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A diferença entre brincar com fogo e se jogar na fogueira

Conflitos que começam como demonstrações de força costumam terminar como incêndios fora de controle, deixando um rastro de destruição.

A história humana está repleta de líderes que acreditaram estar apenas “brincando com fogo”. Apostaram em demonstrações de força, em ataques cirúrgicos, em guerras rápidas que supostamente disciplinariam adversários. Mas há momentos em que a política internacional deixa de ser um jogo de pressão e se transforma em algo muito mais perigoso: o instante em que não se brinca mais com o fogo — salta-se diretamente para dentro da fogueira.

A guerra iniciada em 28 de fevereiro de 2026, quando Estados Unidos e Israel lançaram ataques coordenados contra instalações militares e estratégicas do Irã, é um desses momentos históricos. A operação, conhecida como Lion’s Roar, inaugurou uma fase de confrontação direta entre potências militares e um dos países mais influentes do Oriente Médio. O que inicialmente foi apresentado como uma ofensiva limitada contra capacidades nucleares iranianas rapidamente se expandiu para um conflito regional de alta intensidade.

Em poucos dias, a lógica da guerra mostrou seu velho padrão: precisão militar na retórica, destruição indiscriminada na realidade. O Ministério da Saúde iraniano e organizações independentes de direitos humanos estimam que mais de 1.250 pessoas já morreram nos ataques, muitas delas civis. Entre as vítimas há cerca de 200 crianças, além de trabalhadores da saúde e moradores atingidos em bairros residenciais.

Esse número cresce diariamente. Autoridades iranianas afirmam que mais de 1.300 civis já foram mortos e cerca de 10 mil instalações civis foram atingidas, incluindo hospitais, escolas e prédios residenciais.

A matemática da guerra é brutal porque transforma pessoas em estatísticas. Cada número representa uma vida interrompida: um estudante que não voltará à escola, um médico que não retornará ao hospital, uma criança que jamais aprenderá a ler. Em um dos episódios mais chocantes, um ataque aéreo atingiu uma escola primária, deixando dezenas de mortos — muitos deles crianças.

Os estrategistas militares falam em alvos, corredores aéreos, superioridade tecnológica. Mas quem caminha pelas ruas destruídas vê outra coisa: casas abertas como feridas, hospitais sobrecarregados e famílias tentando reconhecer corpos sob escombros.

A guerra também se expande geograficamente. O Irã respondeu com mísseis contra Israel e contra bases associadas aos Estados Unidos na região. Portos, bases militares e cidades passaram a integrar o mapa do confronto. O resultado é uma escalada que ameaça transformar o Oriente Médio em um tabuleiro de guerra aberta, envolvendo múltiplos países e rotas energéticas vitais para a economia mundial.

Nesse ponto, a metáfora inicial deixa de ser apenas retórica. Brincar com fogo, na política internacional, significa testar limites: lançar ataques pontuais, impor sanções, fazer demonstrações militares. Mas uma guerra direta entre grandes potências regionais — com envolvimento dos Estados Unidos — não é mais um teste. É um salto deliberado para dentro da fogueira.

O perigo não reside apenas nos mísseis ou nos drones que cruzam o céu noturno. Ele está na lógica que normaliza a destruição gradual de sociedades inteiras. A cada dia de combate, o número de civis mortos cresce. A cada bombardeio, a distância entre guerra e tragédia humanitária desaparece.

Guerras começam com discursos sobre segurança nacional. Terminam com cemitérios silenciosos.

A diferença entre brincar com fogo e se jogar na fogueira é simples: no primeiro caso, ainda existe a possibilidade de recuar. No segundo, todos acabam queimados — inclusive aqueles que acreditavam controlar as chamas.

FOTO: Avash Media

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/a-diferenca-entre-brincar-com-fogo-e-se-jogar-na-fogueira