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O crescimento global da extrema-direita é um sintoma de problemas mais profundos

A crescente popularidade da extrema-direita entre os jovens franceses, conforme indicam recentes pesquisas, é um fenômeno que reflete uma crise mais ampla e complexa do sistema político democrático em diversas partes do mundo. Este cenário não é exclusivo da França, mas é um padrão que pode ser observado em outros países ocidentais, onde partidos de extrema-direita ganham força à medida que a confiança no establishment político tradicional diminui.

Existem diversos fatores que contribuem para essa tendência, e tentar entender essa dinâmica exige uma análise multifacetada. Vamos explorar alguns pontos principais que ajudam a explicar esse fenômeno:

1. Desilusão com o Sistema Político Tradicional
Governos centristas, como o de Emmanuel Macron na França, frequentemente são percebidos como ineficazes na resolução de problemas econômicos e sociais. Essa percepção de fracasso alimenta a desilusão entre os eleitores, especialmente os jovens, que procuram alternativas fora do espectro político tradicional.

2. Crise Econômica e Desigualdade
A persistente crise econômica e o aumento da desigualdade social são catalisadores para a radicalização política. Jovens que enfrentam dificuldades no mercado de trabalho e que veem poucas perspectivas de ascensão social são mais suscetíveis a apoiar movimentos que prometem mudanças drásticas.

3. Impacto das Políticas Neoliberais
As políticas neoliberais, implementadas por governos centristas e de direita moderada, muitas vezes são vistas como beneficiando apenas a elite econômica. Isso provoca uma reação contrária que pode se manifestar no apoio a partidos que se posicionam explicitamente contra o status quo.

4. Sentimento de Insegurança e Identidade
A globalização e a imigração são questões frequentemente exploradas pela extrema-direita para criar um senso de crise de identidade nacional. Partidos como o de Marine Le Pen, na França, utilizam uma retórica que promete restaurar a “soberania nacional” e proteger a cultura e os empregos franceses, ressoando particularmente bem entre os jovens que sentem ameaçada sua identidade nacional.

5. Fracasso da Esquerda Tradicional
A esquerda tradicional, muitas vezes vista como alinhada demais com o establishment ou incapaz de oferecer soluções viáveis, perde terreno para movimentos populistas de direita que parecem mais ousados e dispostos a desafiar o sistema estabelecido.

6. Repressão e Protestos
A repressão de protestos e movimentos sociais, como os dos “coletes amarelos” na França, pode radicalizar a população e aumentar o apoio a partidos que prometem uma ruptura com as práticas repressivas do governo atual.

7. Atração pelo Populismo
O populismo de direita oferece respostas simples e diretas a problemas complexos, o que pode ser particularmente atraente para jovens que buscam mudanças rápidas e tangíveis. Líderes populistas utilizam uma linguagem acessível e direta, que contrasta com o discurso tecnocrático e às vezes inacessível dos políticos tradicionais.

8. Cultura Política e Educação
A educação política entre os jovens pode ser limitada, e a falta de uma compreensão profunda das consequências históricas e sociais do fascismo e da extrema-direita contribui para a atração por essas ideologias. A narrativa de que a extrema-direita oferece soluções claras e diretas pode parecer mais convincente do que as complexas políticas de coalizão e compromisso das democracias liberais.

9. Influência das Redes Sociais
As redes sociais amplificam as mensagens populistas e extremistas, fornecendo plataformas para a disseminação de propaganda e desinformação. Essas plataformas são eficazes em mobilizar jovens, que são usuários ávidos de tecnologia.

10. Crise Global de Representação Democrática
A crise de representação não é um fenômeno exclusivamente francês. Em muitos países, há uma crescente percepção de que os governos democráticos não estão conseguindo representar efetivamente os interesses de suas populações. Isso leva a um aumento do cinismo político e a busca por alternativas fora do sistema tradicional.

Conclusão
O crescimento da extrema-direita é um sintoma de problemas mais profundos na estrutura política e econômica global. A resposta a esse desafio não pode ser simplista, exigindo uma abordagem que combine reformas econômicas, políticas sociais inclusivas e uma revitalização da educação política. Para a esquerda, isso significa repensar suas estratégias e reengajar-se com as bases populares de forma significativa e concreta, oferecendo uma alternativa viável e atraente que vá além do discurso anti-fascista e aborde diretamente as preocupações econômicas e sociais da população.

LEGENDA DA FOTO: Manifestação bolsonarista em Santa Catarina contesta as eleições em 2022 fazendo saudações nazistas | Foto: Reprodução

FONTE: Agência de Notícias ABJ – Associação Brasileira dos Jornalistas

( Reprodução autorizada mediante citação da fonte: Agência de Notícias ABJ – Associação Brasileira dos Jornalistas )