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Por que a França está escondendo uma cura barata e testada para o vírus

Por que a França está escondendo uma cura barata e testada para o vírus

É possível que o governo francês esteja ajudando a Grande Farma a lucrar com a pandemia de Covid-19.

Por Pepe Escobar, para o Asia Times

Tradução de Patricia Zimbres, para o 247

É bem possível que o que vem acontecendo na quinta maior economia do mundo aponte para um complô escandaloso e de grandes proporções: o governo francês estaria ajudando a grande indústria farmacêutica –  a Grande Farma – a lucrar com a expansão do Covid-19. Os cidadãos franceses informados estão absolutamente furiosos.

Minha primeira pergunta a uma fonte parisiense séria e acima de qualquer suspeita, a jurista Valérie Bugault, foi sobre as ligações perigosas entre o macronismo e a Grande Farma e, especialmente, sobre o misterioso “desaparecimento”- mais provavelmente roubo, mesmo –  de todos os estoques de cloroquina em mãos do governo francês.

O respeitado professor Christian Perrone falou sobre esse roubo em uma live em um dos canais franceses de informação 24/7: “A central de medicamentos dos hospitais anunciou hoje que estavam enfrentando o total colapso dos estoques, que haviam sido furtados”.

Com as informações dadas por uma outra fonte, esta  anônima, é possível agora estabelecer uma linha cronológica que coloca em perspectiva muito necessária as ações recentes do governo francês.

Comecemos com Yves Levy, que foi diretor da  INSERM – o Instituto Nacional Francês de Saúde e Pesquisa Médica – de 2014 a 2018, quando foi nomeado conselheiro extraordinário de estado do governo Macron. Apenas doze pessoas em toda a França chegaram a alcançar esse status.

Levy é casado com Agnes Buzy, que até recentemente foi a ministra da saúde de Macron. Resumindo, o partido de Macron ofereceu a Buzy uma “oferta impossível de recusar”, para que ela deixasse o ministério – em meio da crise do coronavírus – para concorrer ao cargo de Prefeita de Paris, eleição na qual ela foi impiedosamente massacrada no primeiro turno, em 16 de março.

Levy tem uma feroz e histórica inimizade com o Professor Didier Raoult – um prolífico e frequentemente citado especialista em doenças contagiosas de Marselha. Levy recusou-se a conceder o selo INSERM ao IHU, o Instituto Hospital-Universidade de renome mundial dirigido por Raoult.

Na prática, em outubro de 2019, Levy revogou o status de “fundação” dos diversos IHUs, a fim de assumir suas pesquisas.

Raoult participou de um experimento clínico no qual  a hidroxicloroquina e a azitromicina curaram 90% dos casos de Covid-19 identificados em fases muito iniciais (testes precoces e em massa foram o elemento central da bem-sucedida estratégia sul-coreana).

Raoult é contrário ao isolamento de pessoas sadias e de possíveis portadores – que ele considera “medieval”, no sentido de  anacrônico. Ele é favorável a testes em massa (que, além da Coreia do Sul tiveram êxito em Cingapura, em Taiwan e no Vietnã) e de um tratamento precoce com hidroxicloroquina. Apenas os indivíduos contaminados deveriam ser confinados.

A cloroquina custa um euro cada 10 cápsulas. E aí é que reside o problema: A Grande Farma – que é grande financiadora do INSERM e inclui a “campeã nacional” Sanofi – preferiria uma solução muito mais lucrativa. A Sanofi, no momento, diz que está “se preparando ativamente” para produzir a cloroquina, mas que isso pode demorar “semanas”, e a questão de preços não é mencionada.

Uma ministra fugindo de um tsunami 

Aqui vai a cronologia dos fatos:

Em 13 de janeiro, Agnes Buzyn, ainda Ministra da Saúde da França, classificou a cloroquina como uma “substância venenosa” e a partir de então acessível apenas mediante receita médica. Uma atitude estarrecedora, tendo em vista que o medicamento vem sendo vendido sem receita há meio século.

Em 16 de março, o governo Macron decretou um confinamento apenas parcial. Não se ouviu um pio sobre a cloroquina. A princípio, não se exigiu que a polícia usasse máscaras; a maioria delas foi roubada e não há máscaras suficientes nem mesmo para o pessoal da saúde.  Em 2011, a França possuía cerca de 1,5 bilhão de máscaras: 800 milhões de máscaras cirúrgicas e 600 milhões de máscaras para profissionais de saúde em geral.

Mas então, ao longo dos anos, os estoques estratégicos não foram renovados, para agradar à União Europeia e aplicar os critérios de Maastricht, que determinavam que só países cujos déficits orçamentários não excedessem 3% do PIB poderiam ser membros do Pacto para Crescimento e Estabilidade. Um dos responsáveis, à época, era Jerome Salomon, hoje conselheiro científico do governo Macron.

Em 17 de março, Agnes Buzyn diz ter tido conhecimento de que a disseminação do Covid-19 seria um tsunami de grandes proporções,  para o qual o sistema de saúde francês não tinha solução. Ela afirmou também ser de opinião que a eleição para a Prefeitura de Paris “não se realizaria”, e que, em última análise, não passava de “uma pantomima”.

O que ela não diz é que ela não comunicou isso publicamente à época em que concorria à Prefeitura porque toda a máquina política de Macron estava focada em ganhar a “pantomima”. O primeiro turno da eleição não significou nada, porque o Covid-19 estava avançando. O segundo turno foi adiado indefinidamente. Ela tinha que saber sobre a iminência do desastre para o sistema de saúde. Mas, como candidata da máquina Macron, ela não tornou públicos os fatos em tempo hábil.

Em sucessão rápida:

O governo Macron se recusa a aplicar testes em massa, tal como praticado com sucesso na Coreia do Sul e na Alemanha.

O Le Monde e a agência estatal de saúde francesa caracterizaram a pesquisa de Raoult como fake news, antes de publicar uma retratação.

O Professor Perrone revela no canal de notícias 24/7 que o estoque de cloroquina da central de medicamentos francesa foi roubado.

Baseando-se em um tuíte de Elon Musk, o Presidente Trump diz que a cloroquina deveria estar disponível a todos os americanos. Pacientes sofrendo de lupus e artrite reumatóide, que já têm problemas de abastecimento com o único medicamento que lhes oferece alívio, incendiaram as redes sociais com seu pânico.

Médicos e outros profissionais de saúde dos Estados Unidos deram para estocar o medicamento para seu próprio uso e o de pessoas próximas, falsificando receitas  para dar a entender que se tratava de pacientes com lupus e artrite reumatóide.

Marrocos compra o estoque de cloroquina da Sanofi, em Casablanca.O Paquistão decide aumentar sua produção de cloroquina para ser enviada à China.

A Suíça descarta o confinamento total de sua população, opta por testes em massa e tratamento rápido e acusa a França de praticar “política do espetáculo”.

Christian Estrosi, prefeito de Nice, tratado ele próprio com cloroquina sem qualquer participação do governo, liga diretamente para a Sanofi para que seja providenciada a entrega de cloroquina aos hospitais de Nice.Em razão da pesquisa de Raoult, começa por fim na França um teste em larga escala da cloroquina, sob a – previsível – direção do INSERM, que quer “refazer os experimentos em outros centros médicos independentes”. Isso levará pelo menos mais seis semanas – ao mesmo tempo em que o conselho científico do Palácio Elysée agora pensa na hipótese da extensão do confinamento total na França para … seis semanas.

Se o uso conjunto da hidroxicloroquina e da azitromicina se mostrar definitivamente eficaz para os casos mais graves, as quarentenas poderão ser reduzidas a nichos selecionados.

A única empresa francesa que ainda fabrica  a cloroquina encontra-se sob intervenção judicial. Esse fato coloca na perspectiva correta a estocagem e o roubo da cloroquina. Levará tempo para que esses estoques sejam renovados, dando assim margem de manobra à Grande Farma para que ela consiga o que quer: uma solução cara.

Parece que os perpetradores do roubo de cloroquina estavam muito bem informados.

Enfermeiras ensacadas

Essa cadeia de acontecimentos, estarrecedora para um país altamente desenvolvido do G-7 e orgulhoso de seu sistema de saúde, é parte de um longo e doloroso processo incrustado no dogma neoliberal. A austeridade adotada pela União Europeia somada à motivação dos lucros resultou em uma atitude muito frouxa com relação ao sistema de saúde.

Pelo que me disse Bugault, “os kits de testes – escassos em número – sempre estiveram disponíveis, mas principalmente para um pequeno grupo ligado ao governo francês (antigos dirigentes do Ministério das Finanças, CEOs de grandes empresas, oligarcas, magnatas da mídia e da indústria do entretenimento). O mesmo vale para a cloroquina, que o governo fez todo o possível para manter inacessível à população.

Eles não facilitaram a vida do Professor Raoult – que recebeu ameaças de morte e intimidação por parte de “jornalistas”.

E eles não protegeram os estoques vitais. Ainda no governo de Hollande, ocorreu o esgotamento proposital do estoque de máscaras – que antes existiam em grandes quantidades em todos os hospitais. Para não falar que a eliminação de leitos e recursos hospitalares foi acelerada no governo Sarkozy.

Isso bate com relatos angustiados de cidadãos franceses sobre enfermeiras terem que usar sacos de lixo devido à falta de equipamento médico correto.

Ao mesmo tempo, em um outro desdobramento estarrecedor, o estado francês se recusa a requisitar hospitais e clínicas privadas – que estão praticamente vazios neste estágio – apesar de o presidente daquela associação, Lamine Garbi, ter  implorado que essa iniciativa pública fosse tomada: “Eu solenemente exijo que sejamos  convocados a ajudar os hospitais públicos. Nossas instalações estão preparadas. A onda que surpreendeu o leste da França tem uma lição a nos ensinar”.

Bugault reconfirmou que a situação da saúde na França é “muito grave e irá piorar ainda mais em razão dessas decisões políticas: a falta de máscaras, a recusa a adotar testes maciços e a permitir o livre acesso à cloroquina – em um contexto de suprema desordem nos hospitais. Essa situação será de longa duração e a penúria será a norma”.

Professor versus presidente

Em um desdobramento explosivo ocorrido na terça-feira, Raoult disse que já não participa mais do conselho científico de Macron, embora não esteja se afastando de todo. Raoult, mais uma vez, insiste em testes em massa e em larga escala para detectar casos suspeitos e só então isolar e tratar  os pacientes que obtiverem resultado positivo. Em poucas palavras: o modelo sul-coreano.

É exatamente isso que se espera do IHU de Marselha, onde centenas de moradores continuam na fila para os testes. E isso bate com as conclusões de um importante especialista chinês em Covid-19, Zhang Nanshan, que afirma que o tratamento com fosfato de cloroquina teve um “impacto positivo”, e que os pacientes testaram negativo após cerca de quatro dias.

O ponto principal foi ressaltado por Raoult: a cloroquina deve ser usada em circunstâncias muito especiais, em pessoas que tenham sido testadas em estágios muito iniciais, quando a doença ainda não estava muito avançada, e apenas nesses casos.  Isso foi exatamente o que os chineses fizeram, associado ao uso do interferon.

Há anos Raoult vem pedindo uma revisão drástica dos modelos econômicos de saúde, para que os tratamentos, as curas e as terapias criadas principalmente no século XX sejam declaradas patrimônio a serviço de toda a humanidade. “Não é isso que acontece”, diz ele, “porque abandonamos medicamentos que não são lucrativos, mesmo quando são eficazes. É por isso que praticamente nenhum antibiótico é fabricado no Ocidente. “

Na terça-feira, o Ministério da Saúde francês proibiu oficialmente a utilização do tratamento com base na cloroquina recomendado por Raoult.  Na verdade, o tratamento só é permitido para pacientes terminais de Covid-19, sem qualquer outra possibilidade de cura. Essa decisão só faz expor  o governo Macron a novas acusações, no mínimo de ineficiência – somada à falta de máscaras, testes, rastreamento de contatos e ventiladores.

Na quarta-feira, comentando sobre as novas diretrizes do governo,  Raoult disse: “Quando o dano pulmonar é muito grave, e os pacientes chegam para reanimação, eles praticamente não abrigam mais o vírus em seus corpos. É tarde demais para tratá-los com cloroquina. Esses  – os casos muito graves – serão os únicos a serem tratados com cloroquina nos termos das novas diretrizes de Veran (o novo ministro da saúde da França)? Se assim for, acrescentou ele com ironia, “eles então poderão afirmar com convicção científica que a cloroquina não funciona”.

Raoult não estava acessível para comentar sobre os artigos da mídia ocidental que citavam resultados de testes chineses que sugerem que ele talvez esteja enganado quanto à eficácia da cloroquina no tratamento de casos leves de Covid-19.

Membros de sua equipe citaram seus comentários no boletim do IHU, no qual Raoult afirma que é “insultuoso” perguntar se podemos confiar nos chineses quanto ao uso da cloroquina. “Se esta fosse uma doença americana, e o Presidente dos Estados Unidos dissesse que ‘Temos que tratar os pacientes com isso’, ninguém discutiria”.

Na China, acrescenta ele, houve “elementos suficientes para permitir que o governo chinês e os especialistas chineses que conhecem o coronavírus adotassem a posição oficial de que ‘temos que tratar com cloroquina’. Entre o momento em que obtivemos os primeiros resultados e sua publicação em um periódico internacional reconhecido, não há alternativa verossímil para as pessoas que mais conhecem o assunto em todo o mundo. Elas tomaram essas medidas em prol da saúde pública”.

O ponto crucial: Raoult diz que, caso contraísse o coronavírus, ele tomaria cloroquina. Como Raoult é tido por seus pares como o maior especialista de todo o mundo em doenças contagiosas, muito acima do Dr. Anthony Fauci, dos Estados Unidos, eu diria que os novos relatos representam os interesses da Grande Farma.

Raoult vem sendo impiedosamente massacrado e demonizado pela mídia empresarial francesa, controlada por uns poucos oligarcas estreitamente ligados ao macronismo. Não foi por acaso que essa demonização atingiu o nível dos gilets jaunes (coletes amarelos), muito especialmente em razão do popularíssimo hashtag #IlsSavaient (“eles sabiam”), no qual os coletes amarelos afirmam que as elites francesas “administraram” a crise do Covid-19, protegendo a si próprias e deixando a população indefesa contra o vírus.

Isso bate também com a controvertida análise do brilhante filósofo Giorgio Agamben, em uma coluna publicada há um mês, na qual ele já dizia que Covid-19 mostra claramente que o  estado de exceção  – semelhante ao estado de emergência, mas com diferenças que os filósofos veem como importantes – tornou-se plenamente normalizado no Ocidente.

Agamben falava não como médico ou virólogo, mas como um mestre pensador que segue os passos de Foucault, Walter Benjamin e Hannah Arendt. Observando que um estado latente de medo se metastizou em um estado de pânico coletivo, para o qual o Covid-19 “mais uma vez oferece o pretexto ideal”, ele descreveu a forma pela qual, “em um círculo vicioso perverso, a limitação da liberdade imposta pelos governos é aceita em nome de um desejo de segurança que foi induzido por esses mesmos governos que agora intervêm para satisfazê-lo”.

Não houve estado de pânico coletivo na Coreia do Sul, em Cingapura, em Taiwan nem no Vietnã – para mencionar quatro exemplos asiáticos externos à China. Uma obstinada combinação de testes em massa e rastreamento de contatos foi empregada com imenso profissionalismo. Funcionou. No caso chinês, com a ajuda da cloroquina. E, em todos os casos asiáticos, sem a sombria motivação de lucros que só beneficia a Grande Farma.

Ainda não surgiu o “revólver fumegante”, a prova conclusiva de que o sistema Macron não apenas é incompetente para lidar com o Covid-19, mas também de que eles veem postergando o processo para que a Grande Farma tenha tempo para, o quanto antes, produzir uma vacina milagrosa. Mas o procedimento de desestimular a cloroquina foi mais que explicado acima – em paralelo com a demonização de Raoult.

FONTE:

https://www.brasil247.com/blog/por-que-a-franca-esta-escondendo-uma-cura-barata-e-testada-para-o-virus