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O extermínio do povo negro: vivemos numa sociedade assassina

O extermínio do povo negro: vivemos numa sociedade assassina

É nesse contexto que a criação do conceito de raça ganha força. O branco se autoproclama como raça superior e escraviza o povo negro e indígenas, criando um discurso médico-cientifico e filosófico que pudesse dar embasamento e validação para a escravização. As teorias eugenistas se propagam sustentando teorias racistas baseadas em características individuais. Nina Rodrigues, notório eugenista do século passado, pasmem, ainda é nome de hospital psiquiátrico aqui no Brasil.

Por Jessica Nevel*

A sequência de acontecimentos é conhecida: a economia brasileira foi assentada em grande parte na escravização de negros, a falência desse sistema produziu a Lei Áurea que se deu de forma perversa. Uma pseudo-liberdade desacompanhada de políticas e amparo social para o povo negro criando um cenário de verdadeira catástrofe social que se arrasta até hoje.

O resultado desses fatos históricos se traduzem nas estatísticas. A população periférica é eminentemente negra, com acesso precário a condições de alimentação, saúde e educação. O mais gritante são os números da violência. De cada 3 presos, 2 são negros. O 15° Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostra que 78,9% das vítimas da letalidade policial são negros. Segundo informações do site Geledés a taxa de homicídios de brasileiros negros é de 37,8 para cada 100 mil habitantes, contra 13,9 de não negros.

O Brasil dos dias atuais vive os efeitos colaterais da história de colonização, que traz influência direta na subjetividade do brasileiro.

Há um extermínio sistemático da população negra no Brasil. Pessoas negras morrem todos os dias e são invisíveis aos olhos dos outros. Por que essa situação não causa uma crise ética na nossa sociedade? E quem trabalha com a saúde mental, sabe que vive numa sociedade assassina?

É uma pergunta que nos remete a criação da psicanálise, que nasce num contexto europeu, branco e burguês. Uma parte da psicanálise brasileira ainda sustenta essas bases, o que a torna frágil. É urgente o aprofundamento sobre os efeitos da nossa história cultural e de como isso compõe a subjetividade do brasileiro.

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É preciso que nos perguntemos de que forma a história vem produzindo os nossos sintomas. Promover esse tipo de questionamento vai em direção à uma ética da psicanálise, que é periférica, pois não se alia às forças colonizadoras e nem com o poder econômico. Psicanálise e política devem andar juntas, sim.

É somente se debruçando e elaborando a compreensão da história e dos sintomas, principalmente os sociais, que será possível promover deslocamento e quem sabe abrir espaço para políticas menos dissociativas e mais integrativas. Quando começaremos falar sobre a necessidade de reparação em pecúnia aos negros e indígenas?

Há muito a ser falado e elaborado.

*Jessica Nevel, Psicanalista, escreve sobre Cultura e Sociedade.

 

FONTE