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Putin discute o problema da intervenção imperialista no mundo

O presidente russo denunciou que os bancos controlam a imprensa mundial, que o imperialismo quer desmembrar a Rússia e que a guerra na Ucrânia começou em 2014.

No dia 8 de fevereiro, o jornalista norte-americano Tucker Carlson publicou em seu canal do YouTube (e demais redes sociais) entrevista que fez com o presidente da Federação Russa, Vladimir Putin.

Foi a primeira entrevista concedida pelo mandatário a um jornalista da imprensa burguesa imperialista desde o início da Guerra da Ucrânia (uma guerra de agressão dos EUA contra a Rússia).

Ao fechamento desta edição, segundo informações da agência russa de notícias Tass, a entrevista já havia alcançado 102 milhões de visualizações o X (antigo Twitter). Já no canal do YouTube de Carlson, já está próximo da marca de 7,5 milhões. Uma demonstração de que apesar de toda a tentativa de censura contra a Rússia, a população norte-americana e mundial quer saber a posição de Putin sobre a guerra na Ucrânia, e as razões para a operação militar especial.

Ressalta-se ainda que Tucker Carlson foi alvo de censura na Fox News, sendo demitido da emissora em abril de 2023.

Então, a entrevista com o mandatário russo, e o fato de ela ter “viralizado”, é, por si só, uma manifestação contra a censura imperialista.

A respeito da entrevista em si, grande parte dela consiste em Putin traçando um panorama histórico da Rússia e da Ucrânia, com a finalidade de expor que não existe uma etnia ucraniana, que todos são um mesmo povo, e que, nos tempos modernos (especialmente na Segunda Guerra Mundial e após a queda da União Soviética), o imperialismo fomentou um nacionalismo ucraniano para atacar a Rússia, sendo que esse nacionalismo acabou se configurando uma expressão do nazismo. Putin, então, explica que a desnazificação da Ucrânia seria justamente o combate a esse nacionalismo ucraniano, que se manifesta como nazismo:

“Quando a Segunda Guerra Mundial começou, parte dessa elite extremamente nacionalista começou a cooperar com Hitler, acreditando que Hitler lhes traria liberdade. As tropas alemãs, até mesmo as tropas da [Waffen-]SS, entregaram o trabalho mais sujo de extermínio da população polonesa, a população judaica, aos colaboradores que cooperaram com Hitler. Daí esse massacre brutal da população polonesa e judaica, e da população russa. À frente estavam pessoas bem conhecidas: [Stepan] Bandera, [Roman] Shukhevich. Foram essas pessoas que se tornaram heróis nacionais, esse é o problema.

[…] na Ucrânia eles se tornaram heróis nacionais, monumentos são erguidos para eles, eles estão nas bandeiras, seus nomes são gritados por multidões que andam com tochas, como na Alemanha nazista. Essas são as pessoas que destruíram poloneses, judeus e russos. Precisamos acabar com essa prática e teoria.”

Durante a entrevista, muito é explicado a respeito da guerra. Por exemplo, Putin esclarece que ela não começou em 2022, muito menos por iniciativa da Rússia. Denuncia que começou em 2014, com o Euromaidan, golpe perpetrado pelo imperialismo norte-americano que instituiu um regime ditatorial que tem como base as milícias nazistas:

“Então, em 2008, eles abriram a porta para a Ucrânia na OTAN. Em 2014, deram um golpe de Estado, e aqueles que não reconheceram o golpe de Estado, que foi um golpe de Estado, começaram a ser perseguidos, criando uma ameaça à Crimeia, que fomos obrigados a tomar sob nossa proteção. Iniciaram uma guerra em Donbass em 2014, usando aviões e artilharia contra civis. No final das contas, foi lá que tudo começou.”

Ao ser questionado por Tucker “por que você não liga para Biden e diz: vamos resolver essa questão de alguma forma?”, Putin esclarece que a questão é simples: para se acabar com a guerra, basta que o imperialismo pare de fomentá-la, através do envio de armas à Ucrânia:

“Oque há para resolver? É tudo muito simples. Repito, temos contatos por meio de várias agências. Vou lhe dizer o que dizemos sobre esse assunto e o que transmitimos à liderança dos EUA: se vocês realmente querem acabar com as hostilidades, precisam parar de fornecer armas, e tudo estará resolvido dentro de algumas semanas, só isso. Aí vocês podem negociar algumas condições antes de fazê-lo – parem. O que é mais fácil do que isso? Por que eu deveria ligar para ele? O que eu tenho para falar ou implorar?”

É uma clara denúncia da atividade belicosa do imperialismo, que sempre promove guerras, sacrificando a população dos países oprimidos em prol de seus interesses políticos e econômicos.

Em outro momento, Putin questiona a razão de os EUA impulsionarem a guerra, chamando atenção para os problemas internos do país, e as aflições por que passam o povo norte-americano, mostrando a habilidade política do mandatário Russo ao utilizar-se da entrevista para fazer a população dos Estados Unidos questionar o governo sobre essas questões:

“Os Estados Unidos precisam disso? Por quê? A milhares de quilômetros de distância do território nacional! Vocês não têm nada melhor para fazer? Vocês têm problemas na fronteira, problemas com a migração, problemas com a dívida nacional, mais de 33 trilhões de dólares. Se vocês não têm nada para fazer, precisam entrar em guerra na Ucrânia?”

O presidente russo deixa claro, então, que o melhor seria chegar ao entendimento, pois a Rússia irá lutar até o fim pelos seus interesses:

“Não seria melhor chegar a um entendimento com a Rússia? Chegar a um acordo, já entendendo a situação atual, entendendo que a Rússia lutará por seus interesses até o fim e, entendendo isso, voltar ao bom senso, começar a tratar nosso país e seus interesses com respeito e buscar algumas soluções? Parece-me que isso é muito mais inteligente e racional.”

Outro ponto interessante desta entrevista é quando Tucker Carlson pergunta ao chefe de Estado russo “quem explodiu o Nord Stream?”.

Putin então responde: “vocês, é claro”, explicando que estava se referindo à CIA.

Ao ser perguntado se tinha provas disso, Putin disse que não entraria em detalhes, apenas mencionou que, nesse tipo de situação, deve-se prestar atenção em quem possui o interesse e os meios para realizar a operação (no caso, referindo-se aos EUA).

Carlson então pergunta “já que vocês têm provas em suas agências de inteligência, por que não apresentam essas provas e vencem essa guerra de propaganda?”.

E a resposta de Putin é ainda mais esclarecedora, pois serve para expor ao público como funcionam os monopólios imperialistas e seus Estados, especialmente os Estados Unidos, o principal país imperialista do mundo:

“Na guerra da propaganda é muito difícil derrotar os Estados Unidos, porque os Estados Unidos controlam toda a mídia mundial e muita mídia europeia. Os beneficiários finais dos maiores veículos de imprensa europeus são fundos americanos. Você não sabe disso? Então é possível se envolver nesse trabalho, mas é, como dizem, caro demais. Podemos simplesmente expor nossas fontes de informação e não obteremos resultados. Está claro para o mundo todo o que aconteceu, e até mesmo os analistas americanos estão falando diretamente sobre isso. É verdade.”

Ou seja, Putin basicamente denuncia a ditadura dos monopólios financeiros do imperialismo (isto é, os bancos), sobre a circulação de toda a informação mundial (sobre a imprensa). O que serve para mostrar que, apesar de ser um político de direita, os ataques que o imperialismo vem realizando contra a Rússia ao longo dos anos (guerras na Chechênia, no Daguestão, golpes de Estado e guerra na Ucrânia) vem servindo para empurrar Putin à esquerda, fazendo-o adotar uma política cada vez mais anti-imperialista.

Mostrando que, quando iniciou seu primeiro mandato, ainda tinha uma política bastante direitista em relação ao imperialismo, Putin chega a mencionar que tentou com que a Rússia entrasse na OTAN:

“Muito bem. Tornei-me presidente em 2000. Pensei: muito bem, a questão da Iugoslávia acabou, devemos tentar restaurar as relações, abrir essa porta que a Rússia estava tentando passar. E mais, eu disse isso publicamente, posso repetir, em uma reunião aqui no Kremlin com o Bill Clinton, que estava deixando o poder, bem aqui na sala ao lado.

Eu disse a ele, fiz uma pergunta: escute, Bill, o que você acha, se a Rússia levantasse a questão de entrar para a OTAN, você acha que isso seria possível? De repente, ele disse:

‘Sabe, isso é interessante, acho que sim’.”

Especificamente sobre os acontecimentos que provocaram essa guinada à esquerda, que ocorreu progressivamente ao longo dos anos, Putin denuncia a atividade expansionista do imperialismo através da OTAN, com o fim da União Soviética.

“[…] após o colapso da União Soviética, foi adotada uma política de pressão tão errada, grosseira e completamente injustificada contra a Rússia. Afinal de contas, essa é uma política de pressão. A expansão da OTAN, o apoio aos separatistas no Cáucaso, a criação de um sistema de defesa antimísseis – todos esses são elementos de pressão. Pressão, pressão, pressão… Depois, a Ucrânia foi arrastada para a OTAN. Tudo isso é pressão, pressão, pressão. Por quê?”

Denunciando o imperialismo, o presidente Russo ainda expõe a intenção dos EUA em desmembrar a Rússia em vários países, com a finalidade de atacar a China:

“Acho que, entre outras coisas, foi também porque, falando condicionalmente, tinha sido criada uma ‘excessiva capacidade produtiva’. Durante a luta contra a União Soviética, havia muitos centros e especialistas em assuntos da União Soviética que, após o fim da URSS, não sabiam fazer outra coisa. Parecia-lhes, eles persuadiram a liderança política: era necessário continuar atacando a Rússia, tentar desmembrá-la, criar nesse território várias formações quase estatais e dominá-las separadamente, para usar seu potencial agregado na futura luta com a China.”

Voltando à questão da guerra da Ucrânia, em determinado momento da entrevista, Putin, demonstrando que se chegou a um ponto em que a Rússia está no controle da situação e o imperialismo não sabe mais como proceder em relação à guerra, disse que “esta mobilização sem fim na Ucrânia, a histeria, os problemas internos, mais cedo ou mais tarde resultarão em um acordo”.

O mandatário russo também apontou o uso do dólar como instrumento de chantagem política e subjugação dos países oprimidos como um dos “erros estratégicos mais graves” do imperialismo norte-americano:

“Esse é um dos erros estratégicos mais graves da liderança política dos Estados Unidos – usar o dólar como instrumento de luta na política externa. O dólar é a principal base do poder dos EUA. Acho que todos entendem isso muito bem: não importa quantos dólares você emite, eles circulam por todo o mundo. A inflação nos EUA é mínima: acho que é de 3%, cerca de 3,4%, o que é absolutamente aceitável para os EUA. E eles emitem dólares sem parar, é claro. O que significa a dívida de 33 trilhões? Significa a emissão.

No entanto, essa é a principal forma de manter o domínio dos EUA no mundo. Assim que a liderança política decidiu usar o dólar como um instrumento de luta política, eles deram um golpe nesse poder americano. Não quero usar expressões incorretas, mas isso é uma estupidez e um grande erro.”

A respeito disto, chama a atenção para o movimento em direção à desdolarização, que está sendo feito por vários países, inclusive aliados dos EUA:

“Confira o que está acontecendo no mundo. Mesmo os aliados dos EUA estão cortando as reservas em dólares neste momento. Todos estão observando o que está acontecendo e procurando maneiras de se proteger.”

E, citando o caso concreto, mostra como a política de sanções que o imperialismo aplicou contra a Rússia deu errado, pois só fez aumentar o comércio entre o gigante do leste e a China, com o uso das moedas locais:

“Os EUA decidiram limitar nossos pagamentos em dólares. Acho que é uma estupidez total, sabe, do ponto de vista dos próprios Estados Unidos, dos contribuintes norte-americanos. Porque é um golpe na economia dos EUA e enfraquece o papel dos Estados Unidos no mundo.

A propósito, as transações em yuan eram de cerca de 3%. Agora, liquidamos 34% em rublos e aproximadamente a mesma quantia, um pouco mais de 34%, em yuans.

Por que os Estados Unidos fizeram isso? Só posso explicar isso pela arrogância. Eles provavelmente pensaram que tudo entraria em colapso, mas nada disso aconteceu.”

Em certo momento da entrevista, Tucker Carlson pergunta se China poderia ser uma potência colonial. Ao que Putin responde que isto nada mais é que “uma história assustadora”, desmascarando a farsa de partidos e grupos da esquerda pequeno-burguesa de que o país asiático seria imperialista:

“[…] a filosofia da política externa da China não é agressiva, o conceito de política externa chinesa está sempre em busca de compromisso, e vemos isso. O outro ponto é o seguinte. Sempre nos dizem, e agora o senhor tentou colocar essa história assustadora de uma forma mais branda, mas ainda assim é o mesmo: o volume de cooperação com a China está aumentando […] E uma coisa muito importante: temos um comércio equilibrado, que se complementa na esfera da alta tecnologia, no setor de energia e na pesquisa científica. É muito equilibrado.”

E então fala a respeito do BRICS, aproveitando para destacar a decadência dos países imperialistas ao comparar a cota-parte dos países do G7 com as do bloco dos países oprimidos:

“Equanto ao BRICS como um todo – a Rússia é a presidente do BRICS desde este ano, os países do BRICS estão se desenvolvendo muito rapidamente. Veja, se não me engano, mas em 1992, acho que a cota-parte dos países do G7 na economia mundial era de 47%, mas em 2022 ela caiu para cerca de 30%, eu acho. A cota-parte dos países do BRICS em 1992 era de apenas 16%, e agora está acima do nível do G7.”

Nisto, vem um dos pontos mais interessantes da entrevista: Putin se mostra como um materialista. Isto é, reconhece que o desenvolvimento da realidade, em especial da realidade social, é regido por leis. De forma que os acontecimentos são inevitáveis:

“[…] e agora está acima do nível do G7. E isso não está relacionado a nenhum acontecimento na Ucrânia. As tendências de desenvolvimento mundial e da economia mundial são como acabei de dizer, e isso é inevitável. Isso continuará a ocorrer: assim como o Sol nasce, não é possível evitá-lo, é preciso se adaptar a isso […] A elite política dos Estados Unidos não entende que o mundo está mudando de acordo com circunstâncias objetivas e que é necessário tomar as decisões certas na hora certa […].”

Mais à frente na entrevista, Carlson retoma o assunto e pergunta a Putin se ele acha que “há algo sobrenatural funcionando aqui? Quando você olha para o que está acontecendo no mundo, você vê as obras de Deus? Você diz para si mesmo que vejo algumas forças sobre-humanas agindo aqui?”.

Putin então responde:

“Não, sinceramente, não acho que seja assim. Acho que a comunidade mundial se desenvolve de acordo com suas próprias leis internas, e elas são o que são. Não há como escapar disso, sempre foi assim na história da humanidade.”

Isto é o determinismo materialista. Novamente uma demonstração de que o enfrentamento de Putin com o imperialismo o levou a posições mais à esquerda.

Em outra exposição sobre o funcionamento do imperialismo e dos monopólios financeiros, Putin disse expressamente que os presidentes dos EUA não tomam as decisões finais sobre a política imperialista.

Nesse sentido, diz que não adianta a mudança dos presidentes norte-americanos, pois na medida em que o imperialismo permaneça intacto, a política imperialista continuará a ser exercida pelos Estados Unidos:

“[…] O senhor me perguntou: será que outro líder virá e mudará alguma coisa? Não se trata do líder, não se trata da personalidade de uma pessoa específica […] Não tem a ver com a personalidade do líder, mas sim do estado de disposição das elites. Se a sociedade americana for dominada pela ideia de dominação a qualquer custo e pela força, nada mudará – só piorará. Mas se, no final das contas, perceberem que o mundo está mudando devido a circunstâncias objetivas e que precisamos nos adaptar a elas a tempo, usando as vantagens que os EUA ainda têm hoje, então talvez algo possa mudar.”

Vale ressaltar que este é exatamente o funcionamento do imperialismo, conforme teorizado e exposto pelo revolucionário bolchevique Vladimir Lênin, em sua obra Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo, e ensinado pelo presidente do Partido da Causa Operária (PCO) recentemente no curso ministrado no 50º Acampamento de Férias da Aliança da Juventude Revolucionária (AJR), curso no qual foi explicado que a época do imperialismo é a do capitalismo em sua fase de decadência, putrefato, em que predomina a ditadura dos monopólios financeiros, ditadura esta que controla os políticos dos Estados imperialistas como se fosse marionetes, conforme denunciou Putin.

Estas e várias outras questões foram expostas pelo presidente russo na entrevista com o jornalista norte-americano, questões que serviram para esclarecer a realidade sobre a guerra na Ucrânia e sobre parte do funcionamento do imperialismo, especialmente dos Estados Unidos.

FONTE

Putin discute o problema da intervenção imperialista no mundo