Para Pequim, os EUA “caíram na armadilha” ao enxergar o crescimento chinês não como uma realidade histórica administrável, mas como uma ameaça existencial.
Há algo de profundamente humano – e perigosamente irracional – na maneira como os impérios reagem ao declínio. Eles não caem apenas por derrotas militares ou crises econômicas. Caem porque entram em estado de ansiedade histórica. Tornam-se paranoicos. Veem ameaças em toda parte. E, frequentemente, provocam exatamente a guerra que dizem querer evitar.
É exatamente isso que, há poucos dias, Xin Jinping, secretário-geral do Partido Comunista Chinês, quis dizer quando, em plena visita oficial de Donald Trump a seu país, afirmou que os Estados Unidos tinham “caído na armadilha de Tucídides”. Ele se referia ao grande historiador grego que, há 2500 anos, participou e escreveu sobre a Guerra do Peloponeso. Tucídides analisava esse conflito, mas poderia estar falando do presente. “A ascensão de Atenas e o medo que isso provocou em Esparta tornaram a guerra inevitável”, escreveu ele.
O conceito não é novo. Agora, Xi Jinping passa a mencionar a “armadilha de Tucídides” como uma crítica direta à maneira como os Estados Unidos reagem à ascensão da China. Mas há um detalhe importante: Xi não diz que a guerra é inevitável. Ele diz que Washington corre o risco de transformar a rivalidade em conflito porque está agindo movido pelo medo da ascensão chinesa.
Em outras palavras: para Pequim, os EUA “caíram na armadilha” ao enxergar o crescimento chinês não como uma realidade histórica administrável, mas como uma ameaça existencial. Quando uma potência emergente ameaça substituir uma potência dominante, o risco de guerra dispara.
A palavra decisiva aqui é “medo”. O medo como motor da história. Impérios adoram falar de liberdade, estabilidade, democracia, civilização ou ordem internacional. Mas, nos bastidores da história, o motor frequentemente é outro: o medo de perder posição.
Foi assim com Esparta diante de Atenas. Foi assim com impérios europeus diante dos Estados Unidos no século 20. E é impossível não enxergar ecos disso hoje na tensão entre Estados Unidos e China.
A China produz, exporta, compra portos, domina cadeias industriais, avança em inteligência artificial, tecnologia militar e infraestrutura global. Já não é apenas “a fábrica barata do mundo”. É um projeto explícito de poder civilizacional.
Os EUA percebem isso. E reagem como potências hegemônicas costumam reagir: tentando conter.
Tarifas, sanções, guerras tecnológicas, pressão diplomática, militarização do Indo-Pacífico, disputa por semicondutores, tensão em Taiwan, alianças militares reforçadas. O discurso oficial fala em segurança. Mas por trás dele existe algo mais visceral: o temor de deixar de ser o centro do mundo.
O declínio é psicologicamente insuportável. Nenhuma potência aceita envelhecer e declinar com elegância. Essa talvez seja a grande lição da armadilha de Tucídides.
O problema raramente é apenas econômico ou militar. É identitário. Civilizações inteiras constroem sua autoestima em torno da ideia de excepcionalismo. Quando essa imagem começa a rachar, surgem agressividade, ressentimento e necessidade de reafirmação.
Quando isso acontece, impérios em declínio tornam-se emocionalmente perigosos. Porque a perda de hegemonia é sentida quase como humilhação existencial.
É por isso que momentos de transição histórica – como é o momento atual – costumam produzir nacionalismos inflamados, discursos messiânicos e polarização extrema. O sistema sente que está mudando – e entra em febre.
E muitos analistas acreditam que é exatamente esse clima psicológico que hoje contamina a relação entre China e Estados Unidos.
No fundo, Xi Jinping tenta inverter a narrativa ocidental: não seria a China o fator desestabilizador da ordem mundial – mas o pânico americano diante do fim de sua hegemonia incontestável.
Foto: Xinhua
FONTE: https://www.brasil247.com/blog/a-armadilha-de-tucidides-quando-imperios-entram-em-panico