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A força de Pequim

Da pobreza extrema à liderança industrial mundial, a China consolidou um projeto nacional baseado em disciplina, estratégia e continuidade histórica.

Há mais de trinta anos acompanho o desenvolvimento chinês, estudo suas estruturas de poder, observo suas reformas econômicas e procuro compreender como uma civilização milenar conseguiu atravessar guerras, humilhações externas, fome coletiva e revoluções sem perder a capacidade de planejar o futuro.

Poucos países contemporâneos demonstram tamanho senso de continuidade histórica.

Em salas de aula universitárias, congressos acadêmicos e artigos publicados ao longo dessas décadas, sempre chamaram atenção a velocidade e a profundidade das transformações chinesas. Nessas pesquisas, ensaios e análises jornalísticas, recorro permanentemente a fontes ocidentais de reconhecida credibilidade — Banco Mundial, FMI, ONU, universidades europeias e norte-americanas, relatórios econômicos internacionais, além de jornais como The New York Times, Financial Times e The Economist.

A intenção é simples.

Fugir tanto da propaganda quanto do preconceito ideológico.

A China exige observação cuidadosa.

Ao longo de mais de quatro milênios, o país atravessou guerras civis, invasões estrangeiras, rupturas dinásticas, fome e revoluções sem abandonar aquilo que talvez seja sua marca mais singular: a disposição de pensar em horizontes históricos longos.

Num planeta dominado pela ansiedade eleitoral, pelas oscilações das bolsas e pela velocidade superficial das redes sociais, Pequim opera em outro ritmo.

O governo chinês projeta ferrovias, universidades, corredores industriais e investimentos energéticos olhando para 2035, 2049 e até 2075.

Não se trata apenas de economia.

Trata-se de visão histórica.

Existe uma frase atribuída ao então primeiro-ministro chinês Zhou Enlai (1898–1976) que ajuda a compreender essa mentalidade. Questionado sobre os impactos da Revolução Francesa de 1789, Zhou teria respondido: “Ainda é cedo demais para avaliá-la.”

A frase talvez nunca tenha sido dita exatamente dessa maneira. Ainda assim, tornou-se simbólica porque traduz uma característica profunda da cultura política chinesa: processos históricos relevantes não são julgados pela espuma dos acontecimentos imediatos.

A virada econômica

Quando o presidente Xi Jinping (1953– ) declarou, em fevereiro de 2021, que a China havia eliminado a pobreza extrema em todo o país, o anúncio sintetizava um projeto iniciado décadas antes por Deng Xiaoping (1904–1997).

Entre 1978 e 2024, mais de 800 milhões de chineses deixaram a pobreza, segundo o Banco Mundial.

Nenhuma transformação social contemporânea ocorreu nessa escala.

Em 1981, quase 88% da população chinesa vivia em extrema pobreza. Hoje, a segunda maior economia do planeta abriga uma classe média estimada em mais de 400 milhões de pessoas.

O PIB chinês ultrapassou US$ 18 trilhões em 2025.

A China tornou-se o maior parceiro comercial de mais de 120 países. Também consolidou-se como principal comprador de commodities brasileiras, especialmente soja, minério de ferro e petróleo.

Tenho escrito inúmeros artigos ao longo dos anos tratando dessas mudanças da maneira mais imparcial possível, sempre estabelecendo comparações internacionais indispensáveis para compreender a velocidade da transformação chinesa.

Basta observar a inteligência artificial, os sistemas ferroviários de alta velocidade, a digitalização bancária, as cidades inteligentes e a modernização urbana de centros como Shenzhen, Xangai, Hangzhou e Chongqing.

Em várias dessas áreas, Estados Unidos e Europa passaram a correr atrás do atraso.

Diplomacia e influência

Outro aspecto que frequentemente impressiona é a consistência da diplomacia chinesa.

Ao longo dos últimos anos, em encontros acadêmicos, institucionais e culturais realizados em Brasília, tornou-se impossível não perceber o elevado preparo intelectual, o profissionalismo e a disciplina do corpo diplomático chinês no Brasil. Embaixadores, conselheiros e adidos demonstram conhecimento sólido sobre economia internacional, política brasileira e relações bilaterais.

Há método nisso.

A diplomacia chinesa raramente trabalha apenas para o presente. Ela constrói influência de forma gradual, paciente e silenciosa.

A história chinesa não pode ser analisada apenas como trajetória de um Estado moderno.

A China é uma civilização contínua.

Enquanto muitas nações contemporâneas possuem poucos séculos de existência, os chineses acumulam experiências administrativas, filosóficas e culturais que atravessaram milênios. Dinastias como Han, Tang, Song e Ming construíram sistemas sofisticados de arrecadação tributária, irrigação agrícola e burocracia profissionalizada quando boa parte da Europa ainda vivia fragmentada em feudos.

Muito antes do Ocidente discutir meritocracia, a China imperial já realizava exames públicos rigorosos para selecionar funcionários do Estado.

Também não é coincidência que invenções decisivas para a modernidade tenham surgido em território chinês. Papel, pólvora, bússola, impressão gráfica e técnicas hidráulicas avançadas nasceram ali séculos antes da Revolução Industrial europeia.

O peso das cicatrizes

Mas reduzir a história chinesa a uma sequência de êxitos seria distorcer os fatos.

O século XIX mergulhou o país numa das fases mais humilhantes de sua existência.

As Guerras do Ópio, iniciadas em 1839 pelo Império Britânico, abriram feridas que permanecem vivas na memória nacional chinesa. A derrota obrigou Pequim a aceitar tratados desiguais, ceder Hong Kong aos britânicos e abrir seus portos ao controle estrangeiro.

Quando Mao Zedong (1893–1976) proclamou a fundação da República Popular da China em 1º de outubro de 1949, o país era majoritariamente rural, pobre e devastado.

A expectativa média de vida mal ultrapassava 35 anos.

Mais de 80% da população era analfabeta.

Houve erros graves.

O Grande Salto Adiante e a Revolução Cultural produziram traumas humanos profundos.

Mas a virada econômica iniciada no fim dos anos 1970 alterou radicalmente o destino nacional. Deng Xiaoping compreendeu que slogans ideológicos não derrotariam a pobreza.

Sua frase mais célebre tornou-se símbolo do pragmatismo chinês moderno:

“Não importa a cor do gato, desde que ele cace ratos.”

Liderança tecnológica

Nas décadas seguintes, a economia chinesa cresceu perto de 10% ao ano durante mais de trinta anos consecutivos.

Em 2001, a entrada da China na Organização Mundial do Comércio acelerou sua integração global.

Em 2010, o país ultrapassou o Japão e tornou-se oficialmente a segunda maior economia do mundo.

Hoje, a China responde por aproximadamente 30% da produção industrial global.

Possui a maior malha ferroviária de alta velocidade do planeta, com mais de 45 mil quilômetros de trilhos.

Lidera a produção mundial de painéis solares, baterias de lítio, drones comerciais, carros elétricos e minerais processados para a transição energética.

Mais de 80% dos painéis solares produzidos no mundo saem de fábricas chinesas.

Em veículos elétricos, empresas como BYD e CATL tornaram-se gigantes globais diante de uma indústria europeia enfraquecida e de uma indústria norte-americana ainda tentando reorganizar sua cadeia produtiva.

No campo da infraestrutura, os números impressionam.

A China construiu, em apenas duas décadas, mais quilômetros de metrô do que muitos países europeus edificaram em um século inteiro.

O porto de Xangai permanece o maior do mundo em movimentação de contêineres.

Pequim também lidera investimentos globais em energia limpa e disputa supremacia em inteligência artificial, computação quântica e telecomunicações avançadas.

Empresas como Huawei desafiaram diretamente a hegemonia tecnológica norte-americana.

A disputa deixou de ser apenas econômica.

Tornou-se estratégica.

Washington e Pequim

É nesse ponto que a diferença entre o atual modelo político chinês e a crise contemporânea da política norte-americana se torna mais evidente.

Enquanto Pequim trabalha com metas industriais para 2049 — ano do centenário da República Popular da China —, os Estados Unidos vivem crescente polarização institucional, tensões raciais, disputas eleitorais permanentes e conflitos culturais internos.

A comparação entre Xi Jinping (1953– ) e Donald Trump (1946– ) revela estilos radicalmente distintos de liderança.

Xi fala frequentemente em estabilidade, continuidade histórica, multipolaridade e planejamento estratégico.

Trump concentra grande parte de sua retórica em confrontos internos, imigração, disputas ideológicas domésticas e embates eleitorais permanentes.

O ex-secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger (1923–2023), um dos maiores especialistas ocidentais em China, observou certa vez que “a China pensa em décadas; os Estados Unidos pensam em eleições”.

Kissinger compreendia que a força chinesa não nasce apenas de indicadores econômicos.

Ela repousa numa cultura estratégica consolidada ao longo dos séculos.

Literatura e cinema

Outro componente frequentemente ignorado é o papel da cultura contemporânea chinesa.

O escritor Mo Yan (1955– ) tornou-se uma das vozes literárias mais importantes da China moderna. Vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 2012, Mo Yan construiu uma obra marcada pela mistura de realismo, memória rural, violência política e humor ácido.

Seu romance Sorgo Vermelho, publicado em 1986, transformou-se num fenômeno internacional após ser adaptado para o cinema por Zhang Yimou (1950– ). O livro retrata a brutal ocupação japonesa da China nos anos 1930, expondo fome, violência militar e resistência camponesa.

Já obras como Peitos Grandes, Quadris Largos e As Baladas do Alho mergulham nas contradições sociais produzidas pelas transformações econômicas chinesas e pelos traumas políticos do século XX.

Outro nome central da literatura chinesa contemporânea é Yu Hua (1960– ). Seu romance Viver tornou-se um clássico ao narrar a trajetória de uma família devastada pelas turbulências políticas da China maoista, incluindo guerra civil, fome e Revolução Cultural.

Outra obra de enorme repercussão foi Crônica de um Vendedor de Sangue, romance que retrata pobreza, sobrevivência e dignidade humana em meio às dificuldades econômicas da China do pós-guerra.

No cinema, poucos diretores tiveram impacto tão profundo quanto Zhang Yimou (1950– ). Filmes como Sorgo Vermelho, vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim em 1988, Lanternas Vermelhas, indicado ao Oscar, e Hero, estrelado por Jet Li, Tony Leung e Maggie Cheung, transformaram-se em referências visuais do cinema contemporâneo.

Zhang Yimou combinou monumentalidade estética, crítica social e sofisticação visual como poucos diretores de sua geração. Em 2008, dirigiu a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim, assistida por bilhões de pessoas no planeta.

Outro cineasta fundamental é Chen Kaige (1952– ), autor de Adeus Minha Concubina, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1993 e considerado um dos maiores filmes asiáticos do século XX.

A obra acompanha cinquenta anos da história chinesa através da trajetória de dois artistas da Ópera de Pequim. O filme atravessa ocupação japonesa, guerra civil e Revolução Cultural, mostrando como mudanças políticas profundas podem destruir vidas, afetos e identidades culturais.

Encontro-me neste momento iniciando a escritura do meu vigésimo primeiro livro, dedicado justamente a essas reflexões sobre China, geopolítica, inteligência artificial, modernidade urbana e transformação econômica.

O eixo do século

Depois de décadas observando o comportamento das grandes potências, tornou-se impossível ignorar que o eixo econômico, tecnológico e industrial do século XXI desloca-se rapidamente para a Ásia.

Talvez esteja exatamente aí a principal diferença chinesa.

Em um mundo dominado pela política do improviso, pela ansiedade eleitoral e pela tirania do curto prazo, Pequim trabalha com paciência histórica, disciplina estratégica e metas nacionais que atravessam gerações. Enquanto parte do Ocidente consome energia em crises internas permanentes, disputas ideológicas estéreis e polarizações que fragmentam suas próprias sociedades, a China amplia silenciosamente sua influência industrial, tecnológica, financeira, científica e diplomática.

O século XXI ainda está sendo escrito.

Mas poucos movimentos geopolíticos parecem tão claros quanto este: pela primeira vez desde a Revolução Industrial, o eixo econômico, tecnológico e estratégico do planeta desloca-se de forma acelerada para a Ásia — e nenhum país simboliza essa mudança com tanta força, organização e ambição histórica quanto a China.

Foto: Xinhua

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/a-forca-de-pequim