Associação Brasileira dos Jornalistas

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O que esperar (e fazer) do jornalismo neste 2024

O Farol Jornalismo, em parceria com a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), desenvolveram uma série sobre os desafios do jornalismo para 2024. Jornalistas e pesquisadores foram convidados para projetar suas expectativas em temas diversos, como a emergência climática, a regulação das plataformas digitais, o uso da inteligência artificial e a sobrevivência do jornalismo. Para dialogar sobre essas questões, o webinar do fórum do ICFJ recebeu Moreno Osório, jornalista, professor e cofundador do Farol, e Giuliander Carpes, jornalista, professor e editor executivo do Farol. Você acompanha a conversa com o jornalista Daniel Dieb pelo vídeo abaixo e o resumo na sequência.

Pelo oitavo ano, o Farol reúne artigos para analisar o futuro do jornalismo. O exercício de pensar o jornalismo dentro da indústria é algo que Osório considera raro, diante das atribuições da profissão. “Os autores convidados são referências nos temas abordados e colocam algumas ideias do que podemos esperar. São artigos curtos que permitem uma reflexão panorâmica”, diz ele. Alguns desafios de outras edições do projeto se repetem. “Nesses últimos anos, a desinformação, o fact-checking e temas relacionados com a diversidade e o jornalismo colaborativo estão sempre por lá”, explica.

A crise da audiência

Osório ressalta que é importante repensar o que é notícia para recuperar a audiência. “O jovem não entende mais a informação como o jornalismo entende. O que é jornalismo, afinal? No século XX era formato (o que estava no jornal impresso, na TV e rádio). É necessário transcender o formato e pensar nesse jornalismo que se desloca do JN para o Tik Tok para aproximar desse público”.

O artigo de Juliana Doretto e Thaís Helena Furtado é destaque de Carpes por trazer algumas reflexões sobre como reconquistar os jovens. Incluir e respeitar suas falas nas entrevistas sem estereotipá-las, aproximar da linguagem desse público e produzir um conteúdo direcionado para os seus interesses são alguns dos aspectos levantados pelas jornalistas e pesquisadoras.

Manter uma boa audiência é um problema enfrentado mundialmente. Para Carpes, é necessária uma colaboração radical entre redações e entidades de classe para pensar em soluções. “Os meios independentes fazem coisas diferentes, mas no macro, em geral, é o ‘mais do mesmo’, a mesma forma de cobrir os eventos. O velho modelo do jornalismo impresso levado para o online”, diz Carpes. “A sensação é que perdemos o volante do caminhão de entrega das notícias e não sabemos como recuperar, porque o caminhão está andando para um lado e as pessoas estão fugindo dele”.

O que é tendência

A inteligência artificial promete contribuir de maneira significativa na apuração e produção da notícia, mas Osório destaca a importância de se ater a reflexão trazida por Maurício Ferro em reafirmar as habilidades humanas e a empatia com a audiência, quando a automação parece tomar conta.

Recuperar o envolvimento pelas pautas passa por esse caminho de humanização. “A COVID e o isolamento nos desumanizaram um pouco. Falta mais ativismo, ir para rua, sair do online e conversar. Precisamos sentir a dor das pessoas”, destaca Carpes. “Incomoda ser assinante de um jornal e não ver a defesa dos meus interesses com coisas absurdas acontecendo todas as semanas”.

Outro ponto mencionado foi o foco no jornalismo local de soluções a partir do diálogo com as necessidades da comunidade e o combate aos desertos de notícia. “Vamos indo no sentido contrário do afastamento do jornalismo industrial, que o século XX pregou, e agimos com a comunidade, como ativistas, mexendo nos pilares da profissão”, ressalta Osório.  “Durante a pandemia, tivemos a oportunidade, que poderia ter sido mais bem aproveitada, de dizer o que era jornalismo e por que era importante. As catástrofes climáticas são outra oportunidade para que as pessoas compreendam o impacto do nosso trabalho na vida delas.”

A relação com as plataformas

Osório destaca que o jornalismo vem sendo moldado pelas plataformas e que é preciso captar o melhor delas sem perder os valores fundamentais da profissão. “Precisamos adaptar aos formatos, mas estar atentos se essas tecnologias ressaltam os valores que acreditamos e se não estão a serviço de outros interesses”, alerta. “Temos que nos fortalecer como instituição e reunir força política para equalizar essa disputa pelo poder econômico”.

O responsável pelo Farol acredita na promoção do debate sobre o fazer jornalístico e na discussão das condições de trabalho diante de um mercado em constante mudança. “Nós mal conseguimos dar conta do nosso trabalho, imagina pensar a respeito dele? Essa é a realidade da maioria dos nossos colegas. Faltam, dentro da indústria brasileira, reportagens sobre jornalismo que escrutinem o nosso trabalho”.

FONTE: https://ijnet.org/pt-br/story/o-que-esperar-e-fazer-do-jornalismo-neste-2024