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Por que a Cúpula da OCX no Cazaquistão foi um Divisor de Águas

O Presidente Xi redobrou esforços quando se trata da parceria estratégica Rússia-China.

Seria impossível superestimar a importância da cúpula de 2024 da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), realizada nesta semana em Astana, no Cazaquistão. Essa reunião, certamente, pode ser vista como a antecâmara da importantíssima cúpula anual dos BRICS, presidida pela Rússia, a ser realizada em outubro próximo, em Kazan. 

Comecemos com a declaração final. Os membros da OCX afirmam que “mudanças tectônicas estão em andamento na geopolítica e na geoeconomia, e que “o uso de métodos de poder vem aumentando, com a violação sistemática das normas do direito internacional”. Ao mesmo tempo, esses países estão plenamente engajados no “aumento do papel da OCX na criação de uma nova ordem internacional político-econômica democrática e justa”.

Bem, nada poderia contrastar mais drasticamente com a “ordem internacional baseada em regras” unilateralmente imposta.

OCX10 – com seu novo membro Belarus – é explicitamente favorável a uma “solução justa para a questão palestina”. Todos os membros “se opõem a sanções unilaterais”. Eles pretendem criar um fundo de investimentos da OCX (o Irã, por intermédio do presidente em exercício Mohammad Mokhber, apoia a criação de um banco comum a todos os membros, semelhante ao NBD dos BRICS).

Além disso, os países-membros que “são parte do Tratado de Não-Proliferação Nuclear defendem a observância de suas cláusulas”. E, o que é de importância máxima, eles concordam que a “interação interna à OCX pode vir a se converter na base para a construção de uma nova arquitetura de segurança na Eurásia”.

Este último ponto, de fato, é o cerne da questão. O que prova que a proposta de Putin apresentada no em Astana – após o estratégico acordo da Rússia com a República Popular Democrática da Coreia, que colocou a segurança da Ásia como indissociável da segurança da Europa. Isso é algo que continua – e continuará – incompreensível ao Ocidente Coletivo.

Uma nova arquitetura de segurança abrangendo a totalidade da Eurásia representa um aperfeiçoamento do conceito russo de Parceria da Grande Eurásia – envolvendo uma série de garantias bilaterais e, nas palavras do próprio Putin, aberta a “todos os países eurasianos que queiram participar”, inclusive membros da OTAN.

A OCX deverá se converter em um dos principais motores desse novo acordo de segurança – em drástico contraste com a “ordem baseada em regras” – juntamente com a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (CSTO), a Comunidade de Estados Independentes (CIS) e a União Econômica Eurasiana (UEEA).

O mapa de percurso que temos pela frente, é claro, inclui a integração socioeconômica e o desenvolvimento de corredores internacionais de transportes – do Corredor Internacional de Transportes Norte-Sul (Rússia-Irã-Índia) ao “Corredor do Meio” mantido pela China.

Mas os dois pontos cruciais são de natureza militar e financeira: “Eliminar gradativamente a presença militar de potências estrangeiras na Eurásia e estabelecer alternativas aos “mecanismos econômicos controlados pelo Ocidente, expandindo o uso de moedas nacionais para pagamentos, estabelecendo sistemas de pagamento independentes”.

Tradução: o meticuloso processo conduzido pela Rússia para desferir o golpe fatal contra a Pax Americana é, essencialmente, compartilhado por todos os membros da OCX.

Bem-vindos à OCX+ 

Mais adiante, o Presidente Putin colocou os princípios básicos da organização, ao confirmar o “compromisso de todos os países-membros de criar uma ordem mundial justa, baseada no papel central das Nações Unidas, bem como o compromisso dos estados soberanos de se engajar em parcerias mutuamente benéficas“.

Putin acrescentou que “os objetivos de longo prazo para a expansão da cooperação em política, economia, energia, agricultura, altas tecnologias e inovação estão colocados no projeto de estratégia de desenvolvimento da OCX para o período que vai até 2035”.

Essa é uma abordagem bastante chinesa ao planejamento estratégico de longo prazo: os planos quinquenais da China já foram formulados até 2035.

O Presidente Xi redobrou esforços quando se trata da parceria estratégica Rússia-China: ambas devem “reforçar a coordenação estratégica ampla, se opor a interferências externas e, conjuntamente, manter a paz e a estabilidade” na Eurásia.

Mais uma vez, temos aqui a Rússia-China como líderes da integração eurasiana e do impulso rumo a um mundo multinodal (itálicos meus, nodal com “n”).

A cúpula de Astana demonstrou que a OCX realmente subiu de patamar após incorporar Índia, Paquistão e Irã – e agora Belarus – como novos membros, além de estabelecer atores importantes como Turquia, Arábia Saudita, UEA, Qatar e Azerbaijão como parceiros de diálogo, e os estratégicos Afeganistão e Mongólia como observadores.

Progrediu-se muito desde os Cinco de Xangai originais – Rússia, China, mais três “istãos” da Ásia Central que inauguraram a organização em 2001, essencialmente como um órgão antiterrorismo e anti-separatismo. A OCX evoluiu para uma cooperação geoeconômica séria, discutindo em detalhes, por exemplo, questões da segurança das cadeias de fornecimento.

A OCX, agora, vai muito além de uma aliança econômica e de segurança centrada no Heartland, o Grande Interior Eurasiano, que abrange 80% da massa terrestre do continente, responde por mais de 40% da população mundial, exibe 25% (tendendo a aumentar) do PIB global e gerou um valor de comércio global de mais de 8 trilhões de dólares em 2022, segundo estatísticas do governo chinês. Acrescente-se a isso que a OCX detém 20% das reservas mundiais de petróleo e 44% das de gás natural.

Não é de admirar, portanto, que um desdobramento importante neste ano, no Palácio da Independência, em Astana, foi o primeiro encontro da OCX+, com o tema “O Fortalecimento do Diálogo Multilateral”.

Um verdadeiro ‘Quem é quem’ dos parceiros da OCX estava presente: o Presidente do Azerbaijão Ilham Aliyeve, o Emir de Qatar Xeique Tamim bin Hamad Al Thani, o Presidente da Turquia Recep Tayyip Erdogan, o membro do Conselho Supremo dos Emirados Xeique Saud bin Saqr Al Qasimi, o presidente do Conselho do Povo do Turcomenistão  Gurbanguly Berdimuhamedov, o Secretário-Geral da ONU Antonio Guterres e o Secretário-Geral da OCX Zhang Ming.

As reuniões bilaterais da Rússia com muitos desses atores da OCX foram substanciais.

O Primeiro-Ministro Modi da Índia não foi a Astana, tendo enviado o Chanceler Jaishankar, que mantém excelentes relações com o Chanceler Lavrov. Modi foi reeleito para seu terceiro mandato no mês passado, e encontra-se assoberbado com o front interno, onde seu partido, o BJP, agora comanda uma maioria muito menor no parlamento. Na próxima segunda-feira ele estará em Moscou – onde se encontrará com Putin.

Os proverbiais charlatães do Dividir para Dominar usaram a ausência de Modi em Astana como prova de uma séria desavença entre Índia e China. Bobagem. Jaishankar, após um encontro bilateral com Wang Yi, declarou – de um modo metafórico tipicamente chinês – que “as três mutualidades – respeito mútuo, sensibilidade mútua e interesses mútuos – irão orientar nossos laços bilaterais”. 

O que se aplica a suas questões de fronteira ainda não resolvidas, ao delicado equilíbrio a ser encontrado por Nova Delhi para aplacar os Estados Unidos em sua obsessão indo-pacífica (ninguém na Ásia usa o termo “Indo-Pacífico”, e sim Ásia-Pacífico), e também quanto às aspirações indianas no tocante a ser um líder do Sul Global em comparação com a China.

A China se vê como parte do Sul Global. Wang Yiwei, da Universidade de Renmin, autor do que talvez seja o melhor livro sobre a Iniciativa Cinturão e Rota (ICR), afirma que Pequim vê com agrado esse “senso de identidade”, com base no fato de que ela representa o Sul Global e foi obrigada a resistir à hegemonia de Washington e à retórica da “desglobalização”.

A Nova Matriz Multinodal 

Astana, mais uma vez, revelou que os principais motores da OCX vêm avançando rapidamente em todas as áreas, da cooperação energética aos corredores de transportes transfronteiras. Putin e Xi discutiram o progresso na construção do colossal gasoduto Poder da Sibéria 2, bem como a necessidade que a Ásia Central tem de ter a China como fornecedora de verbas e tecnologia para desenvolver suas economias.

A China é hoje o maior parceiro comercial do Cazaquistão (o comércio em duas mãos atingindo 41 bilhões de dólares e tendendo a aumentar). É de importância máxima que, ao se encontrar com o presidente cazaque Kassym-Jomart Tokayev, Xi tenha apoiado a solicitação de Astana de ingresso nos BRICS+.

Tokayev estava radiante: “O aprofundamento de uma cooperação estratégica e amigável com a China é uma inabalável prioridade estratégica do Cazaquistão“. O que significa mais projetos no âmbito da ICR.

O Cazaquistão – que divide uma fronteira de mais de 1.700 km com Xinjiang – é de importância absolutamente central em todas essas frentes: ICR, OCX, UEEA, em breve nos BRICS e, por último, mas não menos importante, na Rota Internacional Transcaspiana de Transporte.

Esse é o famoso Corredor do Meio, que liga a China à Europa atravessando o Cazaquistão, o Mar Cáspio, a Geórgia, a Turquia e o Mar Negro.

Sim, esse corredor não inclui a Rússia: a principal razão é que comerciantes chineses e europeus temem as sanções secundárias dos Estados Unidos. Pequim, pragmaticamente, apoia a construção desse corredor como um projeto da ICR desde 2022. Xi e Tokayev inauguraram por videoconferência aquilo que também pode ser chamado de Expresso Transcaspiano China-Europa. Eles viram os primeiros caminhões chineses chegarem à estrada que leva a um porto cazaque no Mar Cáspio.

Xi e Putin discutiram o corredor, é claro. A Rússia compreende as limitações chinesas. E, afinal, todo o comércio entre Rússia e China usa seus próprios corredores – à prova de sanções.

Mais uma vez, os charlatães do Dividir para Dominar – não entendendo absolutamente nada do óbvio, para não falar dos pontos mais sutis da integração eurasiana – recorrem à sua velha e bolorenta narrativa: o Sul Global está dividido, China e Rússia não concordam quanto ao papel da OCX, da ICR e da UEEA. Aqui também, bobagens.

Todas as frentes avançam em paralelo. O Banco de Desenvolvimento da OCX foi, inicialmente, proposto pela China. O Ministério das Finanças russo, que é uma organização gigantesca, com mais de dez vice-ministros – não ficou muito entusiasmado, argumentando que capitais chineses inundariam a Ásia Central. Isso agora mudou, já que o Irã, que tem parcerias estratégicas tanto com a Rússia como com a China – se mostra bastante entusiástico.

A estrategicamente importante ferrovia Quirguistão-Uzbequistão – um projeto ICR – se desenvolveu lentamente, mas avança agora em marcha acelerada, graças a uma decisão tomada conjuntamente por Putin e Xi. Moscou sabe que Pequim – temendo o tsunami de sanções – não pode usar a Transiberiana como a principal rota comercial terrestre rumo à Europa.

A nova ferrovia Quirguistão-Uzbequistão, portanto, é a solução, reduzindo em 900 quilômetros o trajeto até a Europa. Putin afirmou pessoalmente ao Presidente quirguiz Sadyr Japarov que a Rússia não se opõe. Ao contrário, Moscou dá seu total apoio aos projetos interconectados lançados pelos BRICS e/ou financiados pela UEEA.

É fascinante assistir à dinâmica russo-chinesa em funcionamento no cerne de organizações multilaterais como a OCX. Moscou vê a si mesma como um líder da futura ordem multipolar, embora não se considere, tecnicamente, como parte do Sul Global (Lavrov insiste em “Maioria Global“).

O “pivotar para o Leste” da Rússia, na verdade, começou na década de 2010, mesmo antes do Maidan, em Kiev, quando Moscou começou a consolidar seriamente relações com o … bem… Sul Global.

Não é de admirar que agora Moscou veja claramente a nova realidade multinodal que vem surgindo – as novas plataformas de comércio OCX, OCX+, BRICS 10. UEEA, ASEAN, CITNS e a nova arquitetura de segurança eurasiana – como sendo o coração pulsante de uma complexa estratégia de longo prazo de esmagar meticulosamente o domínio da Pax Americana.

Tradução de Patricia Zimbres

Foto: Xinhua/Ju Peng

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/por-que-a-cupula-da-ocx-no-cazaquistao-foi-um-divisor-de-aguas