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Rússia e China vetam resolução dos EUA no Conselho de Segurança sobre Gaza

Mais de cinco meses e 31 mil mortos depois, o Conselho de Segurança da ONU volta a fracassar na aprovação de uma resolução que determinaria um cessar-fogo imediato em Gaza. A proposta havia sido costurada pelo governo dos EUA, depois de três vetos contra projetos anteriores.

Desta vez, a rejeição veio da Rússia e China, que acusam os americanos de ter formulado um texto que não garantiria um cessar-fogo.

Já o governo de Joe Biden chamou a atitude de Moscou e de Pequim de “cínica” e uma “recusa em condenar o Hamas”.

Com o veto, o Conselho espera ainda hoje, ou nos próximos dias, colocar em votação um segundo projeto de resolução, com uma linguagem mais dura.

Eis o resultado da votação:

11 apoios: EUA, França, Eslovênia, Coreia do Sul, Equador, Japão, Moçambique, Sierra Leoa, Suíça, Malta e Reino Unido;

3 votos contra: Rússia, China e Argélia;

1 abstenção: Guiana.

Rússia diz que texto daria “sinal verde” para ataques de Israel

Vassili Alexievitch Nebenzia, embaixador da Rússia na ONU, acusou os EUA de hipocrisia e disse que resolução daria “mãos livres” para que Israel ataque Gaza. Segundo ele, o apelo a um cessar-fogo foi “diluído” por citar a palavra “imperativo”.

“Para salvar vidas, isso não é suficiente. A resolução precisa demandar um cessar-fogo”, justiçou. Para ele, o governo americano “deliberadamente engana a comunidade internacional”, com o objetivo de “ficar bem” com seus eleitores.

Na avaliação do governo russo, o texto seria um “sinal verde” para que Israel realizasse uma operação sobre Rafah. “Se aprovado, nada iria prevenir a limpeza brutal de Gaza”, alertou.

A delegação da China chamou o texto americano de “ambíguo” e alertou que um cessar-fogo deve ser “incondicional”. Mais uma vez, era a formulação do apelo americano que foi usado por Pequim como argumento para vetar o texto.

O governo da Argélia, falando em nome dos países árabes, alertou que a proposta “não era uma mensagem de paz” e que “tacitamente daria abertura para novos ataques” por parte de Israel. Para eles, o texto sequer cita a ofensiva de Israel.

EUA diz que Rússia e China não aceitam condenar Hamas

Já a embaixadora dos EUA, Linda Thomas Greenfield, acusou russos e chineses de “cinismo” e “hipocrisia”. “Sabemos que o motivo pelo qual não querem aprovar a resolução é por se recusar a condenar o Hamas”, disse.

Ela insistiu que a resolução era parte de uma estratégia de negociação para conseguir um acordo mais amplo. “Ao aprovar, podemos colocar pressão sobre o Hamas para aceitar o acordo”, disse a embaixadora dos EUA. Em sua visão, o veto foi “um erro histórico”.

Texto alternativo será proposto, mas EUA rejeitam

Com o impasse, uma segunda resolução vai ser submetida ao voto, mas o governo americano já deixou claro que irá vetar. O novo texto, que não tem o patrocínio dos EUA, pede um “cessar-fogo imediato” durante o mês sagrado do Ramadã e diz que isso deveria conduzir a um “cessar-fogo permanente e sustentável”.

A suspensão do conflito não estaria condicionado a nenhum outro ato, ainda que também peça a libertação dos reféns mantidos pelo Hamas.

Se a diferença de linguagem entre as duas resoluções é sutil, o sinal que os documentos mandam são diferentes. O texto americano falava que a suspensão das hostilidades estava condicionada a uma libertação dos reféns israelenses, mantidos pelo Hamas. O texto ainda determinava o fim do financiamento ao grupo palestino, por parte de atores estrangeiros.

Apesar do fracasso, o projeto da Casa Branca foi interpretado na ONU como um primeiro reconhecimento implícito por parte da administração de Joe Biden de que as imagens dos mortos em Gaza e o apoio às ações de Benjamin Netanyahu estavam começando a abalar a credibilidade do presidente, tanto nos EUA como no cenário internacional.

Biden enfrenta eleições e passou a ser acusado por sua própria base de ser cúmplice pelas mortes de palestinos.

Mas a negociação que durou três semanas não foi suficiente e o Conselho de Segurança continua dividido.

O UOL apurou que, em outubro, a diplomacia americana procurou o Itamaraty para alertar que, como presidente temporário do Conselho de Segurança da ONU, o Brasil deveria evitar envolver o organismo na questão de Gaza.

O argumento era de que a diplomacia seria feita nos bastidores, e não em atos públicos. À medida que a guerra se estendia, embaixadores brasileiros e de outras partes do mundo passaram a questionar a efetividade real das negociações conduzidas pelos EUA. Nas últimas semanas, a UE rompeu seu silêncio e também passou a pedir um cessar-fogo em Gaza.

Em declarações para a reportagem do UOL, altos funcionários da ONU viram a decisão com um “gosto amargo” e “grande decepção”. Nas primeiras tentativas de se propor um cessar-fogo, lideradas pelo Brasil em outubro de 2023, a guerra havia feito 3,2 mil mortos. Hoje, são dez vezes mais.

Os dados da entidade também revelam a dimensão da destruição até agora:

57% dos palestinos sem emprego, incluindo na Cisjordânia

35% de todos os prédios de Gaza destruídos ou abalados por bombas

A entidade estima que a fome é “iminente” na região, que viu sua produção agrícola arrasada.

As tratativas na ONU ocorrem no momento em que as negociações de trégua mediadas pelos EUA, Catar e Egito são conduzidas em Doha. Netanyahu enviou o chefe de espionagem de Israel, David Barnea, para o Catar nesta sexta-feira para se reunir com os mediadores.

O Secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, que está em sua sexta viagem à região desde o início do conflito, disse acreditar que poderia haver um acordo entre Israel e o Hamas.

FONTE: https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2024/03/22/conselho-de-seguranca-da-onu-fracassa-em-aprovar-cessar-fogo.htm