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A História não terminou

Da ilusão do “fim da história” à nova disputa pela ordem mundial.

No final dos anos 1980, quando o sistema soviético já dava sinais evidentes de colapso e pouco antes da queda do Muro de Berlim, o cientista político americano de origem japonesa Francis Fukuyama publicou o ensaio que se tornaria uma das interpretações mais influentes do período pós-Guerra Fria.

Em seu ensaio de 1989, posteriormente transformado no livro O fim da história e o último homem (1992), Fukuyama argumentou que a democracia liberal combinada com a economia de mercado havia se consolidado como a forma final de organização política e econômica das sociedades modernas.

Segundo essa interpretação, a humanidade teria alcançado o “ponto final de sua evolução ideológica”. Conflitos e crises continuariam a existir, mas não haveria mais um modelo alternativo capaz de rivalizar com o liberalismo político e o capitalismo de mercado.

Durante algum tempo, essa leitura pareceu convincente. A queda do Muro de Berlim e o colapso da União Soviética pareciam indicar que a grande disputa ideológica do século XX havia terminado. A globalização avançava rapidamente, o comércio internacional se expandia e a integração financeira parecia consolidar um sistema econômico cada vez mais interdependente.

Não deixa de haver certa ironia histórica no fato de que a tese do “fim da história” tenha sido formulada por um intelectual americano de origem japonesa. Francis Fukuyama, nascido em Chicago, construiu sua interpretação do triunfo do liberalismo a partir de uma tradição filosófica profundamente europeia, inspirada sobretudo em Georg Wilhelm Friedrich Hegel e na leitura que dele fez o filósofo Alexandre Kojève. Naquele momento histórico, a vitória do modelo político e econômico do Ocidente parecia confirmar essa interpretação.

Mas a história, como frequentemente ocorre, mostrou-se muito mais complexa.

As décadas seguintes revelaram que as forças estruturais da política e da economia mundial estavam longe de ter se esgotado.

O mundo que não seguiu o roteiro

As décadas seguintes revelaram fissuras profundas nessa visão otimista.

A crise financeira global de 2008 expôs a fragilidade estrutural do capitalismo financeirizado. As guerras do Oriente Médio demonstraram que o poder militar norte-americano não era capaz de reorganizar regiões inteiras do planeta. O retorno de nacionalismos e rivalidades geopolíticas também mostrou que a política internacional continuava longe de qualquer estabilidade duradoura.

Ao mesmo tempo, novos centros de dinamismo econômico começaram a emergir, deslocando gradualmente o eixo da economia mundial.

Se houve um fenômeno que mais claramente desafiou a tese do “fim da história”, esse fenômeno foi a ascensão da China.

A sombra da China

Em poucas décadas, a China realizou uma transformação econômica de proporções históricas. De economia relativamente periférica no final dos anos 1970, tornou-se o maior polo industrial do planeta, líder em diversos setores tecnológicos emergentes e principal parceiro comercial de grande parte do mundo em desenvolvimento.

Mais do que o tamanho de sua economia, porém, é o tipo de modelo de desenvolvimento chinês que provoca inquietação em Washington. A China alcançou esse avanço sem adotar o receituário clássico do liberalismo econômico ocidental. Seu sistema combina planejamento estatal, coordenação industrial, empresas públicas estratégicas e abertura seletiva ao mercado internacional.

Esse arranjo institucional desafia diretamente uma das premissas centrais do debate dos anos 1990: a ideia de que a integração à economia global levaria inevitavelmente à convergência política e econômica em direção ao modelo liberal ocidental.

Nada disso ocorreu.

Em vez de convergir para o modelo ocidental, a China construiu uma trajetória própria de desenvolvimento e passou a disputar liderança tecnológica, industrial e financeira em diversos setores estratégicos.

Para parte significativa da elite estratégica norte-americana, essa ascensão representa não apenas um desafio econômico, mas também um desafio geopolítico e ideológico. A possibilidade de que um país que não segue o modelo liberal ocidental se torne um dos principais motores da economia mundial coloca em xeque a narrativa de que a democracia liberal e o capitalismo desregulado constituiriam o destino inevitável das sociedades modernas.

A autocrítica de Fukuyama

Curiosamente, o próprio Fukuyama começou a reconhecer algumas dessas tensões.

Em obras posteriores, como The Origins of Political Order (2011) e Political Order and Political Decay (2014), ele reformulou parte de seu argumento original. Em vez de simplesmente afirmar a vitória definitiva do liberalismo, passou a enfatizar que uma ordem política estável depende da combinação de três elementos institucionais fundamentais: um Estado forte, capaz de implementar políticas públicas; o império da lei, que submete governantes e governados às mesmas normas; e a responsabilização democrática dos governos perante a sociedade.

Mais importante ainda, Fukuyama introduziu o conceito de decadência política. Instituições que um dia funcionaram bem podem, ao longo do tempo, tornar-se capturadas por interesses organizados e incapazes de responder às novas demandas sociais. O resultado é a perda de eficiência do Estado, o bloqueio das reformas e a crescente desconfiança da população em relação às instituições democráticas.

A crítica que veio antes

Muito antes dessa revisão parcial do próprio Fukuyama, diversos pensadores marxistas já haviam apontado uma fragilidade fundamental na tese do “fim da história”.

A democracia liberal não opera em um vazio social. Ela se desenvolve dentro de economias capitalistas que tendem a produzir concentração crescente de riqueza e poder econômico.

Esse processo inevitavelmente se traduz em influência política.

Grandes conglomerados financeiros, corporações multinacionais e elites econômicas passam a exercer influência crescente sobre governos, parlamentos e políticas públicas. O resultado é aquilo que muitos analistas descrevem como captura do Estado.

Sob essa perspectiva, aquilo que Fukuyama identifica como “decadência política” não seria apenas uma disfunção institucional ocasional, mas uma consequência estrutural da própria dinâmica do capitalismo contemporâneo.

Trump e o retorno da História

É nesse contexto mais amplo que as decisões estratégicas de Donald Trump precisam ser analisadas.

A escalada militar contra o Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz recolocam o mundo diante de um cenário típico das grandes disputas geopolíticas do século XX: competição por rotas energéticas, rearranjos de alianças e disputas abertas por influência regional.

Longe de consolidar a ordem liberal internacional, essas ações tendem a acelerar exatamente o processo oposto.

Conflitos prolongados drenam recursos, ampliam instabilidades e reforçam a percepção global de que a liderança norte-americana se tornou errática e imprevisível. Ao mesmo tempo, essas crises frequentemente acabam criando oportunidades estratégicas para outras potências que buscam ampliar seu espaço de influência no sistema internacional.

Um mundo novamente em conflito

A grande ironia histórica é evidente.

Enquanto Fukuyama imaginava que a humanidade caminhava para uma era de estabilidade liberal, o início do século XXI tem sido marcado pelo retorno das rivalidades geopolíticas, pela fragmentação da economia global e pela emergência de novos centros de poder.

A história não terminou.

Ela apenas entrou em uma nova fase — possivelmente mais instável, mais competitiva e mais imprevisível do que aquela que muitos imaginaram no entusiasmo do pós-Guerra Fria.

Foto: Molly Riley/Casa Branca

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/a-historia-nao-terminou-n042a5xm