Décadas de desgaste contínuo colocam milhões sob benefícios públicos, demonstrando que manter jornadas extenuantes custa caro à saúde coletiva.
Desde 2023, o debate sobre a escala 6 x 1 deixou o território das demandas difusas e ganhou o corpo de uma urgência social incontornável.
A cada dia, cresce a sensação de que o país caminha por um corredor estreito, iluminado por lâmpadas fatigadas, onde o tempo escorre pelas frestas como água desperdiçada. A 6 x 1 — isto é, seis dias consecutivos de trabalho para apenas um de descanso — tornou-se a porta enferrujada desse corredor. Mantê-la aberta significa aceitar permanecer sob o comando de um relógio que funciona mais como algema do que como medida de horas.
Em outras partes do mundo, a engrenagem pulsa em outro ritmo. Holanda, Dinamarca, Alemanha, França e Luxemburgo — cinco das economias mais sólidas do planeta — tratam descanso como política de Estado, não como concessão eventual.
Dados da OCDE e estatísticas europeias mostram jornadas médias de 32,2 horas na Holanda; cerca de 34 horas na Dinamarca e Alemanha; e aproximadamente 35 horas na França e Luxemburgo. S
Estamos falando aqui de sociedades que decidiram que prosperidade se mede pela qualidade da vida entre um turno e outro — não pela quantidade de dias sacrificados.
Com esse cenário internacional em mente, torna-se impossível ignorar o que se passa no Brasil. Há muito tempo estou convencido de que nenhum país se sustenta exigindo que seus trabalhadores vivam permanentemente à beira do esgotamento.
A 6 x 1 opera justamente assim: desgasta relações, pulveriza perversamente fins de semana, devora convivências familiares e reduz a vida a um circuito repetitivo de horas entregues.
Fato: Trabalhadores exaustos acabam tratados como instrumentos defeituosos — e instrumentos, ao contrário das pessoas, são substituídos sem remorso.
Os estudos internacionais confirmam aquilo que a experiência cotidiana já grita: jornadas menores significam maior eficiência, menos adoecimento, menos afastamentos, mais vitalidade. Uma economia que compreende isso respira criatividade, inovação e estabilidade.
Sempre me chamou atenção como o descanso — quando respeitado — funciona como uma usina silenciosa de ideias e soluções, muito mais potente do que discursos sobre “produtividade” recitados em salas refrigeradas.
O Brasil, porém, insiste em girar o moedor que transforma fadiga em rotina e resignação em política de gestão.
Essa constatação se torna ainda mais evidente quando se observa a estrutura de trabalho do país. Em momentos de reflexão mais profunda, retorna sempre a mesma imagem: um grande moinho de pedra — pesado, impessoal, inflexível — triturando vidas sob a ilusão de que produtividade nasce da exaustão.
Há meia dúzia de meus leitores sabe que sou muito chegado à criação de metáforas, mas nesse caso em particular a metáfora não exagera: basta observar setores que mantêm a 6 x 1 como norma — comércio, supermercados, farmácias, bares e serviços essenciais — para perceber que esse moinho existe, range, consome e não se comove.
Nesse contexto, o tabuleiro político finalmente começou a se mover. N
No Senado, a PEC 148/2015, de Paulo Paim, propõe reduzir a jornada semanal de 44 para 36 horas, com relatório já apresentado na Comissão de Constituição e Justiça garantindo dois dias de descanso por semana, eliminando a 6 x 1 de forma definitiva.
Na Câmara, a PEC 8/2025, de Erika Hilton e outros parlamentares, propõe jornada constitucional de quatro dias de trabalho e três de descanso, limite de 36 horas semanais e extinção explícita da 6 x 1. Ambas tramitam com comissões formadas, audiências marcadas e relatórios em elaboração. O Congresso já não discute “se” deve mudar — discute “como”.
Essa discussão se dá em um país de 212,6 milhões de habitantes, segundo o IBGE em 2024. Uma parcela significativa da população depende de proteção social. Em dezembro de 2024, a Previdência registrou 40,7 milhões de benefícios mensais entre previdenciários e assistenciais, sendo 70% deles equivalentes a um salário mínimo.
No Regime Geral de Previdência Social, eram 34,4 milhões de benefícios ativos ao fim de 2024; em 2022, somando todos os regimes, chegavam a 37,2 milhões. As despesas previdenciárias ultrapassam R$ 800 bilhões por ano.
No campo assistencial, o Bolsa Família alcançou 20,8 milhões de famílias em 2024, com gasto anual de R$ 168,3 bilhões. Programas sociais garantem algum tipo de renda a 20,1 milhões de pessoas — 9,2% da população. O que se vê, portanto, é um país no qual dezenas de milhões dependem, parcial ou totalmente, de benefícios públicos porque o mercado de trabalho expulsa cedo demais, adoece rápido demais, cansa fundo demais.
Não faz sentido manter um modelo de jornada que empurra trabalhadores para o INSS e para a assistência social antes do tempo, enquanto o orçamento federal luta para sustentar o peso dessa engrenagem.
Permanece uma convicção inabalável: um país que insiste na 6 x 1 não pretende avançar com grandeza; pretende apenas sobreviver — e mal. Quando o descanso vira raridade, a dignidade se torna peça de museu.
Reduzir a jornada é reorganizar o tempo humano como prioridade nacional, não como sobra de agenda.
No centro dessa discussão repousa a escolha de um país inteiro: permanecer no corredor estreito das lâmpadas cansadas — ou finalmente empurrar a porta que se abre para uma vida em que o relógio não aprisiona, mas liberta.
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FONTE: https://www.brasil247.com/blog/6-x-1-transformou-o-pais-numa-maquina-de-exaustao-que-precisa-ser-desligada