Associação Brasileira dos Jornalistas

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A filosofia chinesa de uma ordem mundial multipolar igualitária e ordenada

Uma visão chinesa que propõe superar a hegemonia, reformar a governança global e construir um mundo multipolar baseado em multilateralismo real.

A China acredita que o mundo atual passa por transformações profundas, inéditas em um século. No curto prazo, a ordem mundial formada após a Segunda Guerra Mundial enfrenta ajustes; no longo prazo, o modelo multipolar sob o sistema vestfaliano tornou-se insustentável.

Por que a China se opõe ao conceito de “G2”? Porque a China não tem o desejo de se tornar um novo Estados Unidos. O país já foi vítima da rivalidade hegemônica entre EUA e União Soviética. Já em 1974, Deng Xiaoping afirmou claramente, na Sessão Especial da Sexta Assembleia Geral da ONU: se a China se desenvolver no futuro e também buscar a hegemonia, o povo chinês e os povos do mundo se unirão para derrotar esse hegemonismo. O gene cultural chinês, como expresso no I Ching, é o de “um grupo de dragões sem líder”, e não a busca por “liderança” ou “dominação”. Além disso, na era da inteligência artificial, o modelo norte-americano de “o vencedor leva tudo” é insustentável e impopular; o verdadeiro modelo de código aberto representa a direção futura do desenvolvimento.

I. O que é a ordem mundial multipolar igualitária e ordenada defendida pela China?

A China defende um mundo multipolar igualitário e ordenado e uma globalização econômica inclusiva. O núcleo dessa proposta é a adesão à igualdade entre todos os países, grandes ou pequenos, a oposição ao hegemonismo e à política de poder e a promoção efetiva da democratização das relações internacionais.

Para garantir que o processo de multipolarização seja, em geral, estável e construtivo, é necessário defender conjuntamente os propósitos e princípios da Carta das Nações Unidas, respeitar coletivamente as normas básicas universalmente reconhecidas das relações internacionais e praticar o verdadeiro multilateralismo. Essa é precisamente a resposta chinesa às questões do nosso tempo.

Acadêmicos e autoridades ocidentais costumam perguntar: que tipo de multipolarização a China quer promover? A multipolarização é necessariamente algo positivo? Com base na experiência histórica do Ocidente, a multipolarização pode trazer instabilidade e até conflitos. A paz é vista como um intervalo entre guerras, e o equilíbrio multipolar como uma exceção ocasional e de curta duração. A proposta chinesa de construir um mundo multipolar igualitário e ordenado parte exatamente do diagnóstico de que a multipolarização dominada pelo Ocidente não é nem igualitária nem ordenada. A multipolarização histórica foi “desigual e desordenada” por três razões fundamentais.

Primeiro, o determinismo teísta e o eurocentrismo moldaram uma forma civilizatória autocentrada e arrogante nas relações internacionais ocidentais. Os chamados valores universais do Ocidente são, na essência, uma dedução moderna de valores do teísmo cristão. O determinismo deu origem a teorias como o “choque de civilizações” e o “fim da história”, que sustentam uma visão linear da evolução e defendem unilateralmente um suposto desfecho final da história. Essa perspectiva autocentrada faz com que a política internacional, no contexto ocidental, não seja verdadeiramente política mundial. Hoje, a governança global dominada pelo Ocidente enfrenta problemas como a cristalização de vantagens de pioneirismo, o engessamento de regras e a dependência de trajetórias, o que gerou amplo descontentamento entre os países do Sul Global. O multilateralismo ocidental é uma ordem liderada pelos Estados Unidos e pelo Ocidente, baseada em sistemas de alianças e marcada pela exclusividade de valores. Nos últimos anos, passou a promover ainda uma “ordem internacional baseada em regras”, tentando compensar a insuficiência de poder com supostas “regras”. Josep Borrell, alto representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, lamentou na Assembleia Geral da ONU no ano passado que “o mundo está se tornando mais multipolar, mas o multilateralismo está enfraquecendo”. O núcleo de sua queixa é que a multipolarização ampliou a influência da China, reduziu o espaço da Europa e não refletiu a primazia normativa da União Europeia.

Segundo, a suposição axiomática da maldade inerente da natureza humana. A doutrina cristã do pecado original sustenta que a natureza humana é intrinsecamente má e que o poder também o é. Assim, “conter o poder com poder” tornou-se a regra de ouro do Ocidente. O egoísmo humano é traduzido na exclusividade dos interesses nacionais, na anarquia da comunidade internacional e em um sistema de autoajuda. O Renascimento e o Iluminismo europeus promoveram a libertação da natureza humana do divino, e a Guerra dos Trinta Anos liberou o caráter nacional, dando origem aos conceitos modernos das relações internacionais. Esse é o ponto de partida do realismo: se a natureza humana é má, o poder também o é; a afirmação da natureza humana leva à afirmação do caráter nacional, o que desencadeia expansão externa bárbara, pilhagem e colonização. Sua lógica básica é “buscar segurança por meio do poder e interesses por meio da força”. Esse pensamento autocentrado explica por que o Ocidente prefere o minilateralismo ou um multilateralismo dominado por uma potência única. A defesa europeia da “unidade na diversidade” parece semelhante à ideia chinesa tradicional de “harmonia na diversidade”, mas seus significados são fundamentalmente distintos.

Terceiro, a incapacidade do Ocidente de se adaptar à transformação civilizatória. A civilização humana está passando de uma civilização industrial e comercial para uma civilização digital e ecológica, e o Ocidente tem demonstrado clara incompatibilidade nesse processo — um aspecto importante das profundas mudanças inéditas em um século. Por isso, a China não apenas precisa responder às mudanças no padrão mundial dominado pelo Ocidente, mas também assumir maior responsabilidade na liderança da transformação da civilização humana. Esse é um requisito inerente à construção de uma comunidade com futuro compartilhado para a humanidade e uma missão histórica de criar uma nova forma de civilização política internacional.

Em síntese, as relações internacionais discutidas pelo Ocidente são, na essência, relações internas ao próprio Ocidente, difíceis de escapar a ciclos históricos. Diante da ascensão do mundo não ocidental, surgem discursos como a “teoria da ameaça chinesa”, a “tragédia da política das grandes potências” e a “armadilha de Tucídides”. A causa raiz é a incapacidade do sistema internacional dominado pelo Ocidente de acomodar a ascensão do mundo não ocidental e as profundas transformações associadas. A estrutura hierárquica e a desigualdade confrontacional formadas nesse ciclo histórico representam a multipolarização de uma velha forma civilizatória. O que a China defende são relações internacionais igualitárias, contidas e pacíficas. Um mundo multipolar igualitário e ordenado segue o princípio “de dentro para fora”: somente com boa governança interna é possível evitar a externalização de problemas e reduzir externalidades negativas. As relações internacionais ocidentais são uma extensão da lógica competitiva interna. Da civilização da escassez à civilização cristã expansionista moderna, somada à expansão do capital na era da globalização, o resultado inevitável é uma multipolarização conflitiva e desordenada.

Assim, “igualdade” deve não apenas resolver a dependência desigual dentro do sistema, mas também enfrentar o dilema de a igualdade soberana se tornar vazia devido a capacidades desiguais. “Ordem” deve não apenas salvaguardar a ordem internacional do pós-guerra baseada nos propósitos da Carta da ONU e no direito internacional, mas também resolver a sub-representação dos países do Sul Global — que concentram mais de 80% da população mundial — e fortalecer a autoridade e a eficácia das Nações Unidas. Essa ordem, inspirada no I Ching — “um grupo de dragões sem líder” — e baseada no verdadeiro multilateralismo, é o núcleo conceitual de uma comunidade com futuro compartilhado para a humanidade.

II. Por que defender uma ordem mundial multipolar igualitária e ordenada?

Uma ordem multipolar igualitária e ordenada responde especificamente a três fenômenos caóticos: “desigual, porém ordenado”, “igual, porém desordenado” e “desigual e desordenado”, ao mesmo tempo em que expõe a “hipocrisia dos três Cs” das visões ocidentais sobre igualdade: Created (criada por desígnio divino), Capital-driven (movida pelo capital) e Coalition of like-minded countries (coalizões ideológicas de países afins).

(I) Igualdade: da igualdade de todos os seres e deuses à igualdade de todos os países

No contexto chinês, a igualdade tem três dimensões:

  1. Igualdade de origem: da noção budista de “igualdade de todos os seres” e da visão chinesa de “igualdade de todos os deuses” à “igualdade de todos os países” nas relações internacionais modernas. Um exemplo é a elaboração da Declaração Universal dos Direitos Humanos. O rascunho original dos Estados Unidos começava com “todos os homens são criados iguais”. A acadêmica indiana Hansa Mehta revisou para “todos os homens e mulheres”. O acadêmico chinês Pengchun Chang substituiu “criados” por “nascidos”, estabelecendo o princípio central de “nascidos iguais” e abandonando a conotação religiosa da “igualdade criada por Deus”.
  2. Igualdade de processo: a China defende que todos os países participem das decisões “à mesa”, e que os problemas permaneçam “no cardápio” para serem resolvidos em conjunto, em vez de alguns ocuparem a mesa enquanto outros se tornam o próprio cardápio dominado.
  3. Igualdade de resultados: a busca por igualdade nas capacidades soberanas, e não apenas pela igualdade formal no plano jurídico. Por isso, a China promove a modernização comum do mundo por meio da Iniciativa Cinturão e Rota, praticando o conceito das “Três Imparcialidades” do Livro dos Ritos – Confúcio em Ócio: “O Céu cobre a todos sem parcialidade, a Terra sustenta a todos sem parcialidade, o Sol e a Lua iluminam a todos sem parcialidade. Mantendo essas três, serve-se ao mundo.”

(II) Ordem

Da ordem e sustentabilidade à equidade e racionalidade, a China se opõe ao discurso vazio de uma “ordem baseada em regras”. O essencial é esclarecer três questões: quais são as regras, quem as formula e como são implementadas. A ordem mundial defendida pela China é aberta e inclusiva, uma ordem justa que pertence verdadeiramente a todo o mundo — não um sistema de confronto, nem uma reconstrução do zero, muito menos a substituição dos Estados Unidos como novo hegemon, mas o fim da própria hegemonia. Em particular, é necessário abandonar o sistema de alianças liderado pelos Estados Unidos, que frequentemente gera problemas: a OTAN deveria ter sido dissolvida após a Guerra Fria, mas continuou a se expandir para o leste, levando, em última instância, à crise da Ucrânia. As relações de dependência criadas por esse sistema também tornam vazia a noção de “autonomia estratégica”.

O que significa ser “ordenado”? Em termos de origem, a ordem não é uma Pax Americana nem uma Pax Occidentalis, mas uma ordem gerada internamente, justa e racional, e não imposta de fora. Em termos de procedimento, enfatiza ampla consulta, contribuição conjunta e benefícios compartilhados, aperfeiçoando normas no processo de desenvolvimento e promovendo o desenvolvimento no processo de padronização. Isso difere da lógica norte-americana do “vencedor leva tudo” e do modelo europeu de “poder normativo”, que prioriza normas antes de tudo. Além disso, um mundo multipolar igualitário e ordenado deve se basear em uma globalização econômica inclusiva e ser garantido por uma diversidade cultural harmoniosa. Por isso, a China propôs sucessivamente a Iniciativa de Desenvolvimento Global, a Iniciativa de Segurança Global, a Iniciativa de Civilização Global e a Iniciativa de Governança Global. De acordo com a filosofia dos cinco elementos — metal, madeira, água, fogo e terra —, a China propõe futuramente a Iniciativa Ecológica Global, para promover conjuntamente a construção de uma comunidade com futuro compartilhado para a humanidade.

Por trás disso está a sabedoria de uma comunidade com futuro compartilhado, entrelaçada com a multipolarização política e a globalização econômica.

III. Como construir uma ordem mundial multipolar igualitária e ordenada?

A construção de uma ordem mundial multipolar igualitária e ordenada é um processo gradual de reforma, não uma revolução radical. É como chocar um pintinho: se o ovo for quebrado de fora para dentro, vira apenas alimento; somente quando a casca se rompe naturalmente por dentro é que uma nova vida pode nascer.

Em 2006, escrevi um artigo intitulado “Impedir que os Estados Unidos declinem rápido demais”, e a evolução da ordem mundial atual confirmou esse diagnóstico. As políticas do governo Trump aceleraram o afrouxamento da velha ordem a partir de dentro, e é preciso estar atento aos impactos desse processo.

O Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB), proposto pela China, é um exemplo concreto de uma multipolaridade igualitária e ordenada. O presidente do AIIB, Jin Liqun, afirmou certa vez que “nunca houve veto” (no to no): a China detém poder de veto, mas nunca o utilizou. Embora seja a maior contribuinte, tenha a sede em Pequim e o primeiro presidente seja chinês, os principais beneficiários do banco são países como a Índia. Seu funcionamento segue integralmente as regras das instituições financeiras multilaterais internacionais e até evita deliberadamente qualquer tendência à “sinicização”. De forma semelhante, a Iniciativa Cinturão e Rota, os modelos “BRICS Plus” e “SCO Plus”, assim como o conceito de “IA Plus”, seguem essa mesma lógica central: ampla consulta, contribuição conjunta e benefícios compartilhados, com rejeição à dominação hegemônica.

(Complementado e aprimorado com base no discurso original e nos debates realizados na conferência)

Foto: Xinhua/Chen Zhonghao

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/a-filosofia-chinesa-de-uma-ordem-mundial-multipolar-igualitaria-e-ordenada