Como Huawei, BYD e Haier viraram líderes globais.
Você ainda acredita que a China é apenas a “fábrica do mundo” que copia produtos ocidentais?
Essa narrativa está completamente desatualizada.
Hoje, a Huawei domina 80% das patentes de 5G no mundo, a BYD é a segunda maior fabricante mundial de baterias recarregáveis e rivaliza com Tesla, e a Haier comprou a divisão de eletrodomésticos da General Electric por US$ 5,4 bilhões. O que antes era visto como réplica barata virou referência global em tecnologia, inovação e valor agregado.
Marcas chinesas não apenas competem nos mercados mais exigentes do planeta — elas lideram.
Então hoje vou mostrar como a China transformou uma estratégia deliberada de proteção, nutrição e projeção de suas empresas na maior história de sucesso industrial dos últimos 40 anos.
Vamos aos detalhes!
A estratégia começou com joint ventures forçadas e transferência tecnológica.
Nos anos 1980 e 1990, a China criou zonas econômicas especiais para atrair investimento estrangeiro, mas com condições claras.
Empresas multinacionais que quisessem acessar o imenso mercado chinês eram obrigadas a formar joint ventures com empresas locais, com no máximo 50% de participação estrangeira até 2018.
Na prática, isso significava transferência forçada de tecnologia. Além disso, o governo chinês aplicou fracamente as leis de propriedade intelectual, permitindo que produtores domésticos praticassem engenharia reversa e imitassem tecnologias estrangeiras sem punições relevantes.
Para muitos no Ocidente, isso parecia desleal. Mas funcionou.
As empresas chinesas não ficaram apenas copiando — elas aprenderam e inovaram.
A interação entre multinacionais e empresas nacionais criou uma genuína história de sucesso global.
No setor de eletrodomésticos, surgiram gigantes como Midea, TCL, Gree Electric, Xiaomi e Haier. Em 1991, a Haier se tornou a maior fabricante de refrigeradores da China.
Em 1997, entrou no mercado americano. Em 2005, já dominava 26% do mercado de pequenos refrigeradores nos EUA e 50% do mercado de adegas, ocupando prateleiras de varejistas como Walmart. A Galanz produz hoje um quarto de todos os micro-ondas do mundo.
A China Medical se tornou líder mundial em ultrassom. Nos smartphones, Huawei, Xiaomi, OPPO e Vivo se tornaram marcas globais — a Huawei chegou a superar a Apple em vendas na Europa, com 23% de participação de mercado em 2018.
O papel do Estado foi preponderante em todo esse processo.
Contratos militares, empréstimos de bancos estatais e subsídios bilionários foram combustível essencial para a expansão das empresas chinesas.
A Huawei, fundada em 1987 por um ex-membro do exército chinês, recebeu pelo menos US$ 1,6 bilhões em subvenções reconhecidas em seus balanços.
Um empréstimo do China Development Bank foi da ordem de US$ 30 bilhões. Engenheiros receberam centenas de milhares de dólares, e enormes terrenos foram concedidos por apenas 1/10 do valor de mercado pelo governo de Shenzhen. Financiamentos de dezenas de bilhões foram fornecidos por bancos chineses a compradores estrangeiros que contratassem bens e serviços da Huawei.
Hoje, ela é considerada a empresa mais avançada no desenvolvimento da tecnologia 5G, crítica para um futuro baseado em Inteligência Artificial e Internet das Coisas.
Até 2030, a Huawei quer também ser pioneira no 6G.
No setor automotivo, a China exigiu conteúdo local e criou campeãs nacionais.
O governo chinês exigia que montadoras estrangeiras alcançassem 70% de conteúdo nacional em até três anos.
Isso obrigou empresas multinacionais a cooperarem estreitamente com fornecedores locais no desenvolvimento de novas tecnologias.
Mesmo após a abolição da obrigatoriedade de conteúdo local para cumprir regras da OMC, os fabricantes estrangeiros continuaram comprando de fornecedores chineses — prova de que o sistema criou produtores domésticos eficientes.
Hoje, existem seis grandes estatais produtoras de carros na China. Mas o maior acerto foi preparar o terreno para veículos elétricos. Enquanto concorrentes lutam para superar a dependência de motores a combustão, a China desenvolveu uma cadeia doméstica completa de baterias e EVs. A BYD domina 50%+ do mercado mundial de veículos elétricos.
A BMW produz seu X3 elétrico na China não para explorar mão de obra barata, mas para usar a capacidade produtiva de ponta desenvolvida com apoio do Estado chinês.
A China protegeu, nutriu e então lançou suas empresas para conquistar o mundo.
O contraste com o Brasil é brutal.
Enquanto a China fortalecia indústrias nacionais com câmbio competitivo, juros baixos e política industrial agressiva, o Brasil nos anos 1990 fez o oposto: abriu a economia sem estratégia de proteção, deixou o câmbio se valorizar com o boom de commodities e desmontou a política industrial.
Em 1980, nossa produção industrial era maior do que a chinesa e coreana somadas. Hoje, a China produz US$ 4 trilhões/ano em manufaturas contra US$ 2 trilhões dos EUA.
Viramos fornecedores de matérias-primas brutas e importadores de bens industriais chineses.
A China nos deu um golpe duplo: desalojou nossa indústria com preços baixos e câmbio ultracompetitivo, e ao consumir nossa soja e minério de ferro, forçou nossa especialização regressiva em commodities.
A lição é clara: desenvolvimento não acontece sozinho.
Requer estratégia de Estado, investimento em P&D, proteção seletiva de setores estratégicos e paciência para resultados que aparecem em décadas.
A China investe cerca de US$ 400 bilhões/ano em Pesquisa & Desenvolvimento, é líder mundial em patentes depositadas há três anos consecutivos, e mantém 95-100 empresas estatais controlando setores estratégicos.
Shenzhen, que em 1979 era uma vila de pescadores com 90 mil habitantes, hoje é uma megalópole de 15 milhões e um dos principais polos tecnológicos do mundo, com transporte 100% elétrico.
O Brasil investe apenas US$ 20 bilhões/ano em P&D. Enquanto a China construiu Huawei, BYD e Haier, nós privatizamos, abrimos e nos especializamos em commodities.
A diferença nos resultados está aí para quem quiser ver.
P.S. — “Mas Paulo, a China é autoritária. Esse modelo não funciona em democracias, certo?”
Errado. Coreia do Sul e Taiwan eram ditaduras quando construíram suas campeãs nacionais (Samsung, TSMC, Hyundai) e mantiveram a estratégia após a democratização. Alemanha, França e Japão — democracias consolidadas — têm forte presença estatal coordenando setores estratégicos até hoje. No nosso curso de História Econômica do Brasil, mostramos que o problema não é democracia vs. autoritarismo — é ter ou não ter projeto nacional de longo prazo. Você vai entender por que Taiwan criou a TSMC (hoje vale US$ 500 bilhões) e o Brasil privatizou a Cobra Computadores.
Paulo Gala / Graduado em Economia pela FEA-USP | Mestre e Doutor em Economia pela Fundação Getúlio Vargas em São Paulo | Foi pesquisador visitante nas Universidades de Cambridge UK e Columbia NY | Autor com +10,000 cópias de livros vendidas | Geriu carteiras de +R$ 3,000,000,000 | Professor na FGV/SP há 20 anos.
FONTE: https://open.substack.com/pub/paulogala/p/a-china-nao-copiou-superou?utm_campaign=post-expanded-share&utm_medium=web