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Slow journalism: por uma notícia mais bem explicada

Quando tudo é urgente, nada mais é urgente. O excesso de informações –mesmo confiáveis– causa sobrecarga na audiência e até dificulta a compreensão das notícias. O “slow journalism” (termo em inglês que significa “jornalismo lento”) pode ser uma solução.

Diversas organizações de mídia, no Brasil e no exterior, se dedicaram nos últimos anos a parar, respirar e analisar o contexto das notícias. Publicam menos, mas com mais qualidade. E fazem um jornalismo mais explicado, que ajuda a audiência a entender melhor o que acontece.

Recuperando o hábito de se informar

Uma referência de “slow journalism” é o britânico Tortoise, cujo nome “tartaruga” indica o seu propósito: ir mais devagar e oferecer uma visão analítica dos acontecimentos. No período da pandemia, eles cresceram em audiência, como pode ser comprovado nesta reportagem.

“O problema não são apenas notícias falsas ou notícias inúteis – é apenas que há muitas delas, e muitas delas são iguais. Você pode perseguir as notícias e perseguir as manchetes, mas perder a história”, diz o chefe de Redes Sociais e Relações Públicas Andrew Butler.

No Brasil, o Meio, por exemplo, tem buscado ir na mesma linha mais explicativa. Eles têm uma newsletter enviada de segunda à sexta-feira, de manhã cedo, com informações relevantes mas que podem ser lidas em 8 minutos.

“Nossa visão aqui no Meio é que uma das principais causas do fenômeno de desinformação que estamos vivendo é porque as pessoas perderam o hábito de se informar”, diz o CEO Vitor Conceição. “Trocamos esses hábitos por receber informações na Internet o dia inteiro e em vez de melhor informados, entramos na era da desinformação”, disse Vitor.

Explicação acadêmica

Outra organização de notícias brasileira, a Nexo explica (e aprofunda) assuntos do noticiário geral, muitas vezes mesclando o jornalismo com diferentes campos do conhecimento acadêmico. “A seleção e organização de um conjunto de conteúdos relevantes, que ajudem as pessoas a otimizar o uso desses recursos escassos, é extremamente positiva e desejável”, diz a CEO do Nexo, Renata Rizzi.

“A oferta de conteúdos que oferecem contexto e interpretação de fatos do noticiário, com profundidade, precisão e, na maior parte das vezes, explorando melhor dados e evidências disponíveis, ajuda as pessoas a entenderem e processarem o que verdadeiramente precisam tirar de cada assunto”, complementa Rizzi.

A organização de notícias que criei em 2018, o Correio Sabiá, tem diversos pontos em comum com tudo o que foi relatado aqui.  Além do site de notícias, que passou por reformulação no início de 2024, começamos a investir num canal no YouTube para expor webinários com especialistas e reportagens audiovisuais mais longas, por exemplo.

6 motivos para fazer “slow journalism”:

-Aumentar a compreensão das notícias:

Dê à sua audiência a oportunidade de realmente entender o noticiário. Explique o que está acontecendo e ajude as pessoas a tomar decisões baseadas em dados, fatos e evidências.

-Qualificação do público:

Aprofundar a cobertura do noticiário e esclarecer o que está acontecendo são também algumas maneiras de ter ao seu lado pessoas interessadas e consumidoras de debates de alto nível. Temos visto no mercado de mídia o estímulo a eventos (presenciais e remotos) com participação de especialistas que esclarecem tópicos de interesse de variados públicos.

-Construir comunidades:

O Tortoise promove debates com a sua audiência sobre temas específicos. Realiza workshops, webinários e lightning talks. O público opina sobre a cobertura jornalística. É um exemplo de sucesso nesse nicho de jornalismo.

Há vários benefícios relacionados a essa prática: aprofundamento do conhecimento das duas partes, melhor produção jornalística (focada nas reais necessidades da audiência) e construção de confiança.

-Monetizar com a audiência:

Além disso, sabe-se que uma audiência que é parte do processo de construção jornalística se sente mais representada e, potencialmente, mais estimulada a gerar receita para aquela mesma organização (tornando-se assinante, comprando produtos ou divulgando), como mostrou o Nieman Lab.

-Menos erros e mais confiança:

hard news e a pressão por publicar rápido facilitam erros. Além disso, nos últimos anos, houve apropriação política do termo “fake news”. Sabe-se que erros jornalísticos e fake news (notícias propositalmente falsas, criadas com objetivo único de desinformar) são coisas totalmente diferentes.

No entanto, a apropriação do termo pela política tornou difícil para o público distinguir uma coisa da outra. A obrigação de produzir conteúdo rapidamente (o que pode resultar em mais erros) não ajuda a tirar essa pecha. O Portal Comunique-se já explicava isso desde 2017.

-Nuances e profundidade

Outra razão para adotar esse modelo jornalístico é dar mais profundidade a reportagens e coberturas, como fez Paul Salopek num experimento para cobrir questões relevantes (e complexas) em diferentes áreas do mundo.

Foto: Canva

FONTE:

https://ijnet.org/pt-br/story/slow-journalism-por-uma-not%C3%ADcia-mais-bem-explicada