O campo progressista brasileiro enfrenta uma crise de leitura do real em plena guerra informacional e pode pagar caro por isso em 2026.
Um alerta direto sobre por que a base progressista está desorientada no momento mais decisivo da democracia brasileira e quais caminhos concretos podem reorganizar o campo democrático a partir da vida real, do trabalho e da soberania nacional
O choque de realidade
Há um dado que deveria encerrar qualquer espaço para autoengano no campo progressista brasileiro neste momento. As pesquisas mais recentes indicam que, embora o presidente Lula lidere os cenários de primeiro turno, a disputa de segundo turno contra Flávio Bolsonaro já se configura como um empate técnico. Em termos concretos, isso significa que a eleição de 2026 não está definida. Ela está aberta, competitiva e sujeita a deslocamentos rápidos em um ambiente político marcado por instabilidade e alta tensão.
Esse ponto, por si só, deveria reorganizar imediatamente a forma como o campo democrático pensa e atua. Mas não é isso que se observa. Uma parte relevante da base progressista se comporta como se a vitória fosse inevitável, sustentando a ideia de que o apoio social já está consolidado a ponto de encerrar a disputa no primeiro turno. Outra parte reage no extremo oposto, tratando o cenário como praticamente perdido e antecipando uma derrota como se fosse um desfecho inevitável.
Nenhuma dessas posições se sustenta diante dos dados disponíveis. Ambas desconsideram a dinâmica concreta da disputa em curso, marcada por polarização intensa, guerra informacional permanente, pressão institucional contínua e um campo adversário que já demonstrou, em diversas ocasiões, capacidade de reorganização mesmo em condições desfavoráveis.
O problema que emerge não é apenas de opinião ou percepção. É um problema de leitura estratégica. Em um momento decisivo, o campo progressista demonstra dificuldade em apreender os sinais mais evidentes do cenário político. E quando uma força política perde essa capacidade, deixa de responder ao mundo como ele é e passa a reagir a projeções, expectativas e desejos.
Esse descompasso entre realidade e interpretação precisa ser enfrentado com urgência. Porque, em 2026, não será a narrativa mais confortável que prevalecerá, mas aquela que estiver ancorada nas condições concretas e for capaz de agir a partir delas.
A crise de leitura do real no campo progressista
O que se observa hoje no campo progressista brasileiro não é apenas divergência política ou pluralidade de opiniões, algo inerente a qualquer ambiente democrático. O que está em curso é uma dificuldade mais profunda: uma crise de leitura estratégica do cenário. Em um contexto marcado por alta complexidade, múltiplas frentes de disputa e transformação acelerada das formas de poder e comunicação, a base progressista apresenta sinais consistentes de desorientação.
Essa desorientação se manifesta, antes de tudo, na ausência de critérios compartilhados para interpretar o que acontece. Falta um referencial comum que permita distinguir entre processos estruturais e episódios circunstanciais, entre tendências que se consolidam e ruídos momentâneos. Como resultado, a percepção do cenário passa a ser construída a partir de fragmentos, impressões e recortes isolados, frequentemente desconectados das condições concretas em que a disputa se desenrola.
Nesse ambiente, a análise tende a ser substituída por posicionamento. Em vez de compreender para intervir, muitos setores passam a reagir de forma imediata, guiados por estados de ânimo, identidade ou pertencimento. Isso não apenas empobrece o debate, mas compromete a capacidade de formular estratégia. A política deixa de ser um campo de interpretação e ação para se tornar um espaço de reafirmação de convicções prévias.
Esse quadro não surge de forma espontânea. Ele é produzido e intensificado por um ambiente comunicacional que premia respostas rápidas, simplificações e certezas absolutas. A lógica dominante favorece conteúdos que confirmam crenças e reforçam identidades, não aqueles que exigem elaboração e nuance. Nesse contexto, a dúvida tende a ser descartada como fraqueza, e a complexidade como obstáculo.
O efeito acumulado é a fragmentação cognitiva do campo progressista. Sem uma leitura minimamente compartilhada, torna-se difícil construir unidade de ação, definir prioridades e sustentar um horizonte estratégico. Cada grupo passa a operar a partir de sua própria interpretação parcial, o que reduz a capacidade coletiva de resposta diante de um adversário que, apesar de suas contradições, atua com maior coesão nos momentos decisivos.
Superar esse quadro não implica eliminar divergências, mas reconstruir uma base comum de interpretação. Sem essa referência, qualquer projeto político, por mais consistente que seja em seus princípios, tende a perder eficácia por incapacidade de se orientar no terreno concreto onde a disputa se dá.
Os dois erros simétricos
A crise de leitura estratégica do cenário se manifesta, hoje, em dois comportamentos que parecem opostos, mas operam a partir da mesma lógica: o triunfalismo desmobilizador e o catastrofismo paralisante. Ambos nascem de respostas emocionais a um ambiente de alta pressão e ambos produzem efeitos semelhantes na prática política.
O triunfalismo se ancora na ideia de que a disputa já está resolvida, de que o governo consolidou apoio suficiente e de que o adversário não possui capacidade real de ameaça. Alimenta-se de recortes favoráveis, de comparações pontuais e da memória recente de vitórias passadas. Ao transformar a eleição em algo praticamente decidido, reduz o senso de urgência e enfraquece a necessidade de organização, formação política e mobilização territorial. Quando a vitória é tratada como inevitável, a disciplina estratégica perde centralidade.
O catastrofismo, por sua vez, parte de uma leitura oposta na forma, mas equivalente no efeito. Interpreta o ambiente como irreversivelmente hostil, as instituições como insuficientes e o adversário como intransponível. Cada crise passa a ser vista como sinal de colapso iminente e cada oscilação como evidência de derrota. O resultado é a paralisia. Se o desfecho já está dado, a construção paciente de maioria perde sentido.
Esses dois comportamentos são alimentados pelo mesmo contexto de saturação informacional e pressão contínua. Diante de um fluxo constante de estímulos, o campo progressista oscila entre euforia e desespero, substituindo a análise por estados de ânimo. A política deixa de ser compreendida como uma dinâmica de forças em disputa e passa a ser tratada como destino imediato.
O ponto central é que ambos retiram da base o elemento mais decisivo em qualquer disputa histórica: a capacidade de agir com lucidez sob pressão. Nem a certeza prematura nem o medo antecipado produzem estratégia. Estratégia exige leitura concreta das forças em jogo, das fragilidades e das oportunidades, além da disposição de agir a partir dessa leitura, mesmo em condições adversas.
Se o campo progressista não romper com esses dois extremos, continuará reagindo ao cenário em vez de moldá-lo. E, em uma disputa apertada, reagir já significa entrar em desvantagem.
O ambiente de guerra informacional e saturação
A dificuldade de leitura estratégica do cenário não pode ser compreendida sem considerar o ambiente em que ela se produz. O campo progressista não atua em um espaço neutro de debate público. Está inserido em um ecossistema atravessado por guerra informacional permanente, no qual a disputa não ocorre apenas no campo das ideias, mas na própria organização da percepção coletiva.
Nesse contexto, a circulação de informação deixa de obedecer a uma lógica de esclarecimento e passa a ser orientada pelo impacto. Narrativas são construídas para provocar reação imediata, não compreensão duradoura. Crises surgem e se sucedem em ritmo acelerado, muitas vezes sem tempo suficiente para verificação ou assimilação. O que ganha centralidade não é apenas o conteúdo de um fato, mas sua capacidade de circular, de se repetir e de se fixar no imaginário.
Essa dinâmica produz saturação. O campo progressista passa a ser exposto a uma sequência contínua de temas, controvérsias e conflitos que dificultam a construção de uma linha interpretativa consistente. Quando tudo se apresenta como urgente, a capacidade de priorizar se perde. A agenda deixa de ser organizada internamente e passa a ser definida por estímulos externos, deslocando a ação estratégica para uma lógica reativa.
A estrutura das plataformas digitais intensifica esse processo. Algoritmos favorecem conteúdos que geram engajamento rápido, o que normalmente está associado a conflito, indignação e simplificação. Narrativas que exigem tempo, elaboração e nuance tendem a ter menor circulação. Como consequência, a percepção coletiva passa a ser moldada por fragmentos, recortes e interpretações parciais.
Há também um mecanismo recorrente de associação. Não é necessário comprovar, basta sugerir e repetir. A repetição cria familiaridade, e a familiaridade pode ser confundida com veracidade. Em um ambiente saturado, a capacidade de análise crítica se reduz, abrindo espaço para explicações simplificadas e interpretações apressadas.
O impacto político desse cenário é profundo. Ele não apenas dificulta a comunicação do campo progressista, mas interfere diretamente na sua capacidade de organizar pensamento e ação. Ao operar sob pressão contínua, respondendo a estímulos externos e disputando fragmentos de narrativa, o campo perde consistência estratégica.
Compreender esse ambiente é indispensável não para justificar erros, mas para superá-los. Em uma guerra informacional, não basta estar correto. É necessário sustentar, organizar e comunicar essa leitura em meio ao ruído, com consistência e direção.
O problema interno que ninguém quer enfrentar
Há um fator dentro do próprio campo progressista que precisa ser enfrentado com maturidade e precisão. Parte da desorganização atual não decorre apenas de pressões externas, mas de dificuldades internas em lidar com a correlação concreta de forças e com as exigências de uma disputa real pelo poder.
Uma dessas dificuldades aparece na forma como determinados setores da esquerda se relacionam com o governo. A crítica é legítima e necessária. Ela corrige rumos, tensiona limites e impede acomodação. O problema surge quando essa crítica se afasta da leitura do cenário e passa a ignorar as condições concretas em que o governo opera. Em um ambiente marcado por Congresso hostil, pressão constante e disputa institucional intensa, desconsiderar esses limites não fortalece a crítica. Reduz sua eficácia política.
Em determinados momentos, essa desconexão se traduz em gestos que, ainda que orientados por coerência programática, produzem efeitos contraditórios. Ao não considerar o impacto estratégico de determinadas posições, abre-se espaço para convergências circunstanciais com o campo adversário ou para a construção de narrativas que enfraquecem o próprio campo democrático. O problema, nesse caso, não está na divergência, mas na ausência de mediação entre princípio e contexto.
Há também uma tendência à disputa por pureza política, em que a afirmação de identidade se sobrepõe à construção de maioria. Nesse tipo de dinâmica, reconhecer limites e compor passa a ser visto como concessão indevida, e não como parte da prática política em sociedades complexas. O resultado é a fragmentação em momentos que exigiriam maior coesão.
Outro ponto relevante é a dificuldade de transformar pautas corretas em propostas politicamente viáveis. Temas como o fim da escala 6×1 ou a tarifa zero possuem alto potencial de mobilização, mas exigem explicação, desenho institucional e construção de apoio para se tornarem realidade. Quando esse trabalho não é realizado, abre-se espaço para que o adversário reduza essas pautas a promessas vagas ou inviáveis, esvaziando seu potencial político.
Nada disso implica abdicar de divergências ou da capacidade crítica. Pelo contrário. Implica reconhecer que, em determinados momentos históricos, a forma como essas divergências são expressas pode fortalecer ou enfraquecer o conjunto. Em uma disputa apertada, cada gesto carrega peso estratégico.
Enfrentar esse problema exige abandonar a lógica da reação imediata e construir uma prática política consciente de suas consequências. Não se trata de silenciar diferenças, mas de situá-las dentro de um horizonte comum. Sem essa mediação, a crítica perde potência e pode, ainda que involuntariamente, contribuir para o avanço do adversário.
O que reconecta com o povo e reorganiza o campo
Se o diagnóstico aponta para uma crise de interpretação e organização, a saída não pode ser abstrata. Ela precisa partir da vida concreta, daquilo que reorganiza a percepção popular e reconecta o campo progressista com as experiências reais da sociedade. É nesse terreno que determinadas agendas ganham centralidade estratégica.
O debate sobre o fim da escala 6×1 recoloca o trabalho no centro da política. Não como formulação genérica, mas como experiência cotidiana. Trata-se de tempo de vida, de saúde, de convivência e de dignidade. É uma pauta que atravessa gerações, setores e territórios, e que encontra amplo respaldo social mesmo entre aqueles que ainda não dominam seus detalhes. Quando bem apresentada, ela não apenas mobiliza, mas organiza politicamente, porque torna visível uma questão essencial: a economia precisa estar subordinada à vida, e não o contrário.
A discussão sobre a tarifa zero atua no mesmo plano. Ela incide diretamente sobre o custo de vida e sobre o direito à cidade. Transporte não é apenas deslocamento, é acesso efetivo a trabalho, educação, saúde e cultura. Quando políticas dessa natureza são implementadas ou debatidas com consistência, o impacto é imediato. Elas deixam de ser promessa e passam a ser experiência concreta, criando um vínculo direto entre política pública e melhoria de vida.
A pauta da soberania nacional, por sua vez, introduz um elemento adicional de profundidade. Em um cenário de pressões externas, disputas geopolíticas e controle de recursos estratégicos, ela redefine o eixo do debate. Soberania não é abstração. É a capacidade de decidir sobre recursos, proteger instituições e definir rumos sem submissão. É também a linha que separa um projeto de país de uma condição subordinada. Quando esse tema é tratado de forma clara e conectado às condições concretas, ele reorganiza o campo político em torno de uma questão decisiva.
O que essas agendas têm em comum é o fato de partirem da realidade material, produzirem efeitos diretos na vida das pessoas e permitirem a construção de uma narrativa coerente de projeto nacional. Mais do que isso, oferecem um ponto de convergência em um campo fragmentado, criando um espaço compartilhado de atuação.
Reorganizar o campo progressista passa por essa reconexão. Não basta reagir a crises ou responder ao adversário. É necessário disputar sentido a partir de propostas que transformem a vida concreta e sejam compreendidas como parte de um projeto maior. Quando isso acontece, a política deixa de ser apenas discurso e passa a ser vivida.
É nesse terreno que a eleição de 2026 será decidida. Não na abstração, mas na capacidade de transformar projeto em realidade e realidade em consciência política.
Conclusão — A escolha histórica
O campo progressista brasileiro não enfrenta apenas um adversário externo organizado e agressivo. Enfrenta, neste momento, um desafio interno mais silencioso e igualmente decisivo: a necessidade de voltar a compreender a realidade como ela é, e não como se gostaria que fosse.
A eleição de 2026 não será vencida por convicção moral, nem por memória histórica, nem por comparação com o passado. Ela será decidida na capacidade de interpretar corretamente o presente e agir a partir dessa leitura. Isso exige abandonar tanto a euforia confortável quanto o desespero antecipado. Exige substituir reação por estratégia, impulso por organização, ruído por direção.
Não se trata de exigir unanimidade ou silenciar divergências. Trata-se de reconhecer que há momentos em que a forma de agir pesa tanto quanto o conteúdo das posições. Em uma disputa apertada, cada gesto, cada palavra e cada escolha produzem efeitos que ultrapassam a intenção individual e impactam o conjunto.
Há, ao mesmo tempo, uma oportunidade concreta. Pautas que dialogam diretamente com a vida das pessoas, como o trabalho, o custo de vida e a soberania nacional, oferecem um caminho real de reconexão entre política e sociedade. Mas elas só cumprirão esse papel se forem assumidas com clareza, explicadas com rigor e organizadas com disciplina.
O que está em jogo não é apenas uma eleição. É a capacidade do campo democrático de se orientar em um mundo marcado por conflito, disputa de narrativas e transformação acelerada. E essa capacidade não se constrói com torcida. Constrói-se com leitura, organização e ação consciente.
A história não recompensa quem torce. Recompensa quem compreende e organiza.
Artigo publicado originalmente em <código aberto>
Foto: Ricardo Stuckert/PR
FONTE: https://www.brasil247.com/blog/a-esquerda-precisa-parar-de-torcer-e-voltar-a-ler-a-realidade