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A engenharia do poder: por que a China escolheu engenheiros para governar

Sob Cavalo e Dragão, símbolos de impulso e poder, a China inicia o ano 4724 renovando estratégia sustentada por engenharia e planejamento de longo prazo.

Às vésperas do Ano Novo chinês, quando milhões de famílias atravessam o país no maior movimento migratório anual do planeta e lanternas vermelhas passam a iluminar ruas e arranha-céus, a China não celebra apenas a troca de calendário: celebra a continuidade de uma civilização milenar. O calendário tradicional, de matriz lunissolar, remonta simbolicamente ao reinado do Imperador Amarelo, há mais de quatro milênios, e já atravessou mais de vinte dinastias, dos Zhou aos Qing, sobrevivendo a impérios, invasões, guerras civis e revoluções políticas profundas.

Cada ano é regido por um dos doze animais do zodíaco — Rato, Dragão, Tigre, Coelho, Serpente — alguns reais, outros mitológicos, todos associados a traços de caráter, ciclos de energia e expectativas coletivas. O mundo ocidental observa e, cada vez mais, participa: assim como reconhece o Ano Novo judaico, cristão, muçulmano ou bahá’í, incorpora também essa virada oriental ao seu calendário simbólico e econômico. Não se trata apenas de exotismo cultural, mas de reconhecimento geopolítico. E é justamente essa longa consciência histórica, essa percepção de tempo acumulativo e planejamento cíclico, que ajuda a compreender por que, na China contemporânea, até a política parece obedecer a um desenho estratégico que atravessa gerações.

Há países em que a política é um palco. Na China, ela se parece mais com uma usina. Se alguém deseja alcançar o topo do poder em Pequim, já sabe que o caminho não começa nos cursos de retórica, mas nos laboratórios, nos canteiros de obras, nos centros de cálculo estrutural.

A senha é clara: Engenharia.

E, se possível, com currículo de entregas monumentais — liderar o programa espacial, erguer a maior hidrelétrica do planeta ou comandar a universidade que muitos chamam de “MIT chinês”.

Desde 1993, a sequência é quase didática. Jiang Zemin, engenheiro elétrico. Hu Jintao, engenheiro hidráulico associado à monumental Barragem das Três Gargantas. E o atual presidente, Xi Jinping, formado em Engenharia Química. Três décadas consecutivas com engenheiros ocupando o cargo mais alto da segunda maior economia do planeta.

Não é acaso estatístico. É método institucionalizado.

Esse padrão não se limita ao topo do sistema. Ele desce a escada do poder e estrutura o funcionamento do Estado. Em Xangai, a maior cidade chinesa em população urbana, o comando partidário está nas mãos de Chen Jining, engenheiro civil, doutor pela Imperial College London e ex-reitor da Universidade Tsinghua — frequentemente apelidada de “MIT chinês”. O detalhe institucional importa: ser chefe do Partido na cidade pesa mais do que o título de prefeito. Na China, a política real corre pelos trilhos partidários e pela lógica de resultados.

Em Xinjiang, a maior região administrativa do país, governa Ma Xingrui, engenheiro aeroespacial, doutor pelo Harbin Institute of Technology, ex-diretor do programa lunar chinês. Em Chongqing, metrópole colossal em território e influência industrial, o comando está com Yuan Jiajun, também engenheiro aeroespacial, doutor pela Beihang University, projetista da nave Shenzhou e ex-vice-presidente da China Aerospace Science and Technology Corporation.

Mas, atenção: eles não são burocratas convencionais. São dirigentes formados na resolução de problemas complexos, acostumados a metas, cronogramas e métricas.

O Congresso Nacional do Povo segue a mesma lógica. Mais de 600 deputados possuem formação em STEM — ciência, tecnologia, engenharia e matemática. Entre eles, Zhang Qingwei, engenheiro de foguetes e ex-presidente da COMAC, a fabricante aeronáutica vista como a Embraer chinesa. Ou Qian Zhengying, engenheira civil, ex-reitora da Hohai University e ministra em posições estratégicas. A formação técnica não é exceção decorativa. É eixo estruturante.

O que esse mosaico revela, portanto, é que a “fábrica” de líderes na China está ancorada na cultura da entrega concreta.

Antes de administrar narrativas, é preciso administrar obras, sistemas, cadeias produtivas. O poder, ali, não é legitimado pelo brilho midiático, mas pela capacidade de expandir infraestrutura, acelerar inovação, sustentar crescimento industrial e consolidar autonomia tecnológica.

Enquanto muitas democracias contemporâneas premiam o desempenho comunicacional — a frase viral, o embate televisivo, o algoritmo favorável — a China aposta deliberadamente em outra métrica: PIB sustentado por aço, energia, semicondutores, inteligência artificial, logística integrada e planejamento industrial. A política como extensão da engenharia; o Estado como coordenador técnico de um projeto de longo prazo.

É possível criticar o modelo por sua baixa pluralidade ideológica ou por seus limites democráticos. Mas ignorar sua racionalidade estratégica seria ingenuidade histórica e miopia analítica.

Quando um país decide que governar é, antes de tudo, projetar, calcular e executar, ele transforma a formação técnica em credencial de poder e converte planejamento em destino nacional. Na China, ser engenheiro não é detalhe curricular. É linguagem do Estado, método de seleção, critério de ascensão e instrumento de continuidade histórica.

E os resultados não são abstratos: são portos automatizados, trens de alta velocidade que cruzam o país em poucas horas, satélites em órbita, cadeias produtivas digitalizadas, parques industriais interligados por inteligência artificial.

Década após década, a colheita não é episódica nem fruto de arroubos momentâneos. Ela é cumulativa, planejada, medida, revisada e aprimorada com disciplina quase científica. Cada plano quinquenal dialoga com o anterior e prepara o seguinte. Cada investimento em infraestrutura prepara a expansão industrial. Cada avanço tecnológico reforça soberania produtiva.

Pode-se discordar do sistema político chinês. Pode-se questionar seus limites institucionais. Mas é intelectualmente desonesto negar a consistência estratégica que transformou planejamento em prosperidade concreta e influência global. A China não colhe por acaso. Colhe porque semeou com método, irrigou com investimento maciço e protegeu seu projeto nacional com constância rara na história contemporânea. Passo a passo. Fase a fase. Ciclo a ciclo.

Há, gostemos ou não, algo de profundamente admirável na disciplina histórica com que um país define seu rumo e o executa com precisão — como se cada ciclo do calendário lunar fosse também uma engrenagem a mais em uma máquina estatal movida por cálculo, continuidade e propósito.

Foto: Xinhua/Huang Wei

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/a-engenharia-do-poder-por-que-a-china-escolheu-engenheiros-para-governar