no-rs.htm