Associação Brasileira dos Jornalistas

Seja um associado da ABJ. Há 12 anos lutando pelos jornalistas

Tragédia de São Sebastião: cidade do litoral paulista ainda tenta se reconstruir após chuva de 2023

Alguns moradores deixaram suas casas, mas outros se recusaram a sair. Veja como as autoridades lidam com a nova realidade após 64 mortos.

O Litoral Norte de São Paulo viveu uma tragédia semelhante à do Rio Grande do Sul em 2023. As chuvas mataram 65 pessoas e isolaram a região no meio do Carnaval.

Um ano e três meses depois da tragédia, ainda há moradores no alto do morro da Vila Sahy, bairro mais atingido pelas chuvas em São Sebastião. Como é o caso de Elenir Souza, que diz ter noção de que vive em uma área de risco.

“Com certeza. Eu tenho. A gente vive aqui com medo”, relata.

Em fevereiro do ano passado, a chuva intensa que caiu no domingo de Carnaval provocou alagamentos, deslizamentos e interditou trechos das rodovias Rio-Santos, Mogi-Bertioga e Tamoios, deixando turistas e moradores ilhados no Litoral Norte de São Paulo.

Em Ubatuba, uma pedra de duas toneladas deslizou e atingiu um barraco. Uma menina de sete anos morreu. Em São Sebastião, foram 64 mortos, 52 na Vila Sahy.

Da janela de casa, a Carmelita Maria de Jesus ainda vê os estragos provocados pelo temporal.

“A gente já mora aqui há mais de 40 anos e nunca aconteceu nada. Foi a primeira vez”, diz.

Logo depois da tragédia, a Defesa Civil interditou definitivamente todas as casas do alto do morro da Vila, avisando que os moradores deveriam sair pelo risco. Atualmente, praticamente já não se vê mais esses avisos.

No fim do ano passado, com base em avaliações de empresas privadas e da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado (CDHU), a Procuradoria Geral de São Paulo pediu à Justiça a remoção das construções na área em vermelho.

No espaço, haveria obras de drenagem para escoar água e lama de novas tempestades.

893 famílias seriam removidas, mais da metade da Vila Sahy. Mas elas não quiseram deixar o local e protestaram, mesmo as que receberiam apartamentos em outros lugares.

O governo de São Paulo acabou pedindo a extinção do processo na Justiça.

“O estado teve uma leitura, num primeiro momento, de desapropriação daquele pessoal, e isso daí gerou muito problema e não era esse o objetivo. E a gente chegou a um consenso que com obras de infraestrutura, obras de mitigação, a gente poderia sim reclassificar o risco”, diz o coronel Henguel Ricardo Pereira, coordenador Estadual de Proteção e Defesa Civil.

O estado e a prefeitura só demoliram as casas do bairro que tiveram com a estrutura abalada, ali e na costa sul da cidade.

Para essas famílias, o governo de São Paulo construiu 704 unidades, um investimento de duzentos e sessenta milhões de reais. As habitações foram erguidas em tempo recorde. Parte delas usou estruturas pré-montadas, que dispensam concreto e tijolos. Para proteger as casas que ficaram na Vila Sahy têm telas de aço e muros de contenção.

“Aqui na Vila Sahy, as obras de drenagem e pavimentação já estão na reta final. Essas de contenção, que foram instalação das telas italianas, modelo italiano, e também dos muros e todos os diques de contenção. Mais 20 dias encerra tudo, numa obra gigantesca”, fala o prefeito de São Sebastião, Felipe Augusto.

O município investiu R$ 123 milhões.

“Eu mesmo particularmente já tinha desistido da minha casa. Mas com as obras, eu voltei a ficar mais positivo”, conta o morador José Barbosa da Silva.

Segurança dos moradores

O presidente do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia, Vinicius Marchese, ressalta a importância das obras. No entanto, ele reforça que a população que vive no local não está completamente segura, mesmo com essas intervenções.

“Tem todo esse trabalho técnico sendo feito realmente para mitigar os riscos, mas se há necessidade desse trabalho, porque é uma área de risco. Precisa-se também entender a situação de cada uma das pessoas. Mas a conscientização de que estar ali não é totalmente seguro precisa haver também por parte das pessoas que ocupam esse espaço”, fala.

Foi preciso investir também nas estradas para impedir deslizamentos de encostas. Segundo o estado, o temporal provocou 84 pontos críticos na Rodovia Rio-Santos. Já a Mogi-Bertioga ficou fechada por 15 dias.

Novo radar e sirenes de alerta

O governo no estado também instalou um novo radar meteorológico em Ilhabela, capaz de ter visão direta para São Sebastião e com alcance de 100 quilômetros. Na tragédia em São Sebastião, o temporal recorde no país foi provocado, em parte, por nuvens de chuva abaixo do nível captado pelos radares meteorológicos instalados na época.

“Nossos radares antes do acidente de São Sebastião eram lá em cima, aqui em cima, no Planalto. E a gente viu a necessidade de se colocar um conjunto de radares na planície, para a gente pegar aquelas frentes frias que se formam no mar”, diz o coronel Henguel Ricardo Pereira.

O estado também instalou na Vila Sahy uma sirene que é acionada pela Defesa Civil do município quando há algum risco geológico. Nessas situações, a sirene emite alertas.

Recomeço

A Juliana Santos de Souza morava na Vila Sahy até o temporal. Em fevereiro deste ano, ela recebeu as chaves da nova casa, onde vive agora com o marido, dois filhos e um sobrinho.

“O apartamento é razoável. Dá para continuar vivendo assim. Não vou falar assim que é um palácio, mas graças a Deus estamos aqui, todo mundo junto. Então, isso para mim é o que importa, entendeu?”, diz.

FONTE: https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2024/06/01/tragedia-de-sao-sebastiao-cidade-do-litoral-paulista-ainda-tenta-se-reconstruir-apos-chuva-de-2023.ghtml