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Presidente do Google no Brasil diz o óbvio sobre Musk e STF, mas soa cínico diante das decisões da ‘big tech’

Presidente do Google no Brasil subiu ao palco do Web Summit Rio, criticou Elon Musk e defendeu a necessidade de empresas seguirem a lei e combaterem desinformação, mas recentes decisões do Google dão indicativos opostos às falas do executivo.

“Todas as empresas têm responsabilidades por tratar da questão da desinformação” afirmou Fábio Coelho, presidente do Google no Brasil, em sua entrevista no palco principal do Web Summit na quarta-feira, 17, acrescentando que “as ordens da Suprema Corte estão aí para serem cumpridas”.

O executivo disse ainda que o cidadão também tem papel no combate à desinformação. “Não deveríamos repassar informações falsas ou estimular esse tipo de produção de conteúdo, isso não ajuda o processo democrático. Deixar as pessoas terem sua opinião é importante, mas tem coisas que são fake news e que tem que ser removidas da internet”.O discurso de Coelho é coerente.

Afinal, ninguém imagina a liderança de uma grande empresa defendendo o descumprimento da lei ou o ataque à democracia por meio da fomentação de fake news. Porém, um olhar mais atento à maneira que o Google vem se comportando mostra que entre discurso e prática pode haver uma enorme distância.

Na semana passada, por exemplo, o Google anunciou que deixará de exibir links de notícias nas buscas para moradores da Califórnia. A medida é uma resposta ao projeto de lei de Preservação ao Jornalismo na Califórnia (CJPA, na sigla em inglês), que prevê remuneração aos veículos jornalísticos por parte das empresas de tecnologia. Segundo o Google, a medida por enquanto é um teste, mas poderá valer para todos os californianos caso a lei seja aprovada e ele seja obrigado a pagar pelos links de notícias que exibe.

Na Austrália e Canadá a estratégia foi semelhante. Após esses países aprovarem leis que exigem a remuneração por links e conteúdos extraídos pelo Google de veículos de notícias, a gigante de buscas escondeu os links de notícias para pressionar os veículos e os políticos.

Para os veículos de notícias, não aparecer no Google é devastador. A esmagadora maioria dos visitantes chega às páginas das publicações por meio do mecanismos de busca do Google, que controla mais de 90% do mercado de buscas no mundo. No Brasil, dados da SimilarWeb apontam que o Google domina 96,3% do mercado de buscas.

Quando as pessoas querem visitar um site, usualmente digitam o nome do veículo na barra de buscas do Google ou de seu navegador, e não digitam completamente o endereço. O Chrome, também do Google, controla 66% do mercado de navegadores. E o Google também é dono do Android e mecanismo oficial de buscas da Apple.

Fica evidente que existe uma longa distância entre o que Coelho afirma e como o Google atua. O executivo disse no palco que “todas as empresas têm responsabilidades por tratar da questão da desinformação”. Mas o Google, maior e mais determinante player neste jogo, parece fugir de suas responsabilidades.

Diversos estudos apontam que o acesso a notícias de veículos com credibilidade é fundamental no combate à desinformação. Mas se o Google “esconde” as notícias e priva os veículos da remuneração determinada por lei, é justo dizer que o cidadão também é responsável pelo combate à desinformação, como diz Coelho?

Na Austrália e Canadá, meses após a aprovação das leis e muitas ameaças dos dois lados, o Google fechou acordos. No Canadá o Google pagará cerca de R$ 400 milhões (US$ 76 milhões) por ano para os veículos de notícias. Na Austrália, o valor gira em torno de R$ 732 milhões (US$ 140 milhões).

A Meta, dona do Instagram e Facebook, retirou os links de notícias de suas plataformas no Canadá. “Ao contrário dos mecanismos de pesquisa, não extraímos proativamente notícias da internet para colocá-las nos feeds de nossos usuários, e há muito tempo deixamos claro que a única maneira de cumprir razoavelmente a Lei de Notícias Online é encerrar a disponibilidade de notícias para pessoas no Canadá ”, afirmou a empresa por meio de comunicado. Na Austrália a Meta fechou acordo.

Ou seja, o Google e as “big techs” parecem ser a favor das leis e regulação, mas desde que não precisem ajudar a pagar a conta e os termos sejam a favor delas. Quando Coelho se diz favorável à regulação da IA, como o fez no palco, também fica a dúvida se ele é favorável à regulação ou apenas favorável a uma regulação que o Google veja como positiva para seus negócios.

Crítica de Coelho a Musk surpreende

O PL 2630, conhecido como lei das “fake news”, aprovado em junho de 2020 no Senado e parado na Câmara em Brasília, é didático sobre a atuação das “big techs” como Google e Meta e a política brasileira.

Coelho criticou Musk durante sua entrevista ao ser questionado sobre o confronto do X com o STF, mas é notório que para barrar o PL2630 o Google, a exemplo de Musk, se tornou um grande aliado de primeira hora da extrema direita.

Em 2023, uma reportagem do “Estadão” revelou, por exemplo, que o Google foi um dos líderes de uma ofensiva para barrar a aprovação do PL 2630, que além de regular a atuação das redes sociais, também definia a remuneração por conteúdo jornalístico.“Ao longo de 14 dias, as empresas e outras “big techs” atuaram fortemente para deputados se posicionarem contra a proposta, com ameaças de retirar conteúdo das redes sociais e disseminação de uma campanha de ataques às contas deles na internet. Um monitoramento do ‘Estadão’ revelou que a pressão das empresas fez com que pelo menos 33 deputados mudassem de posicionamento entre a aprovação do requerimento de urgência, dia 19 de abril, e a retirada de pauta, em 2 de maio. Um site, hospedado nos Estados Unidos, foi aberto para mostrar o voto de cada um. Os internautas foram instigados a mandar mensagens para aqueles que se diziam a favor ou ainda não tinham se colocado claramente contra”, revelava a reportagem.

Marcelo Oliveira Lacerda, diretor de Relações Governamentais e Políticas Públicas do Google, em depoimento à Polícia Federal, que investigava a atuação da empresa, admitiu que o Google gastou R$ 2 milhões na campanha contra o projeto.

Durante encontros com integrantes da direita e da bancada evangélica no Congresso, lobistas do Google e outras “big techs” ameaçaram apagar conteúdo de parlamentares se o PL fosse aprovado.

Nas entrelinhas, a mensagem era de que a moderação de conteúdo seria particularmente ruim para a extrema direita e boa parte dos parlamentares evangélicos, que usam as redes como uma de suas principais plataformas de comunicação, e também de monetização, já que faturam com vídeos e posts. O resultado foi uma correria de deputados mudando votos e a bancada evangélica publicando posts sobre risco de censura de versículos da Bíblia.

No Brasil, editores de veículos de notícia têm reclamado da queda de tráfego vindo do Google e Meta desde o início das discussões em torno do PL 2.630. Na avaliação de muitos editores, Google e Meta adotam política de terra arrasada na internet para pressionar os veículos em futuras negociações caso a lei passe.

Musk, de um modo ou outro, ao menos age às claras e não esconde do público seu ódio pelas empresas de jornalismo (que o criticam) e seu lobby.

Já o Google posa de bom moço, mas atua nos bastidores impondo sua vontade gastando milhões.

Coelho e o Google conhecem na prática as consequências de descumprir ordens judiciais. Em 2012, o presidente do Google foi preso pela Polícia Federal após a empresa negar o cumprimento de decisões judiciais que determinam a retirada de vídeos do YouTube que acusavam Alcides Bernal (PP), um dos candidatos a prefeito de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, de ser suspeito de praticar crimes. Hoje, dificilmente Coelho seria preso.

Na última década, o Google passou a investir milhões em lobby e tem uma das maiores e mais caras equipes de lobistas no Brasil e no mundo. A participação de Coelho no Web Summit é importante. Mesmo com o clima festivo do evento, o fato de haver uma jornalista no palco (Angélica Mari, da revista “Forbes”) fazendo as perguntas é um lembrete da importância do jornalismo ao fazer perguntas desconfortáveis. No dia anterior, Coelho havia se apresentado em um evento do Google para o mercado. Nenhum tema sensível foi abordado e Coelho e demais membros da empresa se limitaram a falar sobre as maravilhas da IA e do Google. (O colunista viajou ao Web Summit a convite da organização do evento)

FONTE:

https://valor.globo.com/opiniao/guilherme-ravache/coluna/presidente-do-google-no-brasil-diz-o-obvio-sobre-musk-e-stf-mas-soa-cinico-diante-das-decisoes-da-big-tech.ghtml