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“A guerra suja não acontece só nas redes sociais”

Estrategista Amauri Chamorro diz que extrema direita combina desinformação, ocupação territorial e comunicação emocional para disputar eleições.

247 – A chamada “guerra suja” eleitoral deixou de se limitar à produção de notícias falsas nas redes sociais e passou a integrar um sistema mais amplo de disputa política, que combina desinformação, manipulação emocional, novas tecnologias e presença cotidiana nos territórios. A avaliação é do estrategista e consultor político Amauri Chamorro, que aponta ainda uma dificuldade das forças progressistas para se comunicar com segmentos sociais transformados nas últimas décadas.

Em entrevista ao programa Forças do Brasil, da TV 247, Chamorro, que já participou de campanhas presidenciais em diferentes países da América Latina, afirmou que a disseminação de informações falsas é apenas uma das dimensões do fenômeno. Para ele, compreender a vantagem conquistada pela extrema direita exige analisar também as mudanças no mercado de trabalho, o crescimento das igrejas evangélicas, o papel das plataformas digitais e o afastamento da esquerda de parte dos espaços de convivência popular.

“A guerra suja acontece dentro e fora das redes sociais”, afirmou.

Segundo Chamorro, as estratégias de manipulação eleitoral podem aparecer como mentiras fabricadas, informações parcialmente verdadeiras apresentadas sem contexto ou recortes construídos para modificar a percepção de determinado acontecimento. A inteligência artificial, acrescentou, amplia ainda mais a capacidade de produzir vídeos, imagens e vozes capazes de atribuir declarações ou comportamentos a pessoas que nunca os produziram.

O consultor citou como exemplo histórico da comunicação eleitoral brasileira a disseminação, em 2018, da falsa história conhecida como “mamadeira de piroca”. Também mencionou campanhas relacionadas à vacinação e ao Pix como demonstrações de mensagens simples construídas para despertar medo, indignação ou sensação de ameaça.

Na avaliação de Chamorro, a eficiência desse tipo de conteúdo está relacionada menos à capacidade de provar uma afirmação e mais à possibilidade de confirmar sentimentos já existentes em determinados grupos.

“As mentiras na guerra comunicacional hoje funcionam no sentido de tocar o coração daqueles grupos que precisam de uma justificativa para o que sentem e para o que acham”, disse.

O mecanismo estaria inserido no ambiente político frequentemente descrito como de “pós-verdade”, no qual vínculos emocionais podem assumir maior peso que evidências concretas. Para Chamorro, isso permite que a extrema direita produza conteúdos rápidos, de fácil compreensão e voltados à mobilização imediata.

O estrategista identifica nesse ponto um dos principais problemas enfrentados pela esquerda. Enquanto setores progressistas tendem a estruturar seus argumentos em explicações históricas, conceitos políticos e dados, adversários conseguem condensar temas complexos em mensagens capazes de provocar uma reação instantânea.

Chamorro mencionou o debate sobre o Pix para ilustrar essa diferença. Segundo ele, enquanto o governo precisava explicar mecanismos de fiscalização financeira e combate à lavagem de dinheiro, adversários apresentavam a questão como uma ameaça imediata ao trabalhador informal.

“O grande desafio é gerar uma comunicação que seja atrativa, que seja emocional, mas que não se vincule à mentira, que tenha um lastro real, concreto, com a ciência e com a verdade”, afirmou.

Para ele, a solução não está em reproduzir as práticas de desinformação da extrema direita. O problema é desenvolver uma linguagem política capaz de transformar questões complexas em mensagens compreensíveis para pessoas cuja rotina deixa pouco espaço para acompanhar debates partidários.

Nesse processo, Chamorro fez uma autocrítica à postura adotada por determinados setores progressistas diante do eleitorado. Segundo ele, atribuir derrotas eleitorais simplesmente à “despolitização” da população significa ignorar as condições materiais enfrentadas por trabalhadores submetidos a longas jornadas, transporte precário ou ocupações sem proteção social.

“A gente jogou a culpa nessa população porque ela não estava politizada. Então a gente afastou esses setores da gente”, afirmou.

O consultor argumenta que as mudanças ocorridas no Brasil durante as últimas décadas também alteraram a base social sobre a qual a esquerda construiu historicamente sua organização.

Durante boa parte do século XX, sindicatos, fábricas, associações comunitárias e movimentos ligados à Igreja Católica funcionavam como espaços permanentes de organização política. Trabalhadores compartilhavam o mesmo ambiente profissional e podiam ser mobilizados coletivamente em torno de demandas relacionadas a salário, jornada, férias, previdência e outros direitos.

Esse modelo foi abalado pelas mudanças no mercado de trabalho e pelo avanço de atividades mediadas por plataformas. Motoristas de aplicativo, entregadores e trabalhadores informais não estão concentrados em um único local, o que torna mais difícil reproduzir formas tradicionais de mobilização.

“Como é que a gente incide num Uber? Como é que a gente incide num trabalhador informal do iFood?”, questionou.

Para Chamorro, surgiu um novo imaginário em torno da figura do “empreendedor”, mesmo entre trabalhadores submetidos a jornadas extensas e sem garantias trabalhistas. A possibilidade de controlar os próprios horários ou elevar os rendimentos trabalhando mais horas pode ser percebida como liberdade, apesar da ausência de férias remuneradas, seguro-desemprego ou outras proteções.

Nesse ambiente, segundo ele, partidos de direita e grupos vinculados a igrejas passaram a disputar setores que anteriormente constituíam uma base importante das organizações de trabalhadores.

“Hoje eles criaram o Partido dos Empreendedores. Já não é: ‘eu sou CLT’. Agora: ‘eu sou empreendedor’”, resumiu.

Outro elemento apontado por Chamorro como decisivo é o crescimento das igrejas evangélicas nos bairros e periferias, simultaneamente à redução da presença cotidiana de partidos e organizações progressistas.

O estrategista argumentou que igrejas oferecem não apenas atividade religiosa, mas também redes de relacionamento, apoio comunitário, oportunidades econômicas e espaços de pertencimento. Em muitas regiões, esses locais passaram a desempenhar funções que anteriormente também eram exercidas por sindicatos, associações comunitárias e organizações políticas.

“As esquerdas deixaram de estar nos territórios e a gente viu crescer, em milhares de garagens do nosso país, igrejas evangélicas que dialogavam com aquele quarteirão, com aquele setor, com aquele bairro”, afirmou.

Para ele, essa presença física produz uma vantagem que não pode ser compensada exclusivamente pela comunicação digital. Enquanto partidos procuram alcançar eleitores por Instagram, TikTok, WhatsApp ou YouTube, determinadas organizações religiosas mantêm contato presencial com seus integrantes várias vezes por semana.

Chamorro ressalvou, porém, que o universo evangélico não pode ser tratado como um bloco único. Existem diferenças entre denominações, lideranças e posições políticas, além de uma parcela do eleitorado evangélico que apoia candidatos progressistas.

A questão central, segundo ele, é compreender por que determinados discursos da direita encontram adesão nesses segmentos, em vez de partir da ideia de que seus integrantes não fazem escolhas políticas racionais.

“É necessário fazer um esforço de estudo, de aproximação, de entendimento dessa realidade”, declarou.

Na avaliação do consultor, a perda de presença territorial da esquerda ocorreu paralelamente a um processo de institucionalização dos partidos progressistas. Após conquistar governos e administrações públicas, organizações anteriormente voltadas à mobilização social passaram a concentrar parte crescente de seus esforços na gestão do Estado.

Chamorro lembrou que as comunidades eclesiais de base, ligadas à Teologia da Libertação, tiveram participação importante nas mobilizações sociais do período de redemocratização e no surgimento do próprio Partido dos Trabalhadores.

Essas estruturas articulavam fé, organização comunitária e reivindicações concretas por água, iluminação, escolas, asfaltamento e outros serviços públicos. O enfraquecimento desse modelo abriu espaço para outras organizações religiosas que também passaram a exercer influência política.

Uma sociedade criada pelas próprias políticas progressistas

Para Chamorro, existe ainda um paradoxo adicional: parte significativa das transformações que modificaram o eleitorado brasileiro ocorreu durante governos progressistas.

Políticas de aumento de renda, ampliação do consumo, acesso à universidade e inclusão econômica ajudaram a criar grupos sociais com expectativas diferentes daquelas existentes no início dos governos Lula.

“O Brasil mudou sensivelmente para melhor, em grande parte graças às políticas públicas do presidente Lula e do Partido dos Trabalhadores. Porém, o Partido dos Trabalhadores, o presidente Lula e as próprias esquerdas não entenderam esse novo mundo criado por eles”, afirmou.

Isso significa, segundo Chamorro, que uma nova geração não compara necessariamente sua situação com a pobreza ou as restrições existentes duas ou três décadas atrás. Muitos já cresceram em um país onde determinados serviços, bens de consumo e oportunidades são considerados parte normal da vida.

A pergunta eleitoral passa, portanto, a ser menos sobre aquilo que foi conquistado anteriormente e mais sobre o que determinado projeto político oferece para o futuro.

Nesse cenário, Chamorro avalia que Lula representa uma exceção por manter uma capacidade própria de comunicação com segmentos populares. O estrategista atribui isso tanto à trajetória pessoal do presidente quanto à maneira como ele preservou características de linguagem associadas à sua origem social.

Ainda assim, considera que essa capacidade individual não resolve o desafio estrutural enfrentado pelo campo progressista.

Para Chamorro, a disputa eleitoral dos próximos anos dependerá da construção de novas formas de organização capazes de dialogar com trabalhadores de aplicativos, segmentos evangélicos, jovens e grupos inseridos em uma economia cada vez menos organizada em torno do emprego formal.

Isso também exigirá enfrentar uma estrutura digital controlada por grandes empresas privadas, cujos algoritmos determinam quais conteúdos alcançam maior circulação.

A “guerra suja”, portanto, não seria apenas uma sucessão de fake news produzidas durante os meses de campanha. Na análise do estrategista, trata-se de uma disputa permanente pela interpretação da realidade, pelos espaços de sociabilidade e pela capacidade de transformar sentimentos cotidianos em escolhas políticas.

“Não é só o meme ou o vídeo. É uma coisa muito mais complexa”, afirmou.

Para Chamorro, a resposta progressista passa por recuperar vínculos sociais fora das redes, compreender as transformações ocorridas no mundo do trabalho e produzir uma comunicação que dialogue com preocupações concretas sem abandonar evidências e fatos.

“A gente não se reinventou dentro desse novo mundo, nessa mudança de geração, nessa nova demografia”, concluiu.

FOTO: TV 247

FONTE: https://www.brasil247.com/entrevistas/a-guerra-suja-nao-acontece-so-nas-redes-sociais/