Na América Latina, a instrumentalização da fé assume contornos próprios, moldados pela história de desigualdades.
Há momentos em que a política, para compreender sua própria decadência, precisa recuperar exemplos de outra época. A frase escrita por Aldo Moro à esposa, pouco antes de ser assassinado pelas Brigadas Vermelhas em 1978 — “Gostaria de compreender, com meus pequenos olhos mortais, como nos veremos depois. Seria belíssimo se houvesse luz” — é um desses instantes de humanidade que nos recordam porque alguns líderes permanecem como referências éticas.
Moro foi um dos grandes estadistas italianos do pós-guerra, católico devoto, duas vezes primeiro-ministro e artífice da reconstrução democrática da Itália. Mais do que isso: foi o homem que ousou defender o “compromisso histórico” com o Partido Comunista Italiano, convencido de que a democracia só sobreviveria se conseguisse integrar a esquerda em sua legitimidade plena — gesto que lhe rendeu respeito profundo de amplos setores progressistas europeus.
Religioso na esfera íntima, jamais transformou sua fé em coreografia pública. Sua espiritualidade não era marketing, nem escudo moral, nem instrumento de manipulação; era um fundamento ético pessoal que jamais invadiu a República. Representava uma época em que a fé, vivida com sobriedade, servia para ancorar valores democráticos — e não para chantagear afetos, dividir sociedades ou sacralizar líderes.
A distância entre o recato religioso de Moro e o exibicionismo militante que tomou a política contemporânea diz muito sobre a crise de maturidade que atravessa democracias em várias partes do mundo. Se o estadista italiano mantinha sua fé no domínio privado para proteger a integridade do Estado, hoje vemos o inverso: políticos que expõem a fé como espetáculo para capturar o Estado e paralisar o debate público.
Vivemos hoje uma era em que o sagrado é manipulado como ferramenta de guerra cultural. O fenômeno, longe de ser localizado, tem caráter global: dos Estados Unidos de Donald Trump ao México das seitas ultracatólicas, da Venezuela de Maduro ao Brasil de Bolsonaro, observa-se a mesma apropriação agressiva da retórica religiosa para fins políticos. O que antes era dimensão privada converteu-se em performance de massa, calibrada para redes sociais, com slogans bíblicos esvaziados de espiritualidade e transformados em armas de polarização. O que morreu, nesse processo, não foi a fé, mas sua integridade.
Nos Estados Unidos, o caso é hoje relativamente evidente. A congressista Marjorie Taylor Greene, até pouco tempo um dos ícones do trumpismo radical, declarou sua ruptura com Donald Trump por meio de uma exortação cristológica, misturando salvação espiritual com ressentimentos partidários. A fronteira entre a fé e o extremismo ideológico se dissolveu, criando um híbrido inquietante: um cristianismo político que não prega compaixão, mas confrontação; não apela à humildade, mas à excepcionalidade divina de seus líderes.
Steve Bannon, ideólogo do MAGA, encena essa fusão com precisão quase litúrgica: em seus vídeos de proselitismo, dezenas de imagens de Cristo Pantocrator — a tradicional figura bizantina que retrata Jesus como soberano do universo, o “governante de tudo” — compõem o cenário, enquanto ele atribui a Trump uma missão providencial. Não se trata de metáfora nem de espiritualidade, mas de estratégia calculada para investir o líder político de uma aura sagrada, transformando divergência em heresia e oposição em pecado.
O funeral de Charlie Kirk, jovem ativista da extrema direita assassinado recentemente, consolidou essa fusão entre fé e ideologia em uma liturgia política que ocupa o espaço que antes pertencia às igrejas. Ali, líderes republicanos e pregadores eletrônicos adotaram um discurso quase messiânico, reafirmando a ideia de que seu movimento é perseguido não por razões políticas ou morais, mas por representar um projeto divino ameaçado pelos “inimigos da nação”. A retórica funciona porque oferece aos seguidores não apenas uma causa, mas uma identidade espiritual, uma narrativa de redenção coletiva e uma cruzada moralizadora.
Esse fenômeno não é exclusividade dos Estados Unidos. Na América Latina, a instrumentalização da fé assume contornos próprios, moldados pela história de desigualdades, pela força das igrejas evangélicas e pela crise dos sistemas de representação.
No México, figuras como Eduardo Verástegui ator e produtor mexicano — que abandonou a carreira artística tradicional para se tornar líder ultracatólico, ligado a grupos conservadores como El Yunque —, tornou-se conhecido por sua militância contra direitos reprodutivos, políticas de gênero e agendas progressistas. Ele é hoje uma das figuras mais influentes da direita religiosa no México, usando redes sociais e campanhas públicas com forte retórica messiânica. Verástegui e o grupo El Yunque transformaram o discurso religioso em arma política, atacando políticas de gênero, questões climáticas e até a Maçonaria com fervor de cruzado digital. São personagens que conjugam oração com fuzis, espiritualidade com culto à violência, e que mobilizam seguidores por meio de mensagens que misturam ressentimento social e fanatismo moral.
Verástegui tentou se lançar como candidato independente para a eleição presidencial de 2024. Contudo, seu discurso ultraconservador, inspirado no “direito duro” estilo Trump — com forte ênfase em discursos contra o aborto, críticas à “ideologia de gênero” e retórica religiosa — não encontrou apoio de massa suficiente. A eleição de Sheinbaum, vitoriosa com ampla margem e reeleição da aliança de centro-esquerda (Morena + aliados), foi interpretada por analistas como demonstração clara de que o “populismo de direita com cobertura religiosa” não decolou no México — ao contrário do que ocorreu em outros países da América Latina.
Na Venezuela, Nicolás Maduro, em meio ao acirramento das tensões com os Estados Unidos, também recorreu ao fervor religioso como escudo político. Em uma cerimônia transmitida nacionalmente, proclamou Jesus Cristo como “Senhor e Mestre da Venezuela”, numa tentativa transparente de ocupar simbolicamente o espaço das igrejas e canalizar a fé popular para a manutenção de seu poder.
Não importa a ideologia: a tática é a mesma. Seja uma direita radicalizada ou um regime autoritário de esquerda, quando a religião passa a agir como colete moral dos governantes, a política adquire uma imunidade artificial que dispensa prestação de contas e legitima abusos de autoridade.
E então chegamos ao Brasil, talvez o laboratório mais sofisticado dessa fusão entre fé performática e estratégia política. Jair Bolsonaro e Michelle Bolsonaro transformaram o país em campo de experimentação de uma estética religiosa que mistura culto neopentecostal, marketing digital e guerra cultural. A frase “Deus acima de tudo” nunca significou espiritualidade; foi, desde o início, um mecanismo de blindagem moral, uma estratégia para transformar críticas legítimas em ataques à fé do povo. Bolsonaro percebeu rapidamente que a religião pode funcionar como território emocional blindado, capaz de converter ressentimentos em identidade política, e alinhou-se às denominações mais radicalizadas.
Michelle Bolsonaro, por sua vez, construiu uma persona pública que oscila entre primeira-dama, pregadora improvisada e influenciadora divina. E nada ilustra melhor essa estetização da fé do que sua frase, postada em rede social após a prisão de Jair Bolsonaro: “E os céus anunciarão a sua justiça; pois Deus mesmo é o juiz”, trecho de um Salmo.
A declaração — que ganhou milhões de compartilhamentos — não foi apenas um gesto emocional de esposa, mas um cálculo político de alto impacto. Michelle não apenas inverte a lógica jurídica, como também impede o debate democrático, substituindo o exame de delitos pela santificação messiânica. É a religião convertida em colete à prova de crítica.
Esse movimento não nasce do nada. Ele ecoa tradições autoritárias que usavam o sagrado para legitimar o poder e dissolver responsabilidades. A crítica clássica da esquerda — a religião como “ópio do povo”, segundo Marx, nunca se referiu à fé sincera das pessoas, mas ao uso deliberado do discurso religioso pelas classes dominantes para anestesiar conflitos sociais e manipular consciências. É exatamente esse mecanismo que retorna agora, atualizado para o século das redes sociais: o ópio já não está nos templos, mas nos algoritmos; não é ministrado por sacerdotes, mas por pastores digitais, influenciadores ungidos e políticos desesperados por blindagem moral. A manipulação permanece a mesma, mas o alcance é incomparavelmente maior.
Esse modelo encontrou terreno fértil nas redes sociais brasileiras, onde a fé foi convertida em linguagem de engajamento e onde qualquer crítica às ações do governo Bolsonaro era rapidamente enquadrada como perseguição espiritual. Criou-se um ecossistema de pregadores digitais, influenciadores messiânicos e pastores de ocasião que garantiram ao bolsonarismo um poder de mobilização sem paralelo, especialmente entre grupos vulneráveis. A religião, nesse contexto, deixou de ser expressão de transcendência e se tornou capital político — acumulável, rentável e estratégico.
Há, obviamente, um risco maior. Quando políticos transformam a fé em instrumento de legitimação pessoal, produzem uma corrosão lenta e profunda da laicidade do Estado. E, quando parte da população passa a enxergar seus líderes como escolhidos divinos, a democracia perde sua função de controle e equilíbrio das paixões políticas.
É nesse ponto que a comparação com Aldo Moro faz ainda mais sentido: ele representava a maturidade do estadista que mantinha sua fé na esfera íntima para proteger a República, enquanto os populistas contemporâneos exibem sua fé para destruir qualquer separação entre Estado e credo.
O desafio brasileiro, nos próximos anos, será resgatar essa maturidade democrática. A fé pessoal é legítima; a fé instrumentalizada, não. A espiritualidade pode inspirar valores públicos; não pode servir como arma de intimidação moral. A democracia brasileira precisa recuperar o espaço da razão pública, reconstruir a separação entre Igreja e Estado e impedir que o país se transforme em palco permanente de uma guerra santa fabricada por marqueteiros e líderes ressentidos.
A luz que Aldo Moro desejava enxergar no instante final de sua vida talvez nos sirva como metáfora: não é uma luz divina, mas a luz da lucidez republicana, da política responsável, da convivência democrática. Em tempos de fanatismos exibidos e messianismos artificiais, talvez seja essa a luz que ainda precisamos buscar.
Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
FONTE: https://www.brasil247.com/blog/a-fe-em-exibicao-quando-a-politica-se-apropria-do-sagrado