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Rede de Jornalismo Humano: você já ouviu falar dela?

Todos os dias há alguém fazendo jornalismo de valor no mundo todo. Muitas vezes, porém, esse trabalho passa despercebido – principalmente reportagens produzidas em comunidades menores.

Rede de Jornalismo Humano (HJN na sigla em inglês) foi lançada em 2023 para atender as necessidades desse público, e ao mesmo tempo fomentar o trabalho de redações no mundo todo. Criada por Chani Guyot, experiente jornalista, editor e inovador de mídia argentino, a iniciativa de jornalismo bilíngue traduz e compartilha matérias entre veículos do mundo todo. Atualmente, o projeto é uma ponte essencial entre 14 deles.

A HJN faz curadoria de narrativas de “jornalismo humano” que destacam desafios globais críticos e amplificam pautas com pouco espaço na mídia, enfatizando sua importância na promoção de mudanças positivas e estimulando um entendimento mais profundo de uma gama ampla de questões globais.

“Atualmente, os leitores são muitas vezes expostos a notícias internacionais com uma abordagem rápida e superficial. Nós estamos facilitando uma rede que fornece aos veículos jornalismo local, aprofundado e de qualidade que mostra histórias humanas construtivas por trás dessas manchetes muitas vezes desanimadoras”, diz Guyot.

Inicialmente, a rede convidou veículos em inglês e espanhol para se tornarem parceiros. Os membros da rede podem acessar semanalmente uma matéria escrita por outro veículo parceiro e editada e traduzida pela equipe da HJN.

É tudo um grande “experimento colaborativo extremo”, diz  Guyot. “Basicamente, são veículos que não sabiam da existência um do outro, republicando mutuamente seus trabalhos, confiando no projeto e na nossa gestão.”

Guyot e a equipe da HJN selecionam, editam e traduzem um artigo por semana, fornecendo aos 14 veículos participantes uma matéria bem produzida a partir de uma perspectiva humanizada. Os assuntos abordados em 2023 incluíram migração, mudança climática, saúde, direitos humanos, violência de gênero, falta de moradia, questões urbanas, dentre outros.

As redações participantes em 2023 foram Convoca (Peru), Daily Maverick (África do Sul), elDiario.es (Espanha), El Toque (Cuba) GK (Equador), The Globe and Mail (Canadá), Rappler (Filipinas), RED/ACCIÓN e Río Negro (Argentina), San Francisco Chronicle (EUA), The Irish News (Irlanda), The Quint (Índia), Mi Voz (Chile) e Reasons to be Cheerful (Reino Unido).

Matérias do tipo “Como uma fazenda na Irlanda do Norte prova o poder de cura da natureza“, do The Irish News, e “Pescadores ilegais de Masbate se transformam em guardiões do mar“, do Rappler, apresentaram insights sobre resiliência ambiental e esforços de preservação liderados por comunidades. Os textos reforçaram a urgência de lidar com os desafios ambientais ao mesmo tempo em que destacaram iniciativas locais que estão propondo soluções sustentáveis.

Matérias como “Programa de mentoria fomenta a participação de mulheres cubanas na indústria criativa“, publicada pelo El Toque, e “#MeToo Cuba: criando uma comunidade segura para sobreviventes“, do Rappler, lançaram luz sobre iniciativas empoderadoras voltadas para igualdade de gênero e a importância de espaços seguros para fomentar a igualdade e a recuperação de sobreviventes de violência sexual.

Por sua vez, matérias como “Mulheres líderes comunitárias: agentes-chave para a promoção de direitos entre os grupos étnicos mais perseguidos“, do RED/ACCIÓN, e “Projeto 111 árvores por filha muda o futuro de cidade“, do Reasons to be Cheerful, refletiram sobre o papel vital desempenhado por líderes comunitários e programas inovadores que defendem direitos e estimulam a mudança sustentável. Essas narrativas destacaram a resiliência e as contribuições de impacto de grupos marginalizados, clamando por um reconhecimento mais amplo de seu poder de ação.

Até o momento, o projeto permitiu que 25 matérias fossem republicadas mais de 200 vezes pelos veículos da rede, alcançando uma audiência total de 500.000 visualizações de páginas. O esforço é uma prova do espírito colaborativo do projeto: da seleção das matérias em cada redação, passando pela edição, tradução e distribuição de cada texto, a rede tem funcionado como um coletivo transfronteiriço. Sua capacidade de mostrar a diversidade de vozes e fontes se destaca como um traço definidor, com os participantes valorizando a qualidade do conteúdo e a interface amigável da plataforma criada para a republicação das matérias.

Guyot montou uma equipe de editores e tradutores que discute semanalmente as necessidades de tradução e como cada matéria pode ficar compreensível para audiências globais. Eles criaram um fluxo que permite que todas as redações participantes acessem os artigos selecionados em tempo hábil. No ano que vem, de acordo com Guyot, serão implementados aperfeiçoamentos na tradução e ajustes no agendamento para melhorar a eficiência da rede.

“Planejamos enfatizar mais a ‘edição global’, o que significa que vamos adaptar os artigos originais para uma audiência internacional”, diz. A equipe de tradutores e editores vai trabalhar para garantir que todos os jargões e detalhes sejam claros para qualquer leitor — principalmente aqueles detalhes locais que podem dificultar o entendimento de uma matéria para leitores de fora de uma determinada região.

Identificar e avaliar modelos de negócio sustentáveis também foi um desafio em 2023. A HJN fez testes com patrocínios de marca, contribuições de parceiros, apoio institucional e serviços auxiliares como possíveis fontes de receita, destacando o equilíbrio complexo necessário para a sustentabilidade sem comprometer a essência da rede.

Em 2024, Guyot planeja expandir a HJN para 24 veículos, um passo importante na direção da amplificação de seu impacto. O projeto também planeja saltar de 25 para 48 matérias publicadas.

A HJN continua sendo pioneira na reportagem colaborativa, amplificando matérias que transcendem fronteiras e aumentam a diversidade de vozes, com um olhar voltado para a redefinição da paisagem global do jornalismo. À medida em que avança para o seu próximo capítulo – uma edição mais ampla e multilíngue em 2024 –, o projeto convida a mídia do mundo todo a fazer parte dessa expedição colaborativa, em que reinam a diversidade, narrativa de qualidade e construção de comunidade.

Não é só sobre compartilhar histórias; é sobre amplificar vozes, criar pontes entre culturas e ampliar as fronteiras do jornalismo em um mundo faminto por narrativas autênticas.

FONTE:

https://ijnet.org/pt-br/story/rede-de-jornalismo-humano-voc%C3%AA-j%C3%A1-ouviu-falar-dela