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A crise que o Brasil ainda não entendeu

Mesmo com fim da guerra, petróleo reagirá lentamente e pressionará o Brasil, analisa Olímpio Cruz Neto.

A cobertura dominante da mídia brasileira, sobretudo dos jornalões, ainda trata a crise de Ormuz como um susto de mercado. É pouco. Neste momento, subestimar seus efeitos é perigoso. O que está em curso já não pode ser lido apenas como um choque de preço do barril. O mundo entrou numa crise de destruição de capacidade física, desorganização logística e lenta recomposição da oferta. Mesmo que a guerra acabasse hoje, os problemas do Brasil estariam longe de serem resolvidos.

Esse é o ponto que boa parte da imprensa ainda não entendeu — ou evita enunciar com clareza. Não estamos diante de uma turbulência conjuntural, dessas que produzem um pico de tensão, dois ou três dias de manchetes e depois uma acomodação gradual. Há uma ruptura em curso que atinge instalações, cadeias de transporte, seguros, refino, rotas marítimas e a própria previsibilidade do sistema energético global.

A Agência Internacional de Energia (AIE), citada pelo próprio FMI, já advertiu que mais de 12 milhões de barris por dia foram perdidos em Ormuz e indicou que abril tende a ser pior que março. Ao repercutir esse diagnóstico, o fundo passou a tratar o fechamento do estreito e os danos à infraestrutura regional como “a maior perturbação da história do mercado global de petróleo”.

É por isso que a comparação automática com 1973 talvez já seja insuficiente. No primeiro choque do petróleo, o mundo enfrentou um embargo e um choque de oferta. Agora, a crise tem outra anatomia. O Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo e do GNL comercializados no planeta, foi estrangulado por uma guerra que atingiu não apenas o fluxo, mas a infraestrutura e a confiança operacional do sistema. A agência Reuters mostrou na segunda-feira, 6 de abril, que o fechamento do estreito já divide brutalmente a sorte dos países exportadores e reorganiza rotas de escoamento. Também registrou que refinadores na Ásia e na Europa entraram numa disputa feroz por barris alternativos, fazendo disparar os prêmios do petróleo americano a níveis recordes.

Gráfico
Gráfico. Foto: Reprodução

Não basta reabrir a passagem para que tudo volte ao lugar. Refinarias danificadas não reaparecem em poucas semanas. A destruição física de instalações no Golfo é um dano que levará meses, talvez anos, para ser revertido. O mercado não perdeu apenas barris. Também perdeu capacidade, elasticidade e tempo.

Quem insiste em olhar apenas para a cotação diária do Brent continua descrevendo a fumaça, não o incêndio. Em Dubai, o petróleo físico operou em picos de US$ 166 o barril, descolando-se dos contratos de papel em Londres, como mostrou a CNBC.O agravante é que a crise avançou para uma nova fase política. O presidente Donald Trump já não fala como chefe de uma potência interessada em estabilizar o sistema. Mas como líder de um país que pretende extrair vantagem estratégica da instabilidade. O ultimato de 6 de abril é o gesto mais explícito dessa mudança. Não se trata mais do papel clássico de garantidor da ordem. Trata-se de uma nova doutrina de poder — algo próximo do que o Financial Times chamou de “Doutrina Donroe” — em que energia, guerra e coerção passam a operar como instrumentos combinados.A própria Reuters registrou que o mercado segue operando sob forte volatilidade, mesmo diante de tentativas de cessar-fogo, porque o problema já não é apenas político: é material.

O erro brasileiro, até aqui, foi imaginar que a crise externa produziria um efeito de preço administrável. Não é isso. O país está estruturalmente vulnerável no ponto mais sensível da sua engrenagem econômica: o diesel. A economia brasileira depende pesadamente do transporte rodoviário, e uma parcela relevante do diesel consumido no país, cerca de 30%, ainda depende de importações. Quando o diesel encarece ou rareia, não sobe apenas o custo do frete. Sobem o custo da colheita, da distribuição de alimentos, da logística portuária e da atividade industrial. A inflação deixa de ser estatística e volta a ser experiência cotidiana – quem não viveu os anos 80 não sabe o pesadelo que era o país antes do Plano Real.

Então, aqui está o ponto que deveria organizar o debate público: o Brasil produz petróleo, mas isso não o torna automaticamente protegido. Produzir óleo bruto, por si só, não garante segurança energética. Sem capacidade suficiente de refino, estoques e substituição, o país continua exportando petróleo e importando vulnerabilidade. Num choque prolongado, o que decide a resiliência não é quanto petróleo se extrai, mas quanto se refina, estoca e substitui.

Se o dano físico no Golfo for lento de recompor, o Brasil enfrentará meses de diesel caro e fertilizantes escassos. O problema não é apenas o barril a US$ 112. É o mundo passar a operar sem redundância, com menos margem de manobra e com mais medo. O FMI já admite que o choque levará a “preços mais altos e crescimento mais lento”, enquanto a Reuters mostra que Europa e Ásia já correm atrás do mesmo colchão alternativo de oferta americana.

É preciso dizer com clareza: mesmo que a guerra acabe agora, a crise continua.

Continua porque o capital físico foi destruído e porque o preço do seguro marítimo não recua por decreto. Continua porque compradores asiáticos e europeus estão redesenhando contratos, rotas e prêmios de risco. E continua porque os Estados Unidos emergem desse episódio como o fornecedor mais disputado e geopoliticamente mais poderoso. A Reuters mostrou em 6 de abril que a disputa por barris americanos já elevou os prêmios do WTI a patamares recordes, justamente porque Europa e Ásia correm atrás da mesma oferta alternativa.

A cobertura da mídia nativa, no entanto, ainda parece presa à lógica do comentário convencional. Os jornais e agências acompanham o sobe-e-desce das cotações, repetem que o conflito “pressiona o petróleo”, mas evitam formular a pergunta decisiva. E se o que está em curso não for um susto passageiro, mas o início de uma longa crise de reposição impossível no curto prazo? E se Ormuz já não for apenas uma emergência internacional, mas o nome de um novo desequilíbrio estrutural que atinge diretamente o abastecimento e os preços no Brasil — e em boa parte do Sul Global?

Isso não é histeria. É realismo. Não faz sentido tratar como episódio pontual uma ruptura dessa magnitude na principal artéria energética do planeta. Não se recompõe uma perda dessa escala com retórica diplomática e uma ou duas decisões administrativas. Os alertas multilaterais já não tratam o episódio como simples volatilidade, mas como um choque com potencial de abalar crescimento, inflação e abastecimento em escala global.

O Brasil deveria estar discutindo estoques, refino, biodiesel, fertilizantes e contingência logística. Mas, antes disso, precisa admitir o óbvio: a crise já mudou de natureza. Ela deixou de ser apenas financeira e virou física. E, quando uma crise energética vira física, o tempo político das manchetes fica muito mais curto do que o tempo econômico do estrago.

FOTO: RS/via FotosPublicas

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/a-crise-que-o-brasil-ainda-nao-entendeu