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Perto da eleição, Igreja Universal e Record ampliam demonização da esquerda

Perto da eleição, Igreja Universal e Record ampliam demonização da esquerda

Um texto publicado esta semana no site da Igreja Universal tenta explicar ao leitor “porque um cristão de verdade não pode nem deve compactuar com ideias esquerdistas”. A publicação lista cinco supostas diferenças entre a forma de pensar de uma pessoa cristã e uma de esquerda, defendendo a ideia de que são incompatíveis. A pregação é encerrada com uma frase do bispo Renato Cardoso, genro de Edir Macedo, fundador da igreja: “Se você se diz cristão e ainda vota na esquerda, há apenas duas possibilidades: ou você não segue realmente os ensinamentos do cristianismo ou os segue e ainda não entendeu o que a esquerda é verdadeiramente”.

Por Mauricio Stycer no UOL

Essa demonização da esquerda por parte da Igreja Universal causa estranhamento quando se lembra o apoio que deu aos dois governos Lula e ao primeiro governo Dilma, do PT. Entre 2012 e 2014, na gestão de Dilma, o então senador Marcelo Crivella, sobrinho de Macedo, foi ministro da Pesca. A aproximação com Bolsonaro começou ainda em 2018, durante a campanha eleitoral. Macedo apoiou a eleição e tem defendido o presidente e o governo de forma quase incondicional. Em setembro de 2019, o fundador da Igreja Universal abençoou Bolsonaro no Templo de Salomão e disse: “Vamos continuar orando pelo nosso presidente. A mídia toda é contra ele. E eu sei o que é isso. Porque nós vivenciamos o inferno da mídia, das pancadarias dela, porque ela é imprensa marrom”. Nestes últimos anos, em duas situações a igreja manifestou discordância aberta do governo. Em maio do ano passado, criticou a inação do Ministério das Relações Exteriores durante a crise enfrentada pela instituição em Angola. E tem dados seguidos sinais de apoio às campanhas de vacinação contra covid, apesar da pregação antivacina de Bolsonaro. Os telejornais da Record também têm criticado a política econômica, culpando o ministro Paulo Guedes, mas poupando o presidente. O Republicanos, ligado à Igreja Universal, faz parte do Centrão, que dá sustentação ao governo Bolsonaro. Um deputado do partido, João Roma (BA), é desde o ano passado ministro da Cidadania, pasta que concentra ações e programas de alcance social, como o auxílio emergencial e o Auxílio Brasil (ex-Bolsa Família). Os ataques à esquerda se intensificaram em 2021. Em setembro do ano passado, após os atos antidemocráticos promovidos por Bolsonaro no Dia da Independência, o jornal da Igreja Universal publicou um editorial criticando a cobertura da imprensa. “É que jornalistas e intelectuais em geral aprenderam a enxergar a realidade social sob a ótica do marxismo”, dizia o texto, citando um sociólogo. No mês seguinte, o “Jornal da Record” deu início à exibição de uma série de reportagens em que acusa, sem provas, o PT e seus dirigentes de terem sido financiados pelo narcotráfico. A fonte das reportagens foi uma jornalista espanhola, segundo o PT, “conhecida por espalhar fake news e teorias conspiratórias na Europa”. Após cinco matérias exibidas em três semanas, o partido entrou com uma ação de calúnia e difamação contra a emissora.

FONTE

https://noticias.uol.com.br/colunas/mauricio-stycer/2022/01/26/perto-da-eleicao-igreja-universal-e-record-ampliam-demonizacao-da-esquerda.htm